Caça à baleia continuará... impunemente

24 de junho 2010 - 18:10

A Comissão Baleeira Internacional (CBI), reunida esta semana em Agadir, Marrocos, à procura de um compromisso entre os países contra e defensores da caça à baleia, reconheceu que as negociações chegaram a um beco sem saída.

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A caça mata aproximadamente 2 mil baleias por ano, incluindo espécies à beira da extinção.

“A proposta que estava em cima da mesa morreu”, disse o comissário alemão Gert Lindemann, durante a assembleia plenária da passada quarta-feira. Não houve acordo para a substituição da moratória sobre a caça à baleia. As delegações dos 74 países presentes na reunião da Comissão Internacional da Baleia não conseguiram entender-se.

O Japão, a Noruega e a Islândia queriam mais dez anos de não observância da moratória à caça, instituída em 1986, em troca da redução do número de baleias mortas anualmente. Os países contra a caça recusaram a proposta e as negociações foram adiadas por um ano.

As divergências eram enormes, como refere o delegado norueguês: “A distância entre as nações que defendem a caça e as anti-caça é demasiado grande e muitos dos que são contra a caça só aceitam a solução zero ou o caminho para o zero num período de tempo muito curto”.

A comissão propôs um acordo para dez anos que, à partida, permitiria pôr sob o seu controlo a caça aborígene, comercial e científica.

Para os ambientalistas, qualquer acordo teria sido melhor que a situação actual. “O status quo permite ao Japão, à Islândia e à Noruega continuarem a abater milhares de baleias por ano com toda a impunidade”, lembra uma activista da Greenpeace, citada pela Euronews.

Juntos, estes três países abateram mais de 1500 baleias em 2009. Só o Japão caçou mais de um milhar. A caça não poupa nenhuma espécie, nem as que se encontram à beira da extinção.

Este é o resultado decepcionante da 62ª sessão da CBI, criada em 1946 para regular a pesca às baleias, que se propôs a discutir um protejo de acordo para colocar um ponto final a 25 anos de conflito entre seus membros, que se desentendem desde a entrada em vigor, em 1986, da moratória que proibiu a caça da baleia, salvo excepções que se prendem com a caça com fins de investigação científica, e a caça artesanal pelos povos aborígenes de regiões onde ela tenha tradição multissecular e seja importante para a sobrevivência das sociedades e culturas que lhe estão associadas. 

Os 88 países membros da Comissão reuniram à porta fechada para decidir se adoptariam ou não um plano que permitisse à Noruega, à Islândia e ao Japão caçar legalmente baleias ao redor da Antárctida e noutros locais por mais dez anos, em troca de uma queda gradual no número de animais capturados. A proposta, que significaria autorizar a pesca comercial, não determinava, porém, o que ocorreria depois deste período.

A União Europeia, liderada pelo Reino Unido, adoptou uma posição comum contra a retomada de qualquer tipo de caça às baleias. No entanto, Estados Unidos e Nova Zelândia continuam a endossar fortemente as medidas propostas pelo presidente da CBI. O plano apresentado não convenceu nem Tóquio, que o considera restritivo demais, nem países como Austrália, que o vêm permissivo demais. 

Negociações às escondidas não agradou à ONG's

O anúncio da CBI de fazer dois dias de trabalhos à porta fechada para tentar pacificar o terreno e abrir caminho para as negociações não agradou às três maiores ONG's do mundo (WWF, Greenpeace e Pew). “Mas o que é que escondem? Isto proporciona a teoria da conspiração”, disse Rémi Permentier, porta-voz do Pew Environment Group (que conta com o estatuto oficial de observador), citado pela ANDA (agência de notícias dos direitos dos animais).

Além disto, o jornal inglês Sunday Times publicou informações que sugerem corrupção e suborno por parte do Japão: a factura do hotel de Liverpool, em Agadir, será paga por um empresário japonês e os representantes africanos e caribenhos admitiram, ter votado a favor da caça, após terem recebido promessas de ajuda, dinheiro e prostitutas vindas do Japão.

Espécies em extinção

A caça mata aproximadamente 2 mil baleias por ano, incluindo espécies à beira da extinção como a baleia azul (Balaenoptera musculus), a cinza (Eschrichtius robustus), a franca do norte (Eubalaena glacialis) e a bowhead, ou cabeça-redonda (Balaena mysticetus).

Conforme os dados do Animal Welfare Institute, em Washington, nos EUA, desde que a moratória foi introduzida há 25 anos, aproximadamente 33 mil baleias foram mortas. 

Japão será acusado em tribunal internacional

A Nova Zelândia decidiu ponderar levar o Japão e a caça à baleia ao Tribunal Internacional de Justiça, depois do fracasso das negociações da CBI, anunciou, na sexta-feira, Murray McCully, o ministro dos Negócios Estrangeiros. A Nova Zelândia pode, assim, juntar-se à Austrália, país que anunciou no final de Maio que iria levar o Japão ao Tribunal de Haia, denunciando este por caçar baleias na Antárctida com a justificação falsa da investigação científica.