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Apresentando-me, por Ursula Le Guin

A escritora feminista e libertária apresentava este ensaio autobiográfico, escrito em 1992, como “um texto de performance”. 
Ursula Le Guin em 2014. Foto de Jack Liu.

Ursula Le Guin (Estados Unidos, 1929-2018) foi uma célebre escritora feminista e libertária que se destacou na área da ficção científica. Focou temas políticos e sociais, questões de raça, género, sexualidade, envelhecimento, colonialismo e militarismo, e projetou estruturas políticas alternativas. A primeira grande obra de ficção científica de Le Guin, A Mão Esquerda das Trevas, inovou pela investigação radical dos papéis de género e pela sua complexidade moral e literária. Os romances Os Despojados e Always Coming Home redefiniram o alcance da ficção utópica. A sua recolha final de poemas, So Far So Good, foi publicada após sua morte. 


Apresentando-me, por Ursula Le Guin 

Eu sou um homem. Pensas agora que cometi algum erro tonto de género ou talvez que tento enganar-te porque o meu primeiro nome acaba num A e tenho três sutiãs e estive grávida cinco vezes e outras coisas como essas que podes ter notado, pequenos detalhes. Mas detalhes não contam. Se há alguma coisa a aprender com os políticos é que detalhes não importam. Eu sou um homem e quero que tu acredites e aceites isso como um facto, tal como eu fiz durante muitos anos. Sabes, quando eu estava a crescer, na altura da guerra do Império do Medo contra os Persas e quando fui para a escola logo depois da Guerra dos Cem Anos e quando estava a criar os meus filhos durante as guerras da Coreia, Fria e do Vietname, não havia mulheres. As mulheres são uma invenção muito recente. Situo a invenção das mulheres há apenas umas décadas. Bem, se insistes no rigor pedante, as mulheres foram inventadas várias vezes, em localidades muito diferentes, mas os inventores não sabiam como vender o produto. Tinham técnicas de distribuição rudimentares e não faziam pesquisa de mercado e então, claro, o conceito não vingou. Mesmo quando há génio por detrás de uma invenção, ela tem que encontrar o seu mercado e parece que, durante um longo período, a ideia de mulheres não atingia a fasquia mínima. Modelos como os de Austen ou das Brontë1 eram demasiado complicados, e as pessoas riam-se das sufragistas, e o de Woolf2 estava muito à frente do seu tempo. 

Então, quando nasci, só havia mesmo homens. As pessoas eram homens. Todos tinham um pronome, o pronome dele; então, isso é o que eu sou. Eu sou o masculino universal. Como por exemplo: "Se um indivíduo precisa de um aborto, ele vai ter que ir a outro Estado" ou "um escritor sabe de que lado do pão se põe manteiga". Sou eu o escritor, ele. Eu sou um homem. 

Talvez não um homem de primeira categoria. Estou perfeitamente disponível para admitir que talvez seja uma espécie de homem de segunda categoria, um homem de imitação, um finge-a-ele. Enquanto ele, estou para um genuíno ele masculino como um douradinho preparado no micro-ondas está para um salmão chinook grelhado inteiro. Isto é: posso eu inseminar, afinal de contas? Posso pertencer ao Bohemian Club3? Posso dirigir a General Motors? Teoricamente posso, mas já sabes onde a teoria nos leva. Não é para o topo da General Motors, e no dia em que uma mulher de Radcliffe4 for presidente da Universidade de Harvard, acordas-me e me contas-me, combinado? Não terás que fazê-lo, porque já não há mulheres de Radcliffe; foram consideradas desnecessárias e abolidas. E depois, não posso escrever o meu nome com chichi na neve, ou seria muito trabalhoso se o fizesse. Não posso disparar sobre a minha esposa, filhos, alguns vizinhos e depois sobre mim mesmo. Ah, na verdade eu nem sei conduzir. Nunca tirei a carta. Acagacei-me. Apanho o autocarro. É terrível. Admito-o, na verdade sou uma imitação ou um homem substituto muito fraco, e isso ficou comprovado quando tentei usar aquelas sobras de roupa do exército com bolsos para munições que estavam na moda e parecia uma galinha numa fronha. Tenho a forma errada. É suposto as pessoas serem magras. Não podem ser magras demais, toda a gente o diz, especialmente as pessoas anoréxicas. As pessoas deveriam ser magras e esticadas, porque é assim que os homens geralmente são, esguios e esticados, ou pelo menos é assim que muitos homens começam e alguns até se mantêm assim. E os homens são pessoas, as pessoas são homens, isso já ficou bem estabelecido e, portanto, as pessoas, pessoas reais, pessoas do tipo certo, são magras. Mas sou péssimo a ser pessoa, porque não sou nada magro, mas um pouco rechonchudo, com partes mesmo gordas. Sou atarracado. Além disso, as pessoas devem ser duras. Duro é bom. Mas nunca fui duro. Eu sou meio mole e, na verdade, meio tenro. Como um bom bife. Ou como o salmão chinook, que não é magro nem duro, mas muito rico e tenro. Mas o salmão não é uma pessoa, ou pelo menos assim nos têm dito nos últimos anos. Foi-nos dito que só existe um tipo de pessoa, que são homens. E acho muito importante que todos acreditemos nisso. Certamente é importante para os homens.

Na verdade, acho que simplesmente não sou máscula. Como Ernest Hemingway era másculo. A barba e as armas e as mulheres e as pequenas frases curtas. Eu tento. Eu tenho essa espécie de barbicha que teima em crescer, nove ou dez pelos no queixo, às vezes até mais; mas o que faço com esses pelos? Arranco-os. Um homem faria isso? Os homens não arrancam pelos. Os homens barbeiam-se. Em suma, os homens brancos, sendo peludos, barbeiam-se e eu tenho ainda menos escolha sobre ser branco ou não do que tenho sobre ser homem ou não. Eu sou branco, goste ou não de ser branco. Os médicos não podem fazer nada por mim. Mas, nestas circunstâncias, faço o possível por não ser branco, suponho eu, uma vez que não me barbeio. Arranco. Mas isso não significa nada porque realmente não tenho barba que se apresente. E não tenho uma arma e não tenho sequer uma mulher e as minhas frases tendem a prolongar-se indefinidamente, com toda esta sintaxe nelas. Ernest Hemingway preferia morrer a ter sintaxe. Ou ponto e vírgula. Eu uso montes de descuidados pontos e vírgulas; olha este aqui agora; foi um ponto e vírgula depois de “pontos e vírgulas” e outro depois de “agora”.

E outra coisa. Ernest Hemingway preferia morrer a envelhecer. E assim fez. Matou-se. Uma frase curta. Tudo menos uma frase longa, uma sentença perpétua5. Sentenças de morte são curtas e muito, muito másculas. Sentenças para toda a vida não o são. As frases lá continuam, cheias de sintaxe e cláusulas qualificativas e referências confusas, e envelhecendo. E isso é a prova final da confusão que armei ao ser homem: nem sequer sou jovem. Mais ou menos pela altura em que finalmente começaram a inventar as mulheres, comecei a envelhecer. E assim continuei. Descaradamente. Permiti-me envelhecer e não fiz nada quanto a isso, com uma arma ou alguma coisa.

Isto é: se eu tivesse algum amor-próprio a sério, não teria feito pelo menos um lifting facial ou alguma lipoaspiração? Embora a lipoaspiração me pareça o que eles fazem muito na TV quando são jovens ou de estilo jovem, mas não quando são velhos, e quando um deles é homem e o outro é mulher, mas em nenhuma outra circunstância. O que eles fazem é que esse homem e mulher jovens ou juvenilizados abraçam-se e deslizam as mãos um no outro e depois fazem lipoaspiração. É suposto que os observes enquanto o fazem. Eles movem a cabeça e esmagam a boca e o nariz na boca e no nariz da outra pessoa e abrem a boca de maneiras diferentes, e tu deves sentir-te meio quente ou molhado ou algo enquanto assistes. O que eu sinto é que estou a ver duas pessoas a fazer lipoaspiração, e é por isso que finalmente inventaram a mulher? Decerto que não.

Na verdade, acho que o sexo como um desporto para espectadores é ainda mais chato do que todos os outros desportos para espectadores, até o basebol. Se for obrigado a assistir a um desporto em vez de praticá-lo, escolho o hipismo. Os cavalos têm mesmo bom aspeto. As pessoas que os montam são na maioria aquele tipo de nazis, mas, como todos os nazis, eles só são tão potentes e bem-sucedidos quanto o cavalo que estão a montar e, afinal, é o cavalo que decide se salta aquele obstáculo de cinco barras ou se estaca antes e deixa o nazi cair sobre o pescoço. Só que habitualmente o cavalo não se lembra de que pode optar. Os cavalos não são muito espertos. Mas, de qualquer forma, saltos de obstáculos e sexo têm muito em comum, embora normalmente só consigas ver saltos de obstáculos na televisão norte-americana se conseguires apanhar um canal canadiano, o que não é verdade para o sexo. Dada a opção, embora muitas vezes eu esqueça que tenho uma opção, certamente assistiria a saltos e faria sexo. Nunca a inversa. Mas estou velho demais para saltos de obstáculos e, quanto ao sexo, quem sabe? Eu sei; tu não.

É claro que um velho gaiteiro de hoje em dia deve saltar de cama em cama, como os cavalos saltam os obstáculos de cinco barras, salta, salta, salta, mas boa parte dessa história de super sexo aos setenta anos parece ser teoria novamente, como a da mulher CEO da General Motors e a da presidente de Harvard. A teoria é inventada principalmente para tranquilizar as pessoas na casa dos quarenta, ou seja, os homens que estão preocupados. É por isso que tivemos Karl Marx e ainda temos economistas, embora pareça que perdemos Karl Marx. Como tal, a teoria é elegante. Quanto à prática, ou práxis, como os marxistas costumavam chamá-la, aparentemente porque gostavam de usar o xis, esperas até aos sessenta ou setenta anos e vem então contar-me a tua prática sexual, ou práxis, se quiseres, embora eu não prometa que vou ouvir e, se ouvir, provavelmente ficarei extremamente entediado e começarei à procura de algum programa de hipismo na televisão. Em qualquer caso, não te darei a ouvir nada sobre a minha prática ou práxis sexual, nem nessa altura, nem agora, nem nunca.

Mas, à parte tudo isso, aqui estou eu, velho, quando escrevi isto tinha sessenta anos, “um homem público sorridente de sessenta anos”, como disse Yeats, mas, no caso, ele era um homem. E agora tenho mais de setenta. E é tudo culpa minha. Nasço antes de inventarem as mulheres e vivo todas essas décadas a tentar tão arduamente ser um bom homem que esqueço tudo sobre ficar jovem, e então não fico. E as minhas conjugações temporais misturam-se todas. Eu sou apenas um jovem e de repente tinha sessenta e talvez oitenta, e a seguir?

Nada de especial.

Fico a pensar que devia haver alguma coisa que um homem de verdade poderia ter feito sobre isto. Algo menos do que armas, mas mais eficaz do que creme de rosto. Mas eu falhei. Não fiz nada. Falhei completamente em continuar jovem. E então olho para trás para todos os extenuantes esforços que fiz, porque eu tentei mesmo, tentei muito ser um homem, ser um bom homem, e vejo como falhei nisso. Na melhor das hipóteses, sou um homem mau. Um ele de imitação de segunda com uma barba de dez pelos e pontos e vírgulas. E pergunto-me para quê. Às vezes penso que também poderia desistir desta coisa toda. Às vezes acho que poderia muito bem exercer a minha opção, estacar mesmo em frente ao obstáculo de cinco barras e deixar o nazi espetar-se de cabeça. Se não valho nada a fingir ser homem e não sou bom a ser jovem, poderia também começar a fingir que sou uma mulher velha. Não tenho a certeza se alguém já inventou as mulheres velhas; mas talvez valesse a pena tentar.


www.ursulakleguin.com

Tradução de Jorge Costa para Esquerda.net

1 NdT: Jane Austen e irmãs Charlotte, Emily e Anne Brontë, escritoras inglesas da primeira metade do século XIX.

2 NdT: Virginia Woolf, escritora inglesa da primera metade do século XX.

3 Clube privado de homens proeminentes de São Francisco, Califórnia.

4 NdT: O Radcliff College era uma faculdade feminina em Cambridge, Massachusetts, que funcionava como a correspondente feminina do Harvard College, exclusivamente masculino.

5 NdT: A autora faz um jogo com o duplo sentido da palavra “sentence”, que significa “frase” e também “sentença”.

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