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A 'Apple Connection'

O iPad e o iPhone são a expressão do casamento entre um empreendimento exigente o “estado capitalista ideal” de hoje, a China, com a liberdade que oferece ao capital juntamente com a capacidade sem paralelo de disciplinar o trabalho.
Umas 700 000 pessoas criam, constroem e montam iPads, iPhones e outros produtos da Apple. Mas quase nenhuma delas trabalha nos Estados Unidos. Foto de langwitches

Depois do início da crise económica global atual, o foco tanto da análise crítica quanto do ódio público tem sido o capital especulativo. Na narrativa populista, foram os espantosos embustes dos bancos, numa atmosfera de desregulação, que levaram ao colapso económico. “A economia financeira” caracterizada como parasita e má, era apresentada em contraste com “a verdadeira economia”, a que se dizia produzir mercadorias verdadeiras e valor verdadeiro. Os recursos fluíram para atividades especulativas na finança, resultando numa perda de dinamismo na economia verdadeira e consequentemente levando a cortes de crédito na altura da crise, causando bancarrota e layoffs maciços.

A Lula-Vampiro contra o Galahad das Grandes Empresas?

O vilão principal desta narrativa é o Goldman Sachs. A imagem deste residente de Wall Street foi gravada na mente pública pela descrição de Taibbi Mate como “uma grande lula vampiro enrolada à volta do rosto da humanidade, implacavelmente enfiando o seu funil sangrador em tudo o que cheire a dinheiro.”

Neste relato dos analistas progressistas, a grande empresa transnacional (TNC), oculta-se silenciosamente no pano de fundo. De facto, é vista como sendo parte da economia verdadeira, como o termo comummente usado “grande empresa não-financeira” sugere. Em contraste com os bancos de investimento, que criam produtos fictícios como os derivados, diz-se que as TNCs criam produtos verdadeiros como os elegantes iPads e iPhones da Apple. Enquanto a Goldman Sachs é pintada como uma lula vampiro, a Apple é representada como o Galahad das grandes empresas em quem se pode confiar para provir os desejos mais loucos do consumidor. Num inquérito, 56% dos americanos não associaram nada de negativo à Apple.

Contudo, uma peça recente do New York Times,publicada em duas partes,sobre a Apple, lembra-nos que as grandes empresas transnacionais e a sua prática de externalizar [outsourcing] empregos são a face principal quando se trata da crise económica atual. E não foram apenas as grandes empresas "vultuosas" como a General Motors e a Boeing que deslocaram massivamente o trabalho dos Estados Unidos para paraísos de trabalho barato lá fora, mas também as envolvidas na indústria do conhecimento. De facto, a proporção mais alta de firmas com uma estratégia offshore pertence às indústrias de tecnologia da informação e de desenvolvimento de software. Mas enquanto a HP e a Dell ficaram associadas à externalização, a proeza da Apple em apresentar produtos que capturam a imaginação popular impediu-a de ser manchada com a imagem de exportadora de trabalho.

A Apple e a externalização

A Apple ganhou mais de 400 000 dólares de lucro por empregado em 2011, mais do que a Goldman Sachs ou a Exxon. Contudo nestes últimos anos, criou poucos empregos na sua base no país, e seu mercado principal, os Estados Unidos. Segundo relata o Times “a Apple emprega 43 000 pessoas nos Estados Unidos e 20 000 no estrangeiro, uma pequena fração em relação aos mais de 400 000 funcionários americanos da General Motors nos anos 50, ou às centenas de milhar na General Electric nos anos 80. Muito mais gente trabalha para subcontratados da Apple: umas 700 000 pessoas mais criam, constroem e montam iPads, iPhones e outros produtos da Apple. Mas quase nenhuma delas trabalha nos Estados Unidos. Em vez disso, trabalham para companhias estrangeiras na Ásia, Europa e qualquer outro lugar, em fábricas em que quase todos os designers de eletrónica confiam para construir os seus artigos”.

A génese da crise financeira, de facto, não pode ser separada dos movimentos estratégicos dos atores “da verdadeira economia” como a Apple. A sua prontidão em deixar a sua base no país e o seu mercado doméstico foi uma das causas centrais da crise. A criação de crédito foi o elo central nesta tendência da economia verdadeira e da dinâmica da finança. Antes de examinarmos este elo, contudo, é importante rever alguns factos sobre a externalização.

Estima-se que 8 milhões de empregos na indústria nos Estados Unidos foram eliminados entre junho de 1979 e dezembro de 2009. Um relatório descreve o processo sombrio de desindustrialização: “muito antes do colapso bancário de 2008, indústrias tão importantes nos Estados Unidos como máquinas-ferramentas, eletrónica para o consumidor, peças auto, aparelhos, mobiliário, equipamento de telecomunicações e muitas outras que tinham antes dominado o mercado global sofreram o seu próprio colapso económico. O emprego na indústria caiu para 11.7 milhões em outubro de 2009, uma perda de 5,5 milhões ou 32% de todos os empregos na indústria desde outubro de 2000. A última vez em que menos de 12 milhões de pessoas trabalharam no setor industrial foi em 1941. Em outubro de 2009, mais pessoas estavam oficialmente desempregadas (15,7 milhões) do que a trabalhar na indústria”.

Externalização e estagnação na economia real

Esta dizimação do setor industrial, que implicou a eliminação de um número maciço de empregos bem-pagos na indústria, desempenhou um papel central na estagnação de rendimento, salários e de poder de compra nos Estados Unidos. Nas três décadas anteriores ao choque de 2008,Robert Reich observa que os salários do americano típico mal aumentaram e que de facto caíram nos anos de 2000.

Esta estagnação do rendimento colocou uma ameaça tanto às empresas como ao Estado. Para as primeiras, o crescimento lento da procura traduzir-se-ia em sobreprodução e, assim, em lucros diminuídos no mercado-chave das grandes empresas. Para o estado, colocou o espectro do conflito social crescente e da instabilidade.

A ameaça de um mercado estagnado foi impedida – temporariamente – pelo setor privado, através de um aumento maciço na criação de crédito, por bancos que baixaram os critérios dos empréstimos e aliciaram milhões de consumidores com múltiplos cartões de crédito, com muitos dos fundos originados na China e noutras economias asiáticas que exportam capital. O crédito manteve o consumo em alta e alimentou a explosão dos anos 90 e a metade da primeira década do século XXI.

Washington tentou repelir o ressentimento político adotando uma estratégia de “expansão de crédito populista”, isto é, tornando um crédito à habitação fácil disponível para grupos de rendimento baixo através do Freddie Mac e da Fannie Mae. A estabilidade política não foi o único resultado desta abordagem; fez-se acompanhar por maior rentabilidade do capital especulativo. Como escreve Raghuram Rajan, “À medida que mais dinheiro do governo corria para financiar ou apoiar habitação para pessoas de rendimentos baixos, o setor privado juntou-se à festa. No fim de tudo puderam fazer as contas e entenderam que as compulsões políticas por trás das ações do governo não desapareceriam rapidamente. Com apoio ministerial, as hipotecas subprime seriam realizáveis e a habitação de baixo custo subiria de preço. Baixo risco e alto retorno – o que o setor privado mais poderia desejar?”

A ligação Apple-China

A ccptação das massas através daexpansão de crédito colapsou com a implosão financeira de 2008. Hoje, milhões de americanos estão sem emprego e têm dívidas terríveis. Mas, como a taxa de desemprego continuadamente alta indica, a exportação de empregos continua sem diminuir e a China permanece o destino preferido.

Parte da razão porque a China do Sul mantém a sua primazia como local de investimento é que os fornecedores chineses, com subsídios do Estado, estabeleceram uma cadeia de fornecimento de fábricas contíguas imbatível, radicalmente baixando preços de transporte, permitindo a montagem rápida de um iPad ou iPhone e assim satisfazendo clientes num mercado altamente competitivo em tempo recorde.

Steve Jobs, o fundador lendário da Apple, desempenhou um papel-chave na criação deste sistema. Os executivos da Apple contam como queria um ecrã de vidro para o iPhone que não se riscasse e como o queria “em seis semanas”. Depois de um executivo sair daquela reunião, diz o Times, reservou um voo para a China. “Se o Sr. Jobs queria perfeição”, relembra, “não havia outro sítio para ir”.

O domínio da economia da cadeia de fornecimento é contudo uma só das razões porque Jobs e a Apple preferiram a China. A razão central continuou a ser o trabalho barato que é disciplinado pelo Estado. O que emerge no relato do Times sobre práticas da Apple é que, apesar das suas afirmações de que é uma firma socialmente responsável, a Apple negoceia duramente permitindo aos seus subcontratados “o mais magro dos lucros apenas.” Assim, “os fornecedores muitas vezes tentam cortar a direito, substituir produtos químicos caros por alternativas menos dispendiosas, ou pressionar os empregados para trabalharem mais rápido e mais tempo. “O única forma de fazer dinheiro a trabalhar para a Apple é compreender como fazer as coisas mais eficientemente ou mais barato”, disse um executivo de uma companhia que ajudou a colocar o iPad no mercado. “E vão voltar no próximo ano e forçar um corte de 10% no preço...” Não é de admirar que desde então uma quantidade de fornecedores da Apple tivesse sido atingida por uma praga de acidentes, inclusive explosões, como um antigo executivo da Apple disse: “Se espremer as margens, está a forçá-los a cortar na segurança”.

As consequências da redução de custos severa não foram só acidentes mas também os protestos dos trabalhadores. Alguns deles tomaram a via trágica do suicídio, como aqueles que ocorreram em 2009 e 2010 na Foxconn, uma destacada e gigantesca empresa subcontratada, enquanto outros recorreram a ações reivindicativas espontâneas que foram suprimidas à força pela administração e pelo estado.

Os produtos da Apple são o topo da linha que se distingue por design, engenharia e personalidade ou "alma" superiores. Mas a marcha da companhia em direção à supremacia de mercado foi realizada a um preço tremendo tanto para trabalhadores americanos como chineses. O iPad e o iPhone são obras-primas de engenharia. Mas essas mercadorias não são simplesmente materiais. Também encarnam as relações sociais de produção. São a expressão do casamento entre um empreendimento exigente que se tornou a grande empresa de ponta do nosso tempo e o que Slavoj Zizek chamou o “estado capitalista ideal” de hoje, a China, com a liberdade que oferece ao capital juntamente com a capacidade sem paralelo de disciplinar o trabalho. Não se pode senão concordar com Jared Bernstein, antigo conselheiro económico da Casa Branca, quando disse ao Times “Se [o sistema da Apple] for o pináculo do capitalismo, devemos preocupar-nos”.

Walden Bello é colunista do Foreign Policy In FocusForeign Policy In Focus, é analista sénior do instituto Focus on the Global South baseado em Banguecoque e representante do Akbayan (o Partido de Ação dos Cidadãos) na Câmara dos Representantes das Filipinas.

http://www.commondreams.org/view/2012/02/03-0

Publicado em 3 de fevereiro de 2012 porForeign Policy in FocusForeign Policy in Focus

Tradução de Paula Sequeiros para o Esquerda.net

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Sobre o/a autor(a)

Professor de Sociologia e administração na Universidade das Filipinas. Diretor fundador e atual copresidente do Conselho de Administração da Focus on the Global South, colunista de Foreign Policy in Focus
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