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Boris Johnson quer trabalhadores temporários a furar greves

A greve dos ferroviários britânicos entra no seu segundo dia. Protestam contra a diminuição do poder de compra e as ameaças de despedimento. O governo responde com a ideia de mudar a lei e contratar temporários para cumprir o serviço dos grevistas.
Piquete de greve dos ferroviários britânicos.
Piquete de greve dos ferroviários britânicos.

Esta quinta-feira vive-se o segundo dia de greve dos trabalhadores ferroviários do Reino Unido. É considerada a maior nos últimos 30 anos. Na noite anterior as negociações com o governo tinham falhado e assim voltou a haver paralisação de transportes que afetou milhões de passageiros.

No primeiro dia da greve, 80% da circulação esteve parada. Para o segundo estima-se que apenas um em cada cinco comboios tenha funcionado e que cerca de metade da rede ferroviária tenha estado completamente fechada. O horário de funcionamento foi reduzido entre as 7.30 e as 18.30.

O impacto está a ser tal que o governo de Boris Johnson avançou com a proposta de mudar a lei para permitir que as empresas contratem trabalhadores das empresas de trabalho temporário para furar greves. Kwasi Kwarteng, secretário de Estado dos Negócios, publicou no Twitter que “acabar com as restrições dos anos 1970 dará aos negócios a liberdade para aceder a empregados qualificados, temporários, rapidamente. A legislação existente impede isto”. O Governo fez chegar à imprensa que não se tratava de uma ideia desgarrada mas de um plano proveniente do próprio primeiro-ministro.

Partido Trabalhista e sindicatos opõem-se. A maior confederação sindical do país, o Trades Union Congress, realça que “Margaret Thatcher nem sequer chegou perto” de apresentar uma proposta deste tipo. Paul Nowak, vice-secretário-geral da organização, diz que se trata de mais uma manobra de Boris Johnson de desviar as atenções das críticas que tem vindo a ser alvo, tentando com isto mobilizar o campo conservador. Para ele, tal proposta “prolonga as disputas, torna-as muitas amargas”, coloca em causa a segurança no trabalho, cria mais um “ponto de conflito” com as empresas de trabalho temporário e até com os seus trabalhadores. Além disso, “desrespeita a lei internacional”, pois o direito à greve é assegurado pela Organização Internacional do Trabalho.

E até o chefe executivo da confederação patronal das empresas de recrutamento e emprego, REC, Neil Carberry, se manifestou contra a ideia, defendendo que “não é algo que as agências queiram e não vai atingir os objetivos que o governo alega”, acrescentando que “a indústria se opõe fortemente” à ideia. Diz ainda que isso iria colocar “as agências e os seus trabalhadores numa situação muito difícil com potenciais riscos de saúde, de segurança e reputacionais” e, por isso, insta o governo a “abandonar os seus planos e voltar a pensar.”

O governo é o entrave a um acordo, dizem sindicalistas

O maior sindicato do setor, o RMT, National Union of Rail, Maritime and Transport Workers, acusa o governo, nomeadamente o seu secretário dos Transportes, Grant Shapps, de “destruir as negociações ao não permitir que a Network Rail,a empresa que gere a infraestrutura ferroviária, retire a sua carta que ameaça com despedimento 2.900 dos nossos membros”. O governante responde que isso é “uma mentira total” e a empresa acusa o sindicato de ter abandonado as negociações.

Numa negociação à parte, os trabalhadores afetos a outro sindicato, o Transport Salaried Staffs’ Association, votaram esta quarta-feira um acordo que resultará num aumento de 7,1% nos salários dos seus trabalhadores do Merseyrail, o sistema de metro de Liverpool. A proposta de aumento salarial da Network Rail é bem mais baixa: 3% com a inflação a ser em maio de 11,7%. Eddie Dempsey, vice-secretário geral do RMT, em declarações à BBC 4, considera o acordo na Merseyrail “significativo”, salientando que outras empresas do setor também aceitaram este nível de aumentos salariais, dando a entender que o sindicato se contentaria com uma proposta do mesmo valor.

O secretário-geral Mick Lynch, à BBC, diz claramente que aquele acordo prova o que pode acontecer sem o envolvimento do Governo. A diferença nas empresas que operam na ferrovia ao nível nacional é a interferência do Departamento dos Transportes e do Ministério das Finanças. “Onde Grant Shapps não tem influência na ferrovia estamos a alcançar acordos e a obter propostas mais progressistas do que aquelas que vêm de Westminster.”

Dempsey detalha os casos em que isso sucedeu para além da Merseyral: no metro de Londres, onde o aumento será de 8.5%; no Docklands Light Railway e na Crossrail, onde se conseguiu um acordo para compensar o aumento da inflação; nos Transportes de Gales, onde parece haver também possibilidade de acordo.

O sindicalista acusa assim o governo de estar a bloquear a possibilidade de um acordo e as empresas de “tirarem milhares de milhões da indústria ferroviária na forma de lucros privados durante a emergência sanitária” ao mesmo tempo que dizem que “não podem suportar um aumento de salário dos seus trabalhadores, alguns dos quais estão no seu terceiro ano de congelamento salarial. Os sindicatos também não deixam cair a ameaça das “redundâncias compulsivas”, ou seja, de despedimento.

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