Primeiro circulou o rumor de que se aproximava o corte de cerca de mil postos de trabalho. A esta luz, o anúncio de que serão suprimidos 677 empregos na Auchan poderia ter parecido um mal menor. Mas o plano social anunciado pela empresa retalhista esta terça-feira feira está mesmo a ser encarado como um caso importante.
É a primeira vez que a empresa do norte de França suprime empregos ao nível central. Não é a primeira cadeia de hipermercados do país a fazê-lo. Por exemplo, em 2017, o Carrefour suprimiu 2400 postos de trabalho na sua sede.
A Auchan, que emprega 72 mil trabalhadores só em França, vai empurrar em 2020 borda fora “por acordo” 677 dos trabalhadores da sua estrutura central. A empresa diz que, como vai criar brevemente 135 outros empregos na gestão de dados e informática, o saldo serão apenas menos 517 empregos.
Mas ao número agora anunciado têm de se somar mais. Entre 700 e 800 trabalhadores de super e hipermercados da marca viram o seu emprego posto em causa na primavera de 2019 quando foi anunciada a pretensão de fechar 21 superfícies comerciais. Em julho a empresa comunicou que tinha encontrado comprador para dez. Os restantes foram fechados e 400 trabalhadores aceitaram o plano de despedimento coletivo que a empresa negociou com os sindicatos.
Para além de minimizar as saídas de trabalhadores, garantindo não serem despedimentos, a direção da empresa assume a crise do modelo de negócio da Auchan. Edgard Bonte, o presidente do grupo, diz que “a distribuição desenvolveu-se através de um modelo poderoso tornado atualmente inadaptado”, o das grandes superfícies que juntam oferta alimentar e não alimentar.
A Auchan beneficiou e muito desse modelo. A empresa propriedade da família Mulliez criou o seu primeiro hipermercado em 1967 e, desde então, explodiu até se tornar uma multinacional. Como outros grupos do setor, depois do período de expansão forte, conhece agora a contração. Em 2018, o grupo registou prejuízos de 1,145 mil milhões de euros e uma quebra no volume de negócios na atividade comercial, a nível mundial, de 3,2%
O seu presidente garante que a empresa está a fazer “um trabalho de transformação profunda” para se adaptar às novas tendências do mercado. Vai atrasado, dizem vários analistas que destacam que a maior parte dos seus concorrentes já começou há cerca de uma década a alterar o modelo de negócio para valorizar a proximidade enquanto que a Auchan em França permanece dependente dos 118 hipermercados que correspondem a 80% do volume de negócios.
A retórica tranquilizadora da administração não é partilhada pela esquerda e pelos sindicatos. O deputado Adrien Quatennens da France Insoumisse, declarou à France Info que o plano é “um desastre social”, acrescentando que o Estado deveria “exigir contrapartidas” uma vez que “lança dinheiro público nestas empresas”. Os sindicatos também não estão satisfeitos. Ao jornal La Voix du Nord, o delegado sindical da CFDT, Guy Laplatine, salienta que o número de postos de trabalho perdidos “pode parecer pouco numa escala de 75 mil trabalhadores mas o perímetro a que diz respeito o plano é de cerca de quatro mil pessoas”, sendo assim “uma parte de consequente dos efetivos de serviços de apoio que é afetada”. O sindicalista pergunta-se se são saídas voluntárias mesmo ou despedimentos encapotados e o que acontecerá a quem fique depois de saírem 20% dos trabalhadores: “deverão trabalhar mais?” EBruno Delaye, delegado sindical da CFTC, ao mesmo órgão de informação, esclarece que “o clima social é de tensão desde há anos” e teme que se sigam mais despedimentos.