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Brasil: Bolsonaro copia Trump até na derrota

Presidente fez lives diárias na net em apoio a candidatos escolhidos. Mais de dois terços perderam. Incapaz de outro argumento, levantou dúvidas sobre a lisura das eleições. Os seus partidários na net puseram a circular boatos de fraude. Os computadores do TSE foram alvo de ataque informático, que apenas conseguiu atrasar a divulgação dos resultados. Por Luis Leiria.
Bolsonaro fez campanha por alguns candidatos. Quase nenhum foi eleito. Depois, alegou insegurança do sistema eleitoral. Foto de Marcelo Camargo/Agência Brasil

Os resultados das eleições municipais deste domingo confirmaram um trambolhão do presidente Jair Bolsonaro: dos 59 candidatos a prefeito e a vereador que ele apoiou, apenas nove foram eleitos. Na manhã desta segunda-feira, Bolsonaro afirmou que o sistema eletrónico de voto é inseguro, deixando pairar insinuações de fraude.

Levando só em conta os seis candidatos a prefeitos (presidentes de câmara) de capitais de Estado apoiados por Bolsonaro, verifica-se que apenas dois passaram ao segundo turno: Capitão Wagner, em Fortaleza, e Marcelo Crivella, no Rio de Janeiro. Ambos ficaram em segundo lugar, sendo que Crivella, bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, com 21,9% dos votos, está a uma grande distância dos 37% de Eduardo Pais.

Na noite de domingo, um post do presidente chamando a votar em quatro candidatos a vereador foi apagado, depois de verificada a votação pífia que estes estavam a ter. 

O apoio de Bolsonaro foi anunciado nas sessões live pela Internet, que ele faz habitualmente e são muito populares entre os seus seguidores, e também em posts nas redes sociais. Na noite de domingo, um post do presidente chamando a votar em quatro candidatos a vereador foi apagado, depois de verificada a votação pífia que estes estavam a ter. Nenhum foi eleito.

O caso mais flagrante de apoio que redundou em desastre foi o da candidatura de Celso Russomano à prefeitura de São Paulo. A primeira sondagem do Datafolha, em 24 de setembro, colocava-o em 1º lugar, com 29% das intenções de voto; um mês depois, caíra para 20%; acabou em 4º lugar, com 10,5% dos votos. Recorde-se que, há dois anos, o apoio de Bolsonaro representou a eleição de ilustres desconhecidos para governos de Estados importantes.

Através de um post no Facebook, Bolsonaro procurou minimizar as derrotas: “Minha ajuda a alguns poucos candidatos a prefeito resumiu-se a 4 lives num total de 3 horas", escreveu. Na verdade, Bolsonaro fez lives diárias na última semana, apelidadas por ele mesmo de “horário eleitoral gratuito JB”.

Imitador de Trump até nas derrotas

Já esta segunda-feira, Bolsonaro deu mostras de pouca noção do ridículo ao procurar copiar o presidente derrotado dos Estados Unidos, Donald Trump, levantando dúvidas sobre a lisura das eleições. Na mira de Bolsonaro está o sistema de voto informatizado que existe no Brasil há anos, gerador de consenso em torno da sua segurança e confiabilidade. As urnas de voto no Brasil são computadores – a urna eletrónica – e o voto é expresso através de ecrã e teclado. Estas urnas só são ligadas a uma rede na hora de enviar, utilizando sistemas criptográficos, os dados para a contagem.

A urna eletrónica do Brasil. Bolsonaro diz que não é segura e quer voto manual. Foto de Lucas Nascimento - ASCOM TRE-TO
A urna eletrónica do Brasil. Bolsonaro diz que não é segura e quer voto manual. Foto de Lucas Nascimento - ASCOM TRE-TO

Este ano, porém, os computadores centrais do TSE foram alvo de um ataque informático do tipo DdoS, em que um computador ligado à net recebe pedidos de milhares de outros computadores controlados por hackers. O dilúvio de pedidos prejudica o funcionamento do computador atacado, tornando-o lento até bloquear. Este ataque poderá ter provocado o atraso de várias horas com que o TSE divulgou os resultados finais.

As redes sociais bolsonaristas, ao mesmo tempo, disseminavam dúvidas sobre os resultados, como a deputada Joice Hasselman, que contestou a votação de Guilherme Boulos, do PSOL: “Fraude? Será? Tem todo o cheiro”. Hasselmann também foi candidata à prefeitura de São Paulo, só que teve 1,84% dos votos. Ficou em 7º lugar.

Para Bolsonaro, “Nós temos que ter um sistema de apuração que não deixe dúvidas. É só isso. Tem que ser confiável e rápido, não deixar margem para suposições”. Bolsonaro defende o sistema impresso, “um sistema de apuração que possa demorar um pouco mais, não tem problema nenhum, mas que seja garantido que o voto que essa pessoa deu vá para aquela pessoa realmente”.

Segundo um especialista em segurança cibernética ouvido pela Folha de S. Paulo, há indícios de que houve uma uma “operação coordenada” para “desacreditar a Justiça Eleitoral”.

Resultados eleitorais

No universo das capitais de Estado, já foram eleitos sete prefeitos por terem obtido mais de 50% dos votos, e haverá segundo turno, em 18 cidades, daqui a duas semanas (29 de novembro). Das sete prefeituras em que as eleições já terminaram, três foram para o DEM, duas para o PSDB e outras duas para o PSD.

As derrotas sofridas por Bolsonaro e o panorama geral dos resultados mostram que o sucesso das candidaturas da extrema-direita e dos candidatos que proclamavam a “antipolítica”, a novidade das eleições de 2018, não voltou a repetir-se. Mesmo o PSL, catapultado à ribalta por Bolsonaro, que depois o abandonou, e apesar do milionário fundo partidário que passou a controlar, teve um crescimento modesto: de 30 para 85 prefeituras.

Numa análise ainda parcial, que inclui as cidades do interior, divulgada pelo Globo, o MDB perdeu quase 300 prefeituras, apesar de continuar o maior partido, e as maiores vitórias foram para o DEM e o chamado núcleo duro do centrão – PSD, PP, Republicanos. O PSDB perdeu mais de 250 prefeituras.

Resultado de Boulos marca uma reorganização da esquerda

O segundo lugar de Guilherme Boulos, do PSOL, em São Paulo, com 20,2% dos votos, significa um terramoto político na esquerda. Foi a primeira vez, desde 1988, que o Partido dos Trabalhadores não venceu nem chegou em 2º lugar nas eleições da capital paulista. Jilmar Tatto, candidato do PT, ficou com apenas 8,55% dos votos, em sexto lugar. Tatto já anunciou o seu apoio a Boulos no segundo turno. O mesmo fez o ex-prefeito e ex-candidato à Presidência do PT, Fernando Haddad.

O resultado de Boulos, independentemente do que aconteça no segundo turno, já marca uma profunda alteração na relação de forças no seio da esquerda – e logo na maior cidade do país. Candidato jovem (38 anos), Boulos dedicou a sua vida à causa dos sem-abrigo, através da luta do MTST, de que foi um dos fundadores. Ele foi a ponta de uma campanha vitoriosa do PSOL, que vai ao segundo turno na cidade de Belém (Pará), a partir do 1º lugar, com os 34% dos votos obtidos por Edmilson Rodrigues, e que obteve um excelente 2º lugar em Florianópolis, com 18,13% (não foi ao segundo turno porque as eleições foram vencidas pelo candidato do DEM à primeira volta).

Tarcísio Motta, o vereador mais votado do Rio de JaneiroMesmo no Rio de Janeiro, onde não teve um bom resultado na disputa para a prefeitura, o PSOL na eleição eleições para vereadores, ficou a 12 décimas de ser o partido mais votado, com 11,16% dos votos. Tarcísio Mota foi o vereador mais votado da eleição, com 86 mil votos, e ficando Chico Alencar em 5º lugar, com 53 mil votos. Para a prefeitura, o partido caiu um pouco no vazio quando Marcelo Freixo desistiu da candidatura à prefeitura. Renata Souza, que assumiu a candidatura no seu lugar, não conseguiu descolar, ficando-se pelos 3,24%.

Mais esquerda

Por outro lado, em Recife, a candidatura de Marília Arraes, do PT, teve o apoio do PSOL, que indicou o vice, e vai ao segundo turno com o 2º lugar e 27% dos votos. ) na candidatura de Marília Arraes, neta do antigo governador Miguel Arraes. Marília entrou em 2016 no PT, vinda do PSB, mas a sua candidatura ao governo do Estado pelo PT foi impedida pela direção do partido, que preferiu apoiar a reeleição do então governador, Paulo Câmara do PSB.

Em Porto Alegre, ainda como parte do fenómeno de renovação da esquerda, Manuela d’Ávila, do PC do B, que contou com o apoio do PT, ficou em segundo lugar, com 29% dos votos, e disputa com Sebastião Melo, do MDB (31%) o segundo turno. Aqui, o PSOL, ao manter a candidatura, teve um resultado pior, ainda para mais levando em conta a sua implantação no estado: Fernanda Melchiona ficou-se pelo 5º lugar, com 4,34% dos votos. Na eleição de vereadores, porém, o PSOL foi o partido mais votado, com 10,42% dos votos; o PC do B foi o sexto partido mais votado, com 6,13%.

Finalmente, completando este panorama da esquerda, o PT disputa o segundo turno na capital do Espírito Santo, Vitória.

O segundo turno, daqui a duas semanas, será disputado em 57 cidades, sendo 18 capitais de Estado e as restantes, cidades de mais de 200 mil habitantes.

Sobre o/a autor(a)

Jornalista do Esquerda.net
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