Cinema

Berlinale: ‘No Good Men’ abre o festival em ritmo de comédia romântica política

15 de fevereiro 2026 - 16:56

A afegã Shahrbanoo Sadat provoca humor e sexualidade na transição entre uma sociedade patriarcal e o inferno dos talibãs.

porPaulo Portugal

PARTILHAR
imagem de ‘No Good Men’

76.ª edição da Berlinale promete ficar marcada como uma das edições em que mais se sente uma programação de forte pendor político. E não é este o sinal dos tempos (inacreditáveis) que vivemos? Apesar disso, o presidente do júri, o cineasta alemão Wim Wenders, pareceu contrariar essa evidência ao sublinhar, logo na conferência de imprensa de apresentação do júri, que “os filmes podem mudar o mundo”, apesar de, como acrescentou, “não de uma forma política”. E que, na verdade, “nenhum filme realmente mudou a ideia de algum político”. Veremos então, no próximo dia 21, se o significado das suas palavras se confirmam quando forem anunciados os vencedores deste ano (o Urso de Ouro para o melhor filme e de prata para as restantes categorias).

Seja como for — e talvez esta seja a segunda nota introdutória desta edição —, repara-se igualmente que esta é uma seleção oficial praticamente despojada daquele glamour que tanto anima os profissionais das passadeiras vermelhas ou os jornalistas à caça de selfies (mea culpa da qual não estamos isentos, embora estejamos a aprender). E, se havia dúvidas, a escolha de Tricia Tuttle, presidente do Festival de Berlim, para a abertura da edição deste ano, sublinha precisamente essa tonalidade política, ao incluir o filme afegão No Good Men (numa grande co-produção europeia). A proposta de Shahrbanoo Sadat, realizadora (argumentista e protagonista) do filme, não poderia ser mais estimulante: sugerir uma comédia romântica ambientada na época em que os talibãs retomam o poder em Cabul. E a premissa é clara — e serve até de chavão: no Afeganistão, não há “bons homens”!

No encontro com a imprensa, Shahrbanoo, a viver na Alemanha, precisamente desde esse período de transição política, explicou que o seu objetivo foi desafiar os estereótipos ocidentais sobre o Afeganistão: um país quase sempre retratado como um palco de dramas de guerra. “Decidi fazer uma comédia romântica”,destacou a cineasta, nascida em Teerão, e já uma voz feminina muito forte no cinema contemporâneo, sobretudo após a boa impressão deixada em Cannes, com Wolf and the Sheep (2016), onde concorreu à Câmara de Ouro. Decidiu, mostrando, precisamente, uma faceta diferente do seu país, incluindo humor e sexualidade, como a cena bastante expressiva de uma brincadeira com um vibrador!

Aliás, Naru, a protagonista (interpretada por Shahrbanoo), uma operadora de câmera na televisão de Cabul, tem até um lado autobiográfico, como a cineasta confirma: “Acho que a raiva e as frustrações de Naru vêm de mim. A sua posição enquanto mulher, uma jovem de classe média a trabalhar na comunicação social e a viver no centro de Cabul; e sobretudo alguém de língua afiada que se mete em sarilhos — sou eu, definitivamente.”

Essa obstinação e determinação refletem as de Sadat, ao mostrar o lado humano de uma sociedade marcada por um conservadorismo extremo. Sadat cresceu a pensar que não havia homens bons. “Mas isso não é apenas a minha opinião ou experiência, é a experiência coletiva de muitas mulheres que vivem numa sociedade patriarcal como o Afeganistão.” Como refere, “até aos meus vinte e poucos anos, acreditava que não havia nenhum homem bom no Afeganistão.”

A convivência com o seu editor, Qodrat (Anwar Ashimi), um jornalista experiente que reconhece o seu talento, dá início a uma relação que desafia os estereótipos de género na sociedade afegã. De facto, como afirma, “o Anwar é o meu primeiro homem bom.” E é com ele que Sadat irá terminar com um final emotivo, que nos fez recordar o mítico final de “Casablanca” (1942), com a despedida de Bogart e Bergman. Afinal de contas há homens bons.


Artigo publicado em Insider.pt

Paulo Portugal
Sobre o/a autor(a)

Paulo Portugal

Jornalista de cultura e cinema, autor do site insider.pt