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Cantar a Grândola. Por Ana Luísa Amaral

A retórica de Passos Coelho pretende virar portugueses contra portugueses, dividir para reinar, fazer crer que a função pública é composta por uma gente preguiçosa e privilegiada.
Foto Paulete Matos.

O extraordinário exercício de retórica saído da imaginação de Shakespeare, que é o discurso de Marco António nos funerais de César, ironizando sobre a suposta honradez daqueles que o mataram, tem sido glosado por várias pessoas, e ao longo dos tempos, para denunciar injustiças. Depois do afrontoso discurso de Pedro Passos Coelho esta noite, apetece-me lembrar aqui a fala de Marco António, que começa assim: “Amigos, romanos, compatriotas, emprestai-me os vossos ouvidos. Estou aqui para os funerais de César, não para o louvar.” Isto lemos na fala de Marco António. Aquilo a que temos vindo a assistir em Portugal é à morte lenta de um povo e de um país. Aquilo a que assistimos esta noite, dia 3 de Maio de 2013, foi ao início dos seus funerais. 

E a morte do país não se deve a causa natural, mas é o resultado de uma espécie de assassinato pelos seus governantes. Devemos ter sentido todos uma profunda indignação ao ouvir Passos Coelho falando de “mobilidade especial”, de “requalificação”, ou ainda da necessária igualdade entre a função pública e o sector privado – na verdade, a retórica de Passos Coelho pretende virar portugueses contra portugueses, dividir para reinar, fazer crer que a função pública é composta por uma gente preguiçosa e privilegiada. 

Ouvimo-lo ainda citar por várias vezes o Tribunal Constitucional, dizer que é necessário “encontrar medidas que substituam integralmente as perdas orçamentais resultantes da decisão do Tribunal Constitucional”, como se o Tribunal Constitucional fosse o culpado pelas medidas indizivelmente cruéis que o seu governo nos impôs e agora nos impõe. Como se o Tribunal Constitucional, uma instância democrática reguladora, fosse um empecilho (e realmente, na lógica de Passos Coelho e na lógica deste governo, ele é um empecilho para o cumprimento da subserviência aos pardos poderes económicos). 

É urgente lutar para travar esta barbárie. E é necessário que, em vez de entristecermos, resistamos. Que não nos calemos. É necessário lembrarmo-nos que o verdadeiro poder, aquele que realmente interessa, se gera na convivência e na cooperação, e que a violência, porque se baseia na exclusão da interacção e da cooperação com os outros, destrói o poder. Para a travar, à barbárie, é preciso, é urgente, o exercício da solidariedade, sabermos que não estamos sós, sobretudo compreendermos que não somos sós. 

Cantar a Grândola pode ajudar, eu acho. A mim, também me ajudou recordar-me no que, muito depois de Shakespeare, escreveu uma vez a poeta Adrienne Rich (aproveitando uma frase célebre de um sábio, dita pouco antes do advento da era cristã): ”Se eu não for por mim, quem por mim? Se eu for só por mim, quem sou eu? Se não for agora, quando? Se não com os outros, como?”

Isto eles não entendem. Nem sabem fazer. Que o façamos nós. Sempre. E sobretudo agora.


Ana Luísa Amaral, poeta, professora universitária e primeira candidata à Assembleia Municipal do Porto pelo Bloco de Esquerda nas próximas autárquicas.

Sobre o/a autor(a)

Poeta. Professora universitária na Faculdade de Letras do Porto
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