Lutas

“Nem mais um passo atrás”: Marcha do Orgulho LGBTI+ enche Avenida da Liberdade

07 de junho 2025 - 18:26

Milhares de pessoas desfilaram este sábado em Lisboa em defesa dos direitos conquistados pelo movimento nas últimas décadas e das liberdades ameaçadas com o crescimento eleitoral da extrema-direita.

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Marcha do Orgulho LGBTI+ de Lisboa
Marcha do Orgulho LGBTI+ de Lisboa. Foto de dezanove.pt

A Marcha do Orgulho LGBTI+ de Lisboa voltou a juntar muitos milhares de pessoas num desfile pela Avenida da Liberdade, para exigir que não se deem passos atrás nos direitos LGBTQIA+ e nos direitos de todas as pessoas. A adesão ultrapassou mesmo a do ano passado, quando se assinalou a 25ª edição da marcha na capital.

O manifesto da marcha apela à participação política nas comunidades locais, defendendo que “é também com essa proximidade que conseguiremos inverter a tendência do ódio e da destruição” nas próximas eleições autárquicas, a par de uma “postura para a diversidade, solidária e interseccional”.

Os organizadores contestam o endurecimento do discurso e das práticas da direita, dando o exemplo da “ofensiva do governo AD sobre a disciplina de Cidadania e Desenvolvimento, como se a educação sexual e para a cidadania não fizesse parte da formação mais básica e como se a diversidade humana pudesse ser negada nas suas múltiplas expressões”. Num contexto político em que “a liberdade e a democracia estão a ser atacadas”, o movimento diz que “não é apenas a nossa liberdade que está em jogo”, mas tudo o que foi conquistado nas últimas três décadas.

“Liberdade é sairmos à rua sem ter medo, é podermos viver como desejamos”

Presente nesta marcha, a coordenadora do Bloco de Esquerda disse aos jornalistas que “esta não é apenas uma celebração. Esta é, cada dia mais, uma luta pela liberdade” e “a liberdade também é poder sair à rua sem medo e podermos respeitar as pessoas pelas suas escolhas”.

Mariana Mortágua diz que “a liberdade está hoje mais em causa do que estava no ano passado e do que estava há dois anos”, dado o crescimento da extrema-direita. Mas “se está tanta gente na rua hoje aqui, e vai continuar a estar, é porque também há uma multidão de pessoas que querem dizer, por um lado que rejeitam esta ideia egoísta e violência, e por outro, que têm muito orgulho e que saem à rua para celebrar e para mostrar a sua liberdade”.

“Num momento em que tantos falam sobre liberdade, é importante percebermos que a liberdade é mesmo isto, é sairmos à rua sem ter medo, é podermos viver como desejamos, é podermos amar quem queremos. Esse é um direito que tem sido conquistado ao longo dos anos em Portugal, que hoje está sob ameaça, mas é também uma garantia que há em Portugal uma resistência contra o crescimento da extrema-direita”, prosseguiu Mariana Mortágua.

Cortejo do Bloco na Marcha do Orgulho LGBTI+
Cortejo do Bloco na Marcha do Orgulho LGBTI+. Foto Esquerda.net

A coordenadora bloquista referiu ainda os ataques da extrema-direita a eventos LGBTI+ e criticou o Governo por estar a  desvalorizar “esses movimentos perigosos de extrema-direita”. “Uma sociedade que oprime uma minoria, que oprime alguém, não é uma sociedade livre para ninguém”, concluiu Mariana.

“Quando há descontentamento generalizado é mais fácil começar a apontar o dedo a minorias”

Em declarações à SIC, Helder Bértolo, da Opus Diversidade e um dos organizadores da marcha, insistiu na ideia de que numa altura em que há governos na Europa a retroceder, “temos de continuar a marchar para defender o que ainda falta e para não perder o que já temos”, pois “quando há descontentamento generalizado é mais fácil começar a apontar o dedo a minorias e por isso é tão importante estarmos aqui e levantarmos a voz” e juntar no desfile “pessoas de todas as idades, classes sociais, cores de pele, famílias”, numa autêntica “marcha pelos direitos humanos”.

Helder Bértolo referiu também o plano dos grupos de extrema-direita que propagam discursos do ódio para promoverem uma “marcha do orgulho heterossexual” no dia 10 de junho. “Quando alguém me disser qual é a pessoa heterossexual que é despedida do emprego por ser hetero, ou que é expulsa de casa e fica em situação de sem-abrigo, ou que é apedrejada, ou que é presa ou que é sujeita a eletrochoques, eu serei a primeira pessoa a estar à frente de uma marcha hetero. Neste momento, felizmente, nenhuma pessoa hetero sofre discriminação. Ao contrário, as pessoas LGBTQIA+ sofrem discriminação. E têm muitas camadas de discriminação sobre si. Por isso esta marcha é feminista, é antirracista, porque todas as minorias devem dar as mãos para lutar contra essas fobias todas”, concluiu o ativista.