Argentinas mobilizadas pela despenalização do aborto

07 de outubro 2010 - 12:57

Incentivadas pela aprovação da lei de casamento entre pessoas do mesmo sexo, organizações de mulheres da Argentina reclamaram a legalização do aborto, no dia latino-americano pela despenalização da interrupção voluntária da gravidez. Por Marcela Valente, IPSNews.

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Activistas argentinas na acção pela penalização do aborto do dia 28 de Setembro. Foto Colectivo Las Juanas.

Cerca de mil activistas do Colectivo de Mulheres Juana Azurduy, mais conhecido com Las Juanas, apresentaram, em diferentes tribunais do país, um pedido de habeas corpus “colectivo e preventivo” para que a penalização do aborto seja declarada inconstitucional.

Também pediram que se exorte o Poder Legislativo a adequar a lei vigente que penaliza o aborto com a norma internacional que reconhece o direito das mulheres decidirem sobre o seu corpo.

“Escolhemos o habeas corpus porque é a figura que protege a liberdade das pessoas e, de forma preventiva, pedimos que a justiça nos ampare se ficarmos grávidas e quisermos abortar”, explicou à IPS Gabriela Sosa, do Las Juanas.

Gabriela, coordenadora da organização na província de Santa Fé e uma das signatárias do pedido, explicou que o contexto político-social é muito adequado no momento para se avançar com uma lei que despenalize o aborto.

“Há um tempo atrás não podíamos imaginar que a Argentina teria uma lei de casamento igualitário e este ano isso conseguiu-se porque há uma preocupação social para debater estes temas e os políticos reconhecem-na”, destacou.

Entretanto, admitiu um factor contrário. Em 2011 haverá eleições gerais e “nenhum candidato vai querer 'pegar a batata quente' do aborto”, ironizou a activista, referindo-se à reticência dos políticos em se pronunciarem sobre assuntos controversos durante as campanhas.

Na Argentina, o aborto é ilegal e punido com prisão, salvo quando a gravidez é fruto de uma violação, quando a mãe corre risco de morte ou se a gestante “é idiota ou demente”.

Apesar desta lei, anualmente acontecem entre 460 mil e 600 mil interrupções voluntárias da gravidez, segundo a informação da “Estimativa da magnitude do aborto induzido na Argentina”, elaborado por especialistas da Universidade de Buenos Aires (UBA) e do Centro de Estudos de População.

Na América Latina, apenas Cuba – além do Estado livre associado de Porto Rico e o Distrito Federal do México – não o penalizam. O restante divide-se entre países que o criminalizam sem nenhuma excepção (Chile, El Salvador e Nicarágua) e os que o permitem de maneira muito restrita.

No entanto, na região são feitos quatro milhões de abortos por ano, segundo diversas fontes, e 13% das mortes maternas estão associadas a esta prática feita de maneira insegura. Na Argentina, o aborto clandestino e inseguro é a primeira causa de mortalidade materna, recordaram as activistas do Las Juanas.

Diante desta realidade, as organizações argentinas lançaram a iniciativa, no passado dia 28, junto ao Poder Judiciário, no dia em que o movimento feminista da América Latina e das Caríbas instituiu, há 20 anos, como Dia pela Despenalização do Aborto.

A Amnistia Internacional uniu-se a esta campanha com um duro pronunciamento sobre as consequências da criminalização. “Devem ser revogadas as leis que punem ou permitem o encarceramento de mulheres e meninas que procuram ou têm um aborto sob qualquer circunstância”, pediu Guadalupe Marengo, directora-adjunta da organização para a região. Para a Anistia, a restrição às mulheres latino-americanas a um aborto legal e seguro faz com que “os seus direitos humanos estejam em grave perigo”.

Na Argentina, as organizações de mulheres realizam, há vários anos, campanhas a favor de despenalizar esta prática, mas sempre encontram a resistência dos sectores mais conservadores.

Este ano, o ambiente parece estar mais favorável. Desde Março, a Câmara dos Deputados analisa um projecto de lei para a despenalização, apoiado por meia centena de legisladores de diferentes partidos.

A iniciativa, que poderá ser debatida em Outubro, foi apresentada pela legisladora Cecília Merchán, do movimento esquerdista Libres Del Sul, e propõe legalizar a interrupção voluntária da gravidez até às 12 semanas de gestação, como já ocorre no Distrito Federal do México, que acolhe a maior parte da população da capital do país. (...)

“No ano passado, das mulheres que ingressaram em hospitais públicos com aborto iniciado e complicações derivadas, 120 morreram, isto é, a cada dois dias morreu na Argentina uma mulher por esta causa”, alertou Cecília Merchán.

A legisladora ponderou que “o clima atual é favorável” no sentido de se avançar neste tema, pois “a sociedade apresenta a necessidade de tratar no Congresso um assunto que tem severas consequências na vida de tantas mulheres”.

“Assim como ocorreu no debate sobre casamento homossexual, a sociedade em seu conjunto, mesmo os que são contra, não quer mais esconder uma realidade que envolve tantas pessoas”, disse.

“Para nós, o tema não é novo, mas notamos que agora a exigência da sociedade obriga os legisladores a discuti-lo”, ressaltou Cecília. (...)

As organizações de mulheres não têm o apoio da presidente Cristina Fernández, que se manifestou contra a legalização do aborto. Entretanto, Cecilia acredita que seu pensamento não interferirá no debate legislativo.

Artigo de Marcela Valente, versão completa publicada em Envolverde/IPS