Rainha de Inglaterra (agora é um rei) é a expressão que se usa para designar alguém que parece ter poder, mas que o tem de forma meramente simbólica. Nem sempre foi assim, e neste país em que os monarcas mais marcantes foram rainhas, a arte foi e continua a ser um instrumento do poder. Uma viagem ao século XV e à pintura de Holbein permite-nos ver isso. Local, a Queen’s Gallery em Buckingham.
A monarquia é uma das atrações turísticas de Londres. A família real está em todo o tipo de objetos para venda nas inúmeras lojas de souvenirs, não faltando até bonecos de peluche dos cães (Corgi) de Isabel II. Claro que a maior atração é o render da guarda no Palácio que todos os dias atrai multidões. Este render da guarda destinar-se-ia a demonstrar poder, mas dela ficou o folclore. Numa entrada lateral do Palácio, existe a Queen´s Gallery que tem, geralmente, exposições interessantes, feitas a partir das coleções reais. Sem poder real, a monarquia inglesa tem um enorme poder simbólico, e o mostrar objetos da sua coleção acumulada ao longo dos séculos é importante para esse poder.
Apesar de a Inglaterra ter um parlamento muito antigo, e uma nobreza forte, o poder real já foi muito grande. A monarquia inglesa foi muito menos estável que a portuguesa. Lutas pela sucessão, golpes palacianos, assassinatos, guerras civis foram muito mais frequentes. As dinastias geralmente não duraram séculos. A que nos interessa, a Tudor, durou apenas três gerações, porém foi marcante já que foi a da cisão da Igreja Anglicana e do lançamento das bases do Império Britânico. Impôs-se com a vitória da casa de Lancaster na Guerra das Rosas e acabou com a morte, sem filhos de Isabel I. Pelo meio fica Henrique VIII, conhecido pelas suas 6 mulheres (algumas das quais acabaram decapitadas) e pela cisão da Igreja Anglicana. Diga-se que esta cisão, embora coincidente com os movimentos protestantes na Europa, é ditada pela vontade de anular o casamento com Catarina de Aragão. Uma das motivações para os casamentos sucessivos terá sido o conseguir garantir a sucessão com um herdeiro masculino.
O percurso dos reis e rainhas da dinastia Tudor, Henrique VII, Henrique VIII, seu filho e suas filhas, não foram isentos de ameaças. O primeiro, depois de vencer e matar Ricardo III em batalha, continuou ameaçado pelo seu fantasma, ou pelo menos pelo fantasma da sua família que, tal como D. Sebastião teimavam em aparecer. Tentou atenuar essa ameaça pelo casamento, com a sobrinha de Ricardo III, meses depois da subida ao trono. O seu filho Henrique VIII, ia decapitando sucessivamente os que o rodeavam, esposas supostamente infiéis, nobres, clérigos e conselheiros, dos quais Thomas Moore será o mais famoso. O seu único filho, Eduardo VI, morreu aos 15 anos, nomeando a sua prima Jane Grey rainha, para evitar o regresso ao catolicismo. Esta não foi rainha por um dia, mas por nove, pois foi esse o tempo que levou para ser deposta por Mary, a filha mais velha e católica de Henrique VIII. Esta é a famosa Bloody Mary, Maria sangrenta que, para restaurar o catolicismo, massacrou os protestantes. Segue-se finalmente a outra filha de Henrique VIII, Isabel, com um reinado longo, no qual se inicia a expansão marítima britânica. Porém, nem Isabel esteve longe destas lutas pela sucessão, Maria da Escócia era uma ameaça ao seu trono e acabou por ser aprisionada e executada. Pelo meio, ia havendo revoltas católicas.
Além do carrasco, a resposta a estas ameaças estava na propaganda. Sem comunicação social, os seus meios passavam pela arte. Shakespeare é acusado de fazer parte dessa propaganda ao, por exemplo, mostrar Ricardo III como o pior dos vilões. Holbein, pintor alemão que veio para Inglaterra em 1526, também contribuiu para isso.
A obra mais famosa do pintor é o retrato de Henrique VIII de que existem inúmeras cópias feitas pelo próprio pintor e outros. Havia uma função clara, Holbein vivia do que pintava, Henrique VIII, precisava de ter o seu retrato em vários locais, em Inglaterra e noutras cortes europeias, isso mostrava o seu poder. É uma arte utilitária, os retratos circulavam, entre outras coisas para as escolhas matrimoniais e também de demonstração de poder. Holbein foi um dos pintores fundamentais do renascimento do norte da Europa, mas também um dos retratistas fundamentais da alta sociedade inglesa, em primeiro lugar da própria corte de Henrique VIII. Os retratos reais davam-lhe prestígio e garantiam-lhe encomendas na sociedade inglesa.
Algumas histórias interessantes mostram como esta arte era um instrumento do poder. A sua obra mais conhecida, o retrato de Henrique VIII, apresenta em rei como estando no auge da sua juventude, quando já teria passado dos 40 e sofria de vários problemas de saúde, tinha também sofrido uma queda de cavalo. As suas pernas também teriam sido alongadas. Este retrato, como vimos, foi alvo de inúmeras cópias, existindo em vários exemplares na Europa. Porém, apesar do “protophotoshop” existe geralmente como busto, sem que se possa notar o alongamento das pernas. Ana Bolena foi a segunda mulher de Henrique VIII, foi para poder fazer este casamento que se deu a cisão da Igreja Anglicana. Caiu em desgraça e, acusada de infidelidade foi decapitada. Precedendo o apagar dos adversários caídos em desgraça de Estaline, o seu retrato desapareceu, restam apenas os esboços. Maria Stuart, a Bloody Mary, ao contrário dos seus irmãos só tem direito a um esboço e à presença num quadro com a família. Não existe, e parece nunca ter existido, um quadro seu.
Um quadro em falta na exposição é o Ana de Cleves, quarta mulher de Henrique VIII, para o qual Holbein foi à Alemanha pintar a possível noiva. Terá ficado muito favorecida no retrato, pois Henrique VIII gostou do retrato, mas não da própria. Meses depois o casamento era anulado por não consumado. O retrato está a poucos quilómetros na National Portrait Gallery, mas não fez o caminho para Buckingham.
Os próprios quadros são uma demonstração de riqueza, não só pela sua qualidade e precisão, mas também pela riqueza dos adereços de quem é retratado. As joias, a riqueza dos tecidos e outros adereços são complementados pela riqueza dos materiais com que são pintados. Toda esta riqueza mostrava o poder real, mas também dos nobres e negociantes que recorriam aos serviços de Holbein. O retrato a cavalo, ou no campo de batalha que iam caracterizar o retrato de poder nos séculos seguintes, ainda não existem aqui e nem os fundos palacianos são frequentes sendo o/a retratado/a o centro do quadro.
Antes da sua ida e nos primeiros tempos em Inglaterra não seria assim, os seus retratos de Erasmo e Thomas Moore (que são aqueles que conhecemos das personagens referidas) estão de acordo com a austeridade que os caracterizava. Holbein foi para Inglaterra por via da amizade entre os dois, e a partir daí impôs-se na alta sociedade. Sinal de tempos e locais conturbados em relação à religião é que, embora haja retratos de dignatários religiosos, não há representações de cenas bíblicas, como são tão frequentes nos seus contemporâneos italianos.
Na sociedade atual encontramos inúmeros mecanismos ideológicos de preservação das estruturas sociais. Com uma comunicação de massas isso alarga-se e há mesmo margem para a contestação da ideologia dominante. O que temos aqui é a demonstração de que isso não é novo na sociedade atual. As monarquias renascentistas também necessitavam destes meios de imposição ideológica, a monarquia atual utiliza-os para legitimar e reforçar o seu poder simbólico.