O aparecimento da fotografia, em meados do século XIX, terá libertado a arte, nomeadamente a pintura, da necessidade de representar o real. As coisas são um pouco mais complicadas, as fronteiras entre pintura e fotografia esbatem-se e as influências são mútuas. Capturing the Moment, exposição patente na Tate Modern, em Londres propõe-nos uma jornada por essa interpenetração.
Uma grande estrutura industrial, uma antiga central elétrica londrina, alberga uma das instituições mais importantes da arte contemporânea, a Tate Modern. É uma visita obrigatória em Londres, quer pela exposição permanente (visita gratuita), quer pelas várias exposições. Apesar do gigantismo de edifício, está sempre cheio de gente, jovens, menos jovens, famílias com crianças, grupos escolares.
A exposição promete muito, alguns dos maiores artistas do século XX, começando por Picasso, com retratos muito pouco fotográficos, continuando por Paula Rego e um quase realismo fantástico, passando para pinturas mais “fotográficas”, como uma das cenas de piscina de Hockney. Não podia faltar, também Warhol, com uma serigrafia feita a partir de uma foto de Marlon Brando. Na verdade, tanto Hockney, como Warhol, têm igualmente uma obra fotográfica (mais interessante a de Hockney) que por si garantiria toda uma exposição.
Construída principalmente a partir da coleção do capitalista de Taiwan, Pierre Chen, foi muito mal-aceite pela crítica inglesa, tendo The Guardian afirmado que não era uma exposição séria, temendo pelos seus efeitos na instituição. Porém tem sido um sucesso, tendo a sua permanência sido prolongada. Não faltam nomes sonantes, o que explicará este sucesso.
Capturing the Moment, exposição patente na Tate Modern, em Londres – Fotos de Nuno Pinheiro
Senti alguma falta de “fotografia clássica”, apenas representada por “Migrant Mother” de Dorothea Lange, uma fotografia feita num contexto de reportagem para a Farm Security Administration, nos anos 1930, durante a administração Roosevelt. Diga-se que há quem defenda que é uma imagem ligeiramente manipulada. Cartier Bresson e o seu “decisive moment” (a expressão é inglesa), faltam na exposição. Poderia também pensar na fotografia clássica de paisagem como a de Ansel Adams e seguidores, em Walker Evans e a sua visão sarcástica da sociedade americana, de novo com muitos seguidores. Recuando um pouco no tempo, mas não estaria distante das obras de Picasso, seria interessante o confronto entre uma fotografia mais realista como em Atget e Paul Strand e o pictorialismo que, basicamente, tentava imitar a pintura.
Seria sorte a mais ter o retrato de Isabel II por Lucien Freud, mas os seus retratos, assim como os de Francis Bacon, algo decadentes e representando mais a decrepitude que a beleza, têm uma presença obrigatória. Obras muito fortes, apesar, ou talvez devido, à pequena dimensão.
É interessante notar como as obras mais modernas vão crescendo em dimensão, como se saltassem das paredes das casas dos compradores particulares, para as de museus e outras instituições.
Da fotografia moderna não faltam os que maior presença têm em museus e grandes coleções, Wolfgang Tillmans e Thomas Struth. Grandes ampliações, grandes formatos, muitas vezes de locais banais e “não pitorescos”. Estas imagens funcionam um pouco como a negação do título da exposição, sendo, de certa forma representativas do “undecisive moment”. Esta ideia também está nas fotografias do fotógrafo japonês Hiroshi Sugimoto, com cenas marítimas onde parece não acontecer nada e que, por vezes, desafiando as regras, há uma simetria vertical entre água e céu. Parecendo que não são nada, estas imagens são capazes de nos gelar. São, segundo o autor, um alerta para a destruição do planeta e para que se atue antes que seja tarde.
Até agora falámos de obras muito conhecidas, de autores maiores do século XX, em que as obras, tomadas individualmente, justificam o sucesso da exposição. Mais interessante é sair do eixo Londres - Nova Iorque - Tóquio, dos representados pelas grandes galerias nos embrenhamos em África ou na Índia. Ou então em causas mais alternativas. Ulrike Meinhorf, morta, num quadro duro e grotesco de Marlene Dumas (sul-africana, vivendo em Amesterdão). Outras obras da artista remetem para situações de repressão e assassinato político. Aqui não é fácil, nem é óbvio.
Também não é fácil, nem óbvia a apropriação dos cânones da Pop Art, tão fascinada pelo capitalismo e pelo cosmopolitismo, à realidade de ser mulher na Nigéria, como em Njideka Akunyili Crosby que, aliás, vive em Los Angeles.
A sala final é dedicada ao digital. O digital transforma tudo. Com programas informáticos é possível confundir as duas coisas, mas é tudo demasiado recente. A sala final, dedicada ao digital, é seguramente a menos interessante, a que menos questões levanta.
Propondo-se, talvez, a resolver uma equação impossível, o que a torna conceptualmente frágil, as obras magníficas tornam a visita obrigatória, porém, de um ponto de vista português, há uma obra que vale toda a exposição (e não é a de Paula Rego). Pushpamala N., mostra, numa fotografia de grande formato, encenada e parte de uma instalação, uma reencenação do quadro oitocentista de Veloso Salgado, “Chegada de Vasco da Gama à India”. A imagem inicial de exaltação nacional e imperial, transforma-se num manifesto anticolonial. Brilhante e fraturante, algo que gostava de ver exposto em Portugal.
Capturing the Moment, exposição patente na Tate Modern, em Londres – Fotos de Nuno Pinheiro