Brasil: corrupção leva presidentes de empresas de construção à cadeia

17 de novembro 2014 - 23:54

Nova fase da Operação “Lava Jato” da Polícia Federal brasileira leva à prisão de presidentes e diretores de nove das maiores empresas de construção civil do país, acusados de pagar “luvas” para obter contratos de obras encomendadas pela petrolífera estatal Petrobrás.

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Dilma Rousseff afirmou no domingo que a investigação “pode de facto mudar o país para sempre”, porque “vai se acabar com a impunidade”. Foto de Roberto Stuckert Filho/PR
Dilma Rousseff afirmou no domingo que a investigação “pode de facto mudar o país para sempre”, porque “vai se acabar com a impunidade”. Foto de Roberto Stuckert Filho/PR

A Polícia Federal do Brasil prendeu na última sexta-feira presidentes e altos executivos das principais empresas de construção do país, acusados de pagar “luvas” (“propinas”, no Brasil) para obterem contratos com a estatal petrolífera Petrobrás. Foram presas 23 pessoas, entre elas os presidentes de cinco empresas: OAS, Camargo Corrêa, Iesa Óleo e Gás, UTC e Construtora Queirós Galvão. Das restantes – Odebrecht, Engevix, Mendes Júnior, Alvão Engenharia – os presos foram diretores. Foi detido também um ex-diretor de serviços da Petrobrás. Os presos tiveram as suas contas bancárias bloqueadas, ficando cativo um total de 720 milhões de reais (cerca de 222 milhões de euros).

Lava Jato”

Foi a primeira vez que apareceu exposta ao grande público a ação dos corruptores, e que se chegou tão longe – aos próprios presidentes ou diretores das gigantes da construção civil. 

As prisões e buscas às sedes das empresas foram a sétima fase de uma ampla investigação judicial, iniciada em 17 de março de 2014, que adotou o nome de “Lava Jato” e que investiga um esquema de lavagem de dinheiro que terá movimentado 10.000 milhões de reais.

Foi a primeira vez que apareceu exposta ao grande público a ação dos corruptores, e que se chegou tão longe – aos próprios presidentes ou diretores das gigantes da construção civil. Estas nove grandes empresas têm com a Petrobrás contratos que somam 59.000 milhões de reais (18 mil milhões de euros).

As prisões de sexta-feira foram mais um passo numa investigação que promete ainda causar muitas ondas de choque e que já levou mesmo a presidente Dilma Rousseff a afirmar no domingo que a investigação “pode de facto mudar o país para sempre”, porque “vai se acabar com a impunidade”.

Uso eleitoral

Mas a “Lava Jato” já assombrou a recente campanha eleitoral, quando um dos acusados, o “doleiro” Albert Youssuf, afirmou, sem se apoiar em qualquer prova, que a própria presidente e o seu antecessor Lula conheciam todo o esquema de corrupção. A informação “bombástica” foi soprada à revista Veja que a espalhou aos quatro ventos na véspera das eleições. O “golpe mediático”, porém, não funcionou, e Dilma foi reeleita, apesar de por uma margem menor do que se esperava.

Deixando de lado o aproveitamento eleitoral, a investigação já começara a revelar o esquema de desvio de dinheiro da milionária petrolífera do Estado.

Além do pouco recomendável Alberto Youssef, em março fora preso também Paulo Roberto Costa, ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás, sócio do primeiro, e que decidiu colaborar com o Ministério Público Federal valendo-se da “delação premiada”, um recurso que em troca da colaboração com o Ministério Público lhe permite obter a redução da sua pena e a possibilidade de cumpri-la em regime domiciliar.

Costa deu o nome de 12 senadores e 49 deputados federais e um governador, do PMDB, PT e PP, que teriam recebido 3% do valor dos contratos assinados entre as empresas e a Petrobrás. Antes de o ex-diretor da Petrobrás ter decidido falar, as autoridades suíças já haviam informado que ele e a família possuíam mais de 23 milhões de dólares em contas secretas naquele país.

Dos beneficiários das “luvas” a quem as pagou

As novas prisões vêm dar um novo rumo à investigação, passando dos beneficiários das “luvas” a quem as pagou: os corruptores, os patrões da construção.

No sábado, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, afirmou que as investigações da Operação “Lava Jato” não são um terceiro turno eleitoral. "Refiro a tentativa de se politizar as investigações para fazer delas um prolongamento de palanques eleitorais. Já houve o resultado das eleições. A investigação não é terceiro turno eleitoral", disse, garantindo que as investigações seguirão “doa a quem doer” e que as instituições brasileiras são fortes. "Não importa se os investigados são ligados ao governo ou à oposição ou sem têm poder económico. Se desviaram dinheiro público sentirão o peso da lei. Não escondemos sujeira debaixo do tapete."

Como se costuma dizer nas novelas brasileiras, aguardem as cenas dos próximos capítulos.