Ronnie Lessa, o ex-polícia militar que está preso por ter sido considerado o autor dos disparos que mataram a vereadora do PSOL Marielle Franco e o seu motorista Anderson Gomes em março de 2018, fez um acordo de “delação premiada” com as autoridades brasileiras tendo apontado Domingos Brazão como o autor moral do crime.
A revelação foi feita pelo The Intercept Brasil que cita “fontes ligadas à investigação” e foi recebida com precaução pela família de Marielle. A sua viúva, a deputada estadual Mônica Benício, manifestou “preocupação” com o “vazamento de informações que possam comprometer a condução das investigações” e precaução quanto ao suposto conteúdo da delação, afirmando em nota nas redes sociais que “as famílias reiteram seu apelo por responsabilidade na veiculação de informações sobre o caso, evitando usos de diversas ordens e finalidades” e sublinhando que não irão aceitar que o caso “seja simplificado e interpretado apenas como objeto de disputas e interesses pessoais ou de grupos políticos“.
O acusado declarou à rede Globo que “Lessa deve estar querendo proteger alguém” enquanto a Polícia Federal e o ministro da Justiça se recusam a comentar o conteúdo da notícia, condenando fugas de informação.
Quem acabou por reagir à notícia foi o ex-presidente Jair Bolsonaro que a considerou “um alívio”. A suspeita de ligação de Bolsonaro ao crime tinha sido sugerida em várias ocasiões, nomeadamente depois da prisão de Lessa, que morava no mesmo condomínio do que Bolsonaro na Barra da Tijuca. Mesmo esta terça-feira foi lembrado que este tinha concedido, em 2019, passaporte diplomático a elementos da família de Chiquinho Brazão, o irmão daquele e deputado federal.
A delação acontece depois de ter estado preso desde março de 2019 e Lessa foi já condenado por ter destruído provas, tendo sido provado que lançou no mar a arma que se suspeita ter sido usada no crime. O condutor do veículo, Élcio Queiroz, tinha seguido o mesmo caminho o ano passado. Revelou pormenores que batiam certo com o que tinha sido descoberto pelo polícia mas afirmou desconhecer os mandantes.
Quem é Domingos Brazão?
Domingos Brazão tem 58 anos. É empresário de revenda de combustíveis e faz negócios imobiliários e atualmente conselheiro do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro desde 2015, depois de ter sido vereador e deputado daquele estado durante cinco mandatos, eleito pelo MDB, um partido de centro direita.
Chefe de um grupo político da zona oeste do Rio, tem sido ligado às milícias que aí operam. Ao longo desta carreira, escreve a Carta Capital no seu perfil publicado esta terça-feira, tem sido alvo de acusações de improbidade administrativa, fraude, envolvimento na chamada ‘máfia dos combustíveis’ e o envolvimento com milícias para a compra de votos”. Em 2011, o seu mandato chegou a estar cassado pelo Tribunal Regional Eleitoral do Rio devido a esta compra de votos mas o Tribunal Superior Eleitoral anulou a decisão. Em 2017, foi preso no âmbito da Operação Quinto do Ouro, acusado de receber subornos de empresários e esteve por isso quatro anos afastado do cargo que atualmente ocupa.
Já em 2019 o seu nome tinha vindo à baila por causa deste assassinato. Na época um polícia militar, Rodrigo Jorge Ferreira, tinha acusado o vereador Marcello Siciliano e o miliciano Orlando Curicica de serem os mandantes, mas a polícia desconfiou que seria uma forma de desviar atenções. A Procuradoria Geral da República pediu ao Superior Tribunal de Justiça uma investigação a Brazão por suspeitas de que um ex-polícia que tinha trabalhado no seu gabinete tinha levado Ferreira a fazer aquele testemunho. O caso por obstrução à justiça chegou aos tribunais mas acabou por cair.
A hipótese avançada na reportagem do Intercept é que o crime seria uma vingança contra Marcelo Freixo. Marielle trabalhou no gabinete de Freixo durante dez anos, antes de se tornar vereadora em 2016. E Freixo tinha presidido a uma marcante comissão parlamentar de inquérito às milícias em 2008. O nome de Brazão consta do relatório final desta investigação como sendo um dos políticos que as milícias autorizavam que fizesse campanha em Rio das Pedras.
O ex-deputado da Assembleia Legislativa do Rio, atualmente militante do PT e presidente da Embratur, o organismo brasileiro responsável pelo turismo, terá sido importante para o desencadear de uma outra operação policial denominada Cadeia Velha que ocorreu cinco meses antes da morte de Marielle e que levou à prisão de vários colegas seus do MDB no Rio de Janeiro, como os deputados estaduais Paulo Melo, Edson Albertassi e Jorge Picciani. Freixo votou também contra o relatório da Comissão de Constituição e Justiça desta assembleia legislativa que se pronunciava pela libertação daqueles deputados.
Na Globo lê-se, por outro lado, que a Polícia Federal investiga se a causa do crime não terá sido o facto de Marielle estar a defender uma ocupação de terras feita por pessoas com baixo rendimento na Zona Oeste do Rio de Janeiro. A vereadora estaria a tentar que órgãos como o Instituto de Terras e Cartografia do Estado do Rio e o Núcleo de Terra e Habitação, da Defensoria Pública do Rio se envolvessem no processo. Por sua vez, o mandante do assassinato “buscava a regularização de um condomínio inteiro na região de Jacarepaguá sem respeitar o critério de área de interesse social, ou seja, o dono tinha renda superior à prevista em lei. O objetivo seria obter o título de propriedade para especulação imobiliária”, escreve este órgão de comunicação social.