Depois do veto norte-americano no Conselho de Segurança, a Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas aprovou esta terça-feira numa votação expressiva uma resolução a exigir um cessar-fogo imediato em Gaza. Votaram a favor 153 Estados-membro, houve 23 abstenções e apenas dez votos contra.
O projeto de resolução tinha sido submetido pelo Egito apesar de copatrocinado por perto de 80 países, um deles Portugal. Entre os poucos países manifestamente contrários ao cessar-fogo, para além de Israel, voltaram a figurar os Estados Unidos. Estes escudam a sua posição no facto de não se mencionar no texto qualquer condenação do Hamas. Os norte-americanos, mas também os austríacos, tentaram ainda incluir duas emendas no sentido de incluir esse ponto e o “direito de defesa de Israel” mas estas não foram aprovadas.
A dimensão do isolamento dos EUA sobre esta matéria é ilustrada com a posição conjunta de aliados tradicionais seus, o Canadá, a Austrália e a Nova Zelândia, que passaram a defender que “o preço de derrotar o Hamas não pode ser o sofrimento continuado de todos os civis palestinianos”.
Por sua vez, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, quer sanções contra os colonos israelitas que têm atacado palestinianos na Cisjordânia e defendeu que estes devem ser responsabilizados por “uma violência que não tem nada a ver com a luta contra o Hamas”.
A pressão internacional e a sua posição de fraqueza interna fez entretanto o presidente dos EUA, Joe Biden, endurecer o discurso relativamente a Israel, sublinhando que este país está a perder apoio internacional por causa dos “bombardeamentos indiscriminados” em Gaza e que Netanyahu deveria mudar a sua política porque Israel “não pode dizer não” a um Estado independente palestiniano. Palavras que não se traduzem de maneira nenhuma em qualquer alteração de política sobre financiamento e armamento do Estado sionista.
Enquanto o embaixador palestiniano na ONU, Riyad Mansour, se congratulou com a “mensagem poderosa” de um “dia histórico”, frisando que “é nosso dever salvar vidas”, o embaixador israelita classificou a resolução de “hipócrita” e voltou a usar linguagem desumanizante. Para ele, a “culpa” de tudo é dos “monstros do Hamas”.
Ataques israelitas continuam em Gaza
No terreno, a votação não teve qualquer impacto imediato, continuando os bombardeamentos e combates em todo o território de Gaza. Esta quarta-feira, o exército israelita deu conta do pior número de baixas, dez, desde que começou esta nova etapa da colonização da Palestina, tendo morrido um coronel, o oficial israelita de maior patente já abatido nesta guerra, e um tenente-coronel.
Mais um hospital voltou a ser atacado, desta feita em Jabaliya, no norte, com as autoridades de Saúde de Gaza a dizer que o pessoal médico foi detido e abusado. A maior parte dos hospitais desta parte do território está agora inoperacional, enquanto os do sul que ainda funcionam estão completamente sobrelotados. O testemunho do médico britânico Chris Hook, dos Médicos sem Fronteiras e que está no hospital Nasser, em Khan Younis, é elucidativo a este respeito: “médicos como eu estão a passar por cima de cadáveres para tratarem crianças que vão morrer”. Nesta cidade, o exército israelita tenta avançar para o centro mas está a encontrar forte resistência, segundo uma fonte contou à agência Reuters.
Lynn Hastings, coordenadora da ação humanitária da ONU nos Territórios Palestinianos ocupados, confirma que “todos sabemos que o sistema de saúde colapsou”, o que é “uma fórmula de manual para epidemias e um desastre de saúde pública”. A responsável avança que é Israel que tem de garantir as necessidades básicas da população e deixar entrar ajuda humanitária.
Para além de hospitais, também escolas continuam a ser alvo. Desta feita foi a de Shadia Abu Ghazala, onde a população tinha procurado refugio dos pesados bombardeamentos. De acordo com a Al Jazeera, a escola não foi bombardeada mas o canal tem imagens de corpos de civis empilhados, incluindo mulheres e crianças que testemunhas dizem terem sido mortas por militares israelitas “ao estilo de execução” enquanto estavam na escola. Uma das testemunhas diz que os soldados israelitas levaram os homens, entraram nas salas de aula e “abriram fogo contra as mulheres e as crianças”.
Os ataques de Israel não se cingem à Faixa de Gaza e esta quarta-feira foi o segundo dia de uma rusga ao campo de refugiados de Jenin na Cisjordânia. Há casas incendiadas e pelo menos sete mortos, segundo o Ministério da Saúde da Autoridade Palestiniana.
Desde o dia 7 de outubro, os ataques sionistas já fizeram 18.000 mortes e deixaram 2.3 milhões de pessoas sem casa.