Arábia Saudita: Duas mulheres presas por guiar serão julgadas em tribunal de terrorismo

26 de dezembro 2014 - 15:42

As sauditas Loujain al-Hathloul, 25 anos, e Maysa al-Amoudi, 33, detidas no começo de dezembro por guiarem automóvel, serão julgadas por um tribunal especial para casos de terrorismo na Arábia Saudita.

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Cartoon de Carlos Latuff para Opera Mundi

Segundo ativistas, é a primeira vez que mulheres presas por guiarem são transferidas para o tribunal especial com sede em Riad, capital do país árabe, o único no mundo a proibir que mulheres conduzam automóveis.

Pessoas próximas de al-Hathloul e al-Amoudi afirmaram que elas estão a ser julgadas não por guiar, mas por expressar as suas opiniões online. As duas ativistas têm mais de 350 mil seguidores no Twitter e são as principais vozes da campanha pelo direito das mulheres de guiar na Arábia Saudita.

Em entrevista à Agência Efe, o ativista Yahya Asiri explicou que as autoridades judiciais estão a aplicar a nova lei antiterrorista, que entrou em vigor em fevereiro de 2014, segundo a qual devem ser julgadas pessoas que prejudiquem a reputação do país.

A norma define o delito de terrorismo como “qualquer ato criminoso que de forma direta ou indireta altere a ordem pública, atente contra a segurança da comunidade e a estabilidade do Estado, ou ponha em perigo a união nacional”. Segundo o jornal britânico The Guardian, o tribunal especial foi estabelecido para julgar casos de terrorismo e tem sido utilizado também para julgar dissidentes e ativistas pacíficos, como as duas mulheres.

Asiri destacou que na audiência realizada nesta quinta-feira (25/12), a segunda do julgamento, a promotoria e os advogados das duas mulheres rejeitaram a mudança, e previram que o tribunal pode pronunciar-se nos próximos dias sobre se aceita ou não levar o processo.

As sauditas, que têm cartas de motorista dos Emiratos Árabes Unidos, foram detidas na fronteira entre o país e a Arábia Saudita ao tentar entrar a guiar no seu país de origem.Veja abaixo o vídeo registado por Loujain al-Hathloul pouco antes de ser presa.

Elas vinham pedindo na internet o fim da proibição de guiar para as sauditas, existente de forma oficial no país desde 1990, e tinham convocado outras pessoas a desafiar a norma.

Nos últimos anos foram organizadas campanhas nas quais mulheres sauditas saíram para guiar carros no país e postaram os seus vídeos nas redes sociais para denunciar a falta de liberdade. Em 2011, uma saudita foi condenada a 10 chibatadas por guiar, mas a sua sentença foi cancelada pelo rei Abdullah.

A Arábia Saudita é regida por uma interpretação da lei islâmica que impõe a segregação de sexos em espaços públicos e restrições às mulheres para além de conduzir, viajar para fora do país sem um homem da família. Não há nenhuma lei que explicite a proibição para mulheres guiarem no país, mas o reino recusa-se a emitir cartas de motorista para mulheres, dizendo que teme que a ampliação dos direitos civis leve a “problemas sociais”.

Artigo publicado em Opera Mundi