Bloco soma vozes e causas para “Fazer o que nunca foi feito”

11 de fevereiro 2024 - 18:41

Lila Tiago, das Fado Bicha, invocou o “potencial disruptivo” do fado e trouxe a reflexão de Preciado. Anabela Rodrigues trouxe a baila a memória da sua mãe e através dela as lutas das pessoas migrantes e racializadas. Fabian Figueiredo falou da solidariedade com Palestina e da direita que é “guarda pretoriana do privilégio”.

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Comício Fazer o que nunca foi feito. Foto de Rafael Medeiros.
Comício Fazer o que nunca foi feito. Foto de Rafael Medeiros.

Este sábado, o Bloco de Esquerda realizou no Mercado das Culturas, em Lisboa, um comício sob o lema “Fazer o que nunca foi feito”. Para além da coordenadora do partido, Mariana Mortágua, intervieram ainda Lila Tiago, vocalista das Fado Bicha e ativista, Anabela Rodrigues, mediadora cultural e ativista anti-racista, e Fabian Figueiredo, dirigente bloquista.

A disputa pelo significado é central na política”

Lila Tiago começou por trazer a este comício uma defesa do fado porque “exemplifica uma disputa que eu considero central à política, à governação e, principalmente, ao poder em qualquer sociedade humana: a disputa pelo significado”. E se o fado foi “um instrumento poderoso” na “criação de um tipo de narrativa tradicionalista que ainda hoje prolifera”, há que não esquecer que “foi muito mais do que isso e tem ainda o potencial de o voltar a ser”.

A artista lembrou que “durante décadas, em Lisboa, o fado era a linguagem artística que unia as pessoas mais destituídas na expressão da sua miséria e da sua raiva contra a monarquia, contra a Igreja” e que “na virada do século, constituiu-se uma tradição fortíssima de fado sindicalista, republicano, anarquista”. Um “potencial disruptivo que motivou o Estado Novo, e, particularmente António Ferro, a desenhar uma estratégia instrumentalizante do fado”. Destoando disto, há toda uma outra tradição invocada através de fado operário escrito por Augusto de Sousa e cantado pelo fadista João Maria dos Anjos que falava, por exemplo, na sua letra em “socializar as riquezas, ciências e autoridades” como “belas aspirações da futura sociedade”, em “acabar com os preconceitos” e “querer depois que as convenções impostas pelo despotismo cedam passo ao Socialismo”.

Foto de Rafael Medeiros.

Para além disso, utilizou as palavras do filósofo espanhol trans Paul B. Preciado, numa crónica intitulada “O método Marx” na qual considera que “a vida adversa e luminosa de Marx ensina-nos que “a felicidade é uma forma de emancipação política: a capacidade de rejeitar as convenções morais de uma época e com elas o êxito, a propriedade, a beleza, a fama ou o decoro como únicos princípios organizadores da existência”. E “reside na convicção de que estar vivo significa ser testemunha de uma época e, portanto, sentir-se responsável, vital e apaixonadamente responsável, pelo destino coletivo do planeta”.

Não queremos continuar oprimidos”

Por seu turno, Anabela Rodrigues veio falar na luta pela “vida boa” depois de “séculos de escravatura, décadas de colonialismo e 50 anos pós o 25 de Abril”. Recordou que este era o sonho da sua mãe, “mulher de uma ex-colónia portuguesa, empregada doméstica e de limpeza durante toda a sua vida em Portugal”, cuja recompensa “de mais de 40 anos de descontos foi uma reforma baixa”, mas também de todos os “que escolhem Portugal para viver, para construir uma família, para envelhecer, neste século XXI”.

Estes enfrentam uma situação em que se continua “a não aceitar simplesmente que quem nasce em Portugal é Português e ponto final” e onde “os Serviços Públicos ainda não estão à altura das mudanças”,

A dirigente associativa e ativista pelos direitos dos imigrantes afirma que imigrantes, negros e comunidade cigana querem esta “vida boa” e não foram quem criou os vistos gold, possui “contas milionárias”, vive “em mansões” mas quem “limpa escritórios, hotéis ou casas”, constrói “casas onde não pode morar”, conta “os euros e cêntimos para conseguir sobreviver”.

Foto de Rafael Medeiros.

E sublinha: “não queremos continuar oprimidos, não queremos continuar uma vida de miséria, de exploração laboral, de sofrimento constante para ter um teto sobre a cabeça, de um sistema de saúde, que não nos serve nas emergências”

A candidata pelo Bloco apelou ainda à unidade “para lutar contra os racistas, os xenófobos,os homofóbicos, os fascistas que continuam a manter um sistema capitalista, que nos segrega, que nos sufoca, que nos mata, que insiste em nos colocar uns contra os outros procurando bodes expiatórios nos oprimidos”.

A direita é “a guarda pretoriana do privilégio”

Em dia de manifestação pelos direitos dos palestinianos, Fabian Figueiredo começou a sua intervenção pela solidariedade para com a causa palestiniana e reafirmou “o compromisso do Bloco para que um próximo Governo reconheça o Estado da Palestina”.

O resto dedicou-a à crítica a uma direita que é “uma exaltada frente unida pelo despejo, o aumento da renda e a promoção da especulação imobiliária”, que “contra os mais frágeis e vulneráveis ouvimo-los rugir como um leão” mas “quando toca aos interesses dos donos da economia, da casta privilegiada, piam mais baixinho que um rato espigueiro”.

Foto de Rafael Medeiros.

Como exemplo disto apresentou a proposta de descida do IRC, imposto “que 43% das empresas não pagam”, apenas “as maiores e mais poderosas: da banca, da energia e da distribuição”

Esta “guarda pretoriana do privilégio” quando confrontada com as consequências das suas políticas diz que “falta espírito empreendedor, vontade de arriscar, mérito, dedicação e esforço”. Um mérito, esforço e dedicação que, pelo contrário, o dirigente bloquista identifica “em quem constrói os serviços públicos todos os dias, nos enfermeiros que cuidam de toda a gente, nos professores que não desistem de nenhum aluno, nos trabalhadores do lixo que tratam das nossas cidades, nos bolseiros que produzem conhecimento, em quem pedala almirante reis para cima e para baixo a fazer entregas, de quem faz do seu pequeno negócio uma luta de todos os dias, nas mulheres que se levantam todos os dias de madrugada para limpar os escritórios de Lisboa” e também “em quem enche as ruas com o amor de todas as cores ou a combatividade feminista”.