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António Torrado (1939-2021): Morreu uma voz pela Liberdade

Escritor (poeta, ficcionista, autor de manuais escolares, dramaturgo), pedagogo, jornalista, editor, produtor e argumentista para a televisão. António Torrado tem um papel fundamental na construção da memória das gerações mais novas sobre o que foi a ditadura e a resistência antifascista.
Foto publicada na página de Facebook de João Carlos Callixto.

Um contador de histórias por excelência que viu muitos dos seus livros publicados em várias línguas. António José Freire Torrado destaca-se como um dos autores mais importantes na literatura infantil portuguesa. Utilizando com frequência o humor em algumas das suas histórias, privilegia a imaginação, a criatividade.

“A comunicabilidade do escritor para crianças, a comunicabilidade sem demagogias, deve partir de uma transparência de escrita como se as palavras não estivessem lá. É uma escrita em voz alta”, defendia António Torrado em 1984.

“É fácil descobrir histórias nas coisas comuns e nos factos triviais do dia-a-dia. Atenção, sensibilidade e imaginação são os elementos que constituem a chave da criação para o contador de histórias”, escrevia, por sua vez, em 2003.

A igualdade, liberdade, fraternidade, a luta contra a tirania e a repressão, o direito à auto-determinação, o respeito pela diferença, a liberdade de expressão, a ideia de que “o povo unido jamais será vencido” povoam os contos de António Torrado. Bem como a sua preocupação pelos direitos dos animais. São estes os valores que o autor transmite às crianças, que se querem livres-pensadoras. António Torrado, a par de outros escritores de referência, tem um papel muito importante na construção da memória das gerações mais novas sobre o que foi a ditadura e a resistência antifascista.

Em Vassourinha entre Abril e Maio, obra publicada em 25 de Abril de 2001 e que conta com ilustrações de João Abel Manta, António Torrado estrutura a narrativa a partir de uma metáfora, e divide a ação em dois momentos: o tempo da ditadura, em que a Vassoura (personagem principal) é oprimida pela Dona Senhora; e o momento da libertação, o período da Revolução:

até um dia / até um dia, alvorada, / de um dia de sol ardente, /até um dia largar / por essas ruas de gente”

Nascido em 21 de novembro de 1939 em Lisboa, mas com raízes familiares na Beira Baixa, António Torrado era licenciado em Filosofia pela Universidade de Coimbra e começou a publicar contos para a infância aos 18 anos. Na década de 60 dedicou-se ao ensino, até ser afastado por motivos políticos.

Liderou o Departamento de Programas Infantis da RTP, foi coordenador do Curso Anual de Expressão Poética e Narrativa no Centro de Arte Infantil da Fundação Calouste Gulbenkian, professor responsável pela disciplina de Escrita Dramatúrgica na Escola Superior de Teatro e Cinema e dramaturgo residente na Companhia de Teatro Comuna em Lisboa.

Deixa uma obra bastante extensa e diversificada, que integra textos de raiz popular e tradicional, mas também teatro, poesia e sobretudo contos.

Há dez anos atrás, explicou, em entrevista ao Público, que o conto curto é a sua forma ideal de expressão. "É o meu modelo de escrita: insinuar mais do que dizer; sugerir mais do que declarar."

Em 1980, foi contemplado com o Prémio Calouste Gulbenkian de livros para crianças, em 1984, com o Prémio de Teatro Infantil da Secretaria de Estado da Cultura, e, em 1988, com o Grande Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura para Crianças. Livros seus foram, em 1974 e 1996, incluídos na Lista de Honra do IBBY - Internacional Board on Books for Young People.

O Esquerda.net endereça à família e amigos/as de António Torrado sentidas condolências.

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