Cancún: fracasso da cimeira do clima pode anunciar a catástrofe

02 de outubro 2010 - 13:48

Realiza-se em Cancún, no final do ano, a próxima Conferência sobre as Alterações Climáticas; mas ninguém acredita que vai conseguir fechar a “brecha gigatónica”, que cresce perigosamente. Por Michael McCarthy, The Independent/Globalízate

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Em Dezembro passado, em Copenhaga, os líderes mundiais improvisaram um acordo que acabou por esvaziar qualquer objectivo de emissões de carbono vinculante. Foto Paul Graham Morris

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O mundo encaminha-se para a próxima importante Conferência sobre as Alterações Climáticas, em Cancún, no final do ano, para enfrentar um aquecimento global de 3º C no próximo século, e isso sugere uma série de análises científicas. O fracasso da última Conferência sobre as Alterações Climáticas, realizada em Dezembro do ano passado em Copenhaga, significa que os cortes nas emissões de carbono prometidos pela comunidade internacional não serão suficientes para manter o aquecimento dentro de limites seguros.

Duas análises do Acordo de Copenhaga e das suas promessas, feitas pelo Dr. Sivan Kartha, do Stockholm Environment Institute, e pelo sítio Climate Action Tracke, sugerem que com os cortes actualmente prometidos em Copenhaga, o mundo terá aquecido até 3,5º C em 2100. Provavelmente, esse crescimento terá efeitos desastrosos sobre a produção agrícola, a disponibilidade de água, os ecossistemas naturais e o crescimento do nível do mar no mundo, produzindo dezenas de milhões de refugiados.

Há um mês, no seu relatório anual sobre o estado do clima, publicado conjuntamente pelo UK Met Office’s Hadley Centre e a America’s National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), enumeram-se 10 indicadores diferentes relativos a um planeta em aquecimento, sete deles de crescimento – desde a temperatura do ar na terra até a humidade no mar – e outros três de redução: o gelo do Mar Árctico, as geleiras e a cobertura da neve na primavera. “A evidência científica de que o nosso mundo está a aquecer é inequívoca”, disseram na NOAA.

Cancun, ou “COP 16”, como é conhecido oficialmente o evento, voltará a ver ministros e altos funcionários de 200 países abordar com escrúpulos as políticas do aquecimento global, mas ninguém acredita que poderão fechar uma fenda em contínuo alargamento nas defesas do mundo contra temperaturas que crescem perigosamente: a “brecha gigatónica”.

Uma gigatonelada é um milhar de milhão de toneladas de carbono, mas os cortes das emissões actualmente prometidos pelos países do mundo no Acordo de Copenhaga – o acordo do último minuto posto como remendo na Conferência na capital dinamarquesa para que não viesse abaixo –, significará que para 2020, quando as emissões globais deveriam estar numa firme tendência de queda, estarão várias gigatoneladas acima do necessário para limitar o aquecimento aos graus necessários acima do nível pré-industrial. Há um amplo consenso de que é o máximo que a sociedade humana pode suportar sem consequências graves.

Entretanto, a comunidade internacional não parece estar mais próxima do consenso sobre a necessidade de novas reduções no carbono e na reunião de Cancún, que acontecerá de 29 de Novembro a 10 de Dezembro, no melhor das hipóteses far-se-ão apenas alguns progressos em questões secundárias.

Hoje [19 de Setembro], o Ministro da Mudança Climática da coligação de governo britânica, o liberal-democrata Chris Huhne, viajará a Berlim para discutir com os seus homólogos alemão e francês, Norbert Röttgen e Jean-Louis Borloo, o fortalecimento do objectivo climático da União Europeia de 20% a 30%, antes da reunião de Cancún.

Huhne disse ao The Independent: “Há um duro trabalho por baixo para manter e fortalecer o nível de compromisso encarnado no Acordo de Copenhaga, e para reconstruir a credibilidade da Convenção Marco das Nações Unidas para o processo de Alterações Climáticas”.

“Na União Europeia, ainda temos de finalizar as nossas posições antes da COP 16, mas creio que há uma possibilidade real de que as negociações possam dar importantes passos adiante em Cancún, em particular para implementar partes do que se acordou em Copenhaga e também para trabalhar pelo acordo global de que o mundo necessita”.

E acrescentou: “O Reino Unido opina – e os meus homólogos francês e alemão compartilham dessa opinião – que a UE deveria elevar as suas ambições e que temos motivos económicos de sobra pra isso”.

“Reduzir as emissões em 30% até 2020 permitiria mudar os investimentos para novas tecnologias limpas, gerando empregos e crescimento das cadeias de abastecimento nas nossas economias. O grande risco de a Europa é acordar muito tarde para estas oportunidades e perder diante de outros grandes blocos que já estão a fixar a vista nas cotas de mercado”.

É difícil exagerar o nefasto impacto que o fracasso de Copenhaga teve tanto para o próprio processo de negociação sobre a mudança climática como sobre a crença dos implicados no sentido de que poderia ser possível um acordo efectivo sobre o clima.

Há um ano, muitos ambientalistas, cientistas e políticos acreditavam realmente que a reunião da Dinamarca poderia produzir um acordo vinculante que reduzisse globalmente o CO2 em cerca de 25%-40% até 2020, que é o que o Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas (IPCC) calculou ser necessário para manter o aquecimento abaixo de C.

Hoje, esses optimistas desapareceram. A reunião dinamarquesa naufragou pelo desacordo entre os países desenvolvidos e os que estão em desenvolvimento sobre quem tinha que fazer quanto e quando para reduzir as emissões; o principal ponto de desacordo foi o Protocolo de Quioto, tratado ainda em vigor, pelo qual os países desenvolvidos deverão fazer muito e os países em desenvolvimento nem tanto.

O Tratado de Quioto termina no final de 2012 e os países em desenvolvimento, liderados pela China e Índia, queriam que fosse renovado, ao passo que os países desenvolvidos, incluindo a Grã-Bretanha e o resto dos países da UE, queriam um tratado totalmente novo pelo qual se compartilharia a carga de reduzir o carbono.

Em Dezembro passado, em Copenhaga, os líderes mundiais improvisaram um acordo que acabou por esvaziar qualquer objectivo de emissões de carbono vinculante (mesmo que pela primeira vez se renunciou que se devia manter abaixo de C). Em vez do tratado legalmente vinculante que se esperava, os países foram convidados a “registar” objectivos voluntários, dizendo em quanto achavam que poderiam reduzir o seu CO2 até 2020.

A Grã-Bretanha faz parte do objectivo da UR de um corte de 20% em relação a 1990, que é possível que se eleve para 30% antes de Cancún. (O objectivo da Grã-Bretanha como país é um dos mais altos: reduzir o CO2 em 34% até 2020.) Outros objectivos incluem 25% para Japão, Austrália entre 5% e 25%, Estados Unidos 17% tomando como base os dados de 2005; mesmo que a legislação para consegui-lo esteja firmemente instalada no Senado. Entre os países em desenvolvimento, a China prometeu reduzir a intensidade energética de sua economia de 40% para 45% até 2020.

Diversas análises destas promessas sugerem que conduzem a cortes totais de CO2 global de entre 11% e 19% até 2020, em vez dos 25%-40% que o IPCC considera necessário. Isto também se pode expressar em volumes reais de CO2, de que o mundo está emitindo anualmente aproximadamente 45 gigatoneladas: 45 mil milhões de toneladas de carbono.

Se o mundo continuar com estes níveis, acredita-se que as emissões aumentarão entre 51 e 55 gigatoneladas até 2020. Lord Stern of Brentford, autor de um relatório decisivo sobre a economia das Alterações Climáticas, calculou que se, ao contrário, o CO2 global puder ser reduzido para 44 gigatoneladas até 2020, estaríamos num caminho de confiança para permanecer abaixo de um crescimento de carbono. Entretanto, há análises que sugerem que o Acordo de Copenhaga deixará a cifra em 48-49 mil milhões de toneladas: a brecha gigatónica que Cancún não vai conseguir fechar.

O que a Conferência pode fazer é criar acordos em torno da arquitectura de novos e importantes fundos para o clima que ajudem os países em desenvolvimento com respeito ao acordo da Dinamarca: um fundo de “início rápido” de 30 mil milhões de dólares em dinheiro novo para os anos 2010-2012, um fundo de 100 mil milhões de dólares repartido anualmente até 2020.

Se não houver novos fracassos, é possível que ao menos a reunião consiga restaurar a fé no processo do clima da ONU. “Ninguém pensa que Cancún será um momento big-bang”, afirma Keith Allott, director para a mudança climática do World Wide Fund for Nature. “Do que o mundo precisa é colocar novamente algumas rodas no caminho do clima”.

19 de setembro de 2010.

A tradução é do Cepat. Reproduzido do IHU On-line.