Está aqui

Brasil: sucedem-se as mobilizações de jovens contra Temer

Vaga de manifestações ocorreu nas capitais e algumas cidades do interior e já começa a ser comparada com a de junho de 2013, pela sua composição jovem e pela espontaneidade. Uma estudante perdeu a vista de um olho em São Paulo, atingida pelo estilhaço de uma bomba da Polícia. Por Luis Leiria, do Rio de Janeiro.
Foto Rovena Rosa/Agência Brasil.

Uma onda de mobilizações de protesto sob o lema “Fora Temer” está a varrer o Brasil desde o dia 31 de agosto, data da aprovação pelo Senado do afastamento da presidente Dilma Rousseff e da posse do seu vice-presidente, Michel Temer. As manifestações têm envolvido principalmente a juventude, e muitas foram organizados espontaneamente através das redes sociais, num movimento que já começa a fazer recordar os protestos que abalaram o Brasil em junho de 2013.

São Paulo, Porto Alegre, Curitiba, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife, Florianópolis, Fortaleza, Salvador foram palco dos maiores protestos, nalguns casos com manifestações em dias sucessivos. Houve protestos também em cidades do interior, como Londrina (Paraná), Viçosa, Uberlândia e Vila Viçosa (Minas Gerais), Ribeirão Preto e Campinas (São Paulo).

Em São Paulo, os protestos começaram no dia 29 de agosto, o que significa que na quinta-feira, dia 1 de setembro, ocorreu o 4º dia seguido de protestos nas ruas.

Jovem perde uma vista com estilhaço

A Polícia de São Paulo, do governador Geraldo Alckmin, do PSDB, tem mantido o padrão de comportamento ultra-repressivo de ocasiões anteriores, montando verdadeiras armadilhas aos manifestantes, cercando-os e espancando-os. Na quarta-feira, dia 31, uma jovem, Deborah Fabri, estudante da Universidade Federal do ABC, perdeu uma vista ao ser atingida pelo estilhaço de uma bomba atirada pela polícia para o meio dos manifestantes.

Foto de Jornalistas Livres.


O facto aconteceu, no mesmo local da Rua da Consolação onde em 2013, ocorreu o “massacre de 13 de junho”, quando a polícia feriu e prendeu centenas de pessoas que ficaram encurraladas. Nesse dia, a repórter Giuliana Vallone, da TV Folha, também foi atingida numa vista, neste caso por uma bala de borracha, mas teve a sorte de não perder a visão desse olho.

Relato da barbárie

Um relato que circulou nas redes sociais não deixa dúvidas sobre a bárbara atuação da PM paulista: “Mais de 20 mil pessoas desciam a [Rua da] Consolação. Por volta de 1.500 soldados do Choque, Força Tática e PM's comuns vinham atrás acompanhando. Quase no fim da Consolação havia uma barreira de mais de 500 soldados da Tropa, Força Tática Caminhões bloqueando a passagem. Neste momento os policiais que vinham atrás começam a comprimir os manifestantes num trecho que não havia saídas laterais”, recorda o manifestante anónimo. “Percebi a situação, mas não acreditei que eles fariam aquilo. De repente começam a lançar no meio da manifestação uma chuva de bombas de gás. A correria é intensa. O povo tenta escapar e a única maneira era passando pelos cordões policiais. Eles então começam a atirar à queima roupa balas de borracha e bombas de efeito moral. Bem em minha frente uma senhora tem o rosto dilacerado por estilhaços de uma bomba de efeito. O pessoal ajuda a senhora carregando nos braços. Os que passavam recebiam cassetetes na cabeça e nas costas. Várias pessoas pisoteadas.”

O testemunho descreve ainda como os manifestantes que conseguiram esgueirar-se por ruas laterais foram perseguidos por carros e motos da PM, alguns sendo atropelados, tudo isto no meio de nuvens de gás lacrimogéneo que tornava “muito difícil respirar”. Um helicóptero da PM sobrevoava o local, orientando os carros e motos policiais.

O relato termina assim: “O que a PM cometeu foi um verdadeiro Crime Contra a Humanidade.”

Manifestações domingo

Para o próximo domingo já estão marcadas manifestações da Frente Povo Sem Medo, um conjunto de organizações sociais e partidos de esquerda cuja principal liderança é Guilherme Boulos, do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST).

Em São Paulo, a Secretaria de Segurança Pública anunciou que a manifestação estava proibida na Avenida Paulista, devido à passagem da tocha dos Jogos Paralímpicos. A Frente respondeu que não cabe “à Secretaria de Segurança ou à Polícia 'permitir' ou não uma manifestação popular. A Constituição nos assegura este direito", anunciando, porém, o adiamento do início da concentração para as 15 horas, depois da passagem da Tocha. "Esta é uma decisão razoável que busca conciliar os dois eventos e evitar conflitos”, afirma nota dos organizadores da manifestação. “Não pretendemos qualquer conflito e esperamos que a PM tenha o equilíbrio necessário para lidar com o evento, garantindo a liberdade de manifestação. Reiteramos que não iremos impedir nem prejudicar a passagem da Tocha Paralímpica".

No Rio de Janeiro, a manifestação será às 11h em Copacabana.

Sobre o/a autor(a)

Jornalista do Esquerda.net
Termos relacionados Internacional
(...)