Antonino Solmer (1950-2024): Despedida do "mestre de uma geração de atores” é esta quinta e sexta

10 de janeiro 2024 - 19:39

Corpo do ator, encenador, escritor e professor estará, no dia 11, quinta-feira, entre as 16h e as 23h, e no dia 12, sexta-feira, entre as 10h e as 12h, em urna fechada, na Sala Ecuménica do Cemitério de Carnide. A família comunicou que, em cumprimento da sua vontade, não haverá funeral.

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Foto (recortada) partilhada pela família de Antonino Solmer nas redes sociais.

Antonino Proença Marques, conhecido como Antonino Solmer, morreu na noite de 4 de janeiro, aos 73 anos.

No passado sábado, a família comunicou que, “organizado e generoso como só quem o conheceu saberá”, Antonino Solmer “deixou há muito tratado e determinado que, na eventualidade da sua morte, o seu corpo seria doado à ciência, destinado à aprendizagem e formação de novos médicos”.

O Teatro São Luiz lamentou a morte do ator, encenador e professor, lembrando a “suavidade e gentileza com que tratava todos à sua volta” e referindo que Antonino Solmer foi o “mestre de uma geração de atores portugueses, que começaram no teatro pela sua mão”.

É exatamente ao mestre, que a ajudou e incentivou a construir, que Maria Rueff deixou o seu “mais sentido aplauso”

São, aliás, inúmeras as homenagens que circulam nas redes sociais a lembrar o “homem do sorriso doce e gentil”, como refere Luísa Ortigoso. “Ensinou tantos. Passou como quem passa sem querer incomodar, mas incomodando os pensamentos, os espíritos…”, escreve a atriz.

Nas mensagens partilhadas, adivinha-se o óbvio: o mundo do teatro, o mundo da cultura em geral, ficou mais pobre e descolorido.

“Escrevo poesia ou ‘coisa parecida’ desde que me conheço”

Na sua curta autobiografia, publicada na página da Wook a acompanhar as suas obras, Antonino Solmer destapa um pouco o véu de uma vida preenchida, de entrega plena à fruição e criação cultural:

“Tendo trabalhado anteriormente em diversos ofícios, fui formado pela Escola Superior de Teatro e Cinema, e ainda pós-formado em vários teatros e escolas da Polónia. Fui ator na RDP e na RTP. Fui ator e encenador desde os 16 anos nos mais diversos grupos e companhias de teatro, quase sempre também desempenhando funções nas suas Direções. Dizem-se para falar no Trindade e Teatro Nacional, em Lisboa. Mas então devo falar de Lisboa, onde também fui membro diretivo da Companhia Rafael de Oliveira, de OS Cómicos, da Caixa Económica Operária – a mais antiga cooperativa do Paris, e da ContraRegra – Centro de Atividades Culturais. Fui professor de teatro durante mais de 20 anos e ainda hoje dou uma aula por ano em duas Escolas Particulares. Em 2000 optei definitivamente pela investigação e escrita. Escrevo poesia ou "coisa parecida" desde que me conheço, afinal a minha primeira maneira de representar, encenar, construir.
Nasci em 1950”.

Antonino Solmer estreou-se como ator amador na Promotora Estúdio Teatro. Frequentou cursos de iniciação ao teatro na Cooperativa Palco, estreando-se, profissionalmente, em 1969, no elenco de uma encenação de O Lugre, de Bernardo Santareno, pela Companhia de Teatro Popular. Nesse mesmo ano teve uma experiência como ‘boy’ na revista “Peço a Palavra”, do Teatro de Variedades.

Ainda antes do 25 de Abril de 1974, fez quatro peças no Teatro d' Arte de Lisboa, todas com encenação de Orlando Vitorino, e que estiveram em digressão pelos Açores e Madeira: “A Curva”, de Tankred Dorst, “A Decifração do Sonho”, de E. Sanguinetti, “Amantes Triunfantes”, de Brian Friel, e “O Carrasco, o Enforcado e a Forca”, de Jack Richardson. Antes de ser mobilizado para Angola, dedicou-se também a peças infantis, para o empresário Vasco Morgado e para a Casa da Comédia, e contou com os trabalhos “A Vida do Grande D. Quixote de La Mancha e do Gordo Sancho Pança”, de António José da Silva, e o Judeu (enc. Herlânder Peyroteo), no Palácio Galveias. Na então colónia portuguesa, trabalhou com grupos amadores. Nessa altura, dirigiu, nomeadamente, uma montagem de “O Destino Morreu de Repente”, de Alves Redol.

De volta a Lisboa, ingressa na Companhia Rafael de Oliveira, da qual foi diretor, passando, em 1976, para a companhia Os Cómicos, que também dirigiu. Nesta última encenou, com o título Memória Com Objectos, uma versão para palco do romance Retrato de Um Amigo Enquanto Falo, da escritora Eduarda Dionísio (1946-2023). Ambos vieram a fundar o Contra-Regra Centro de Actividades Culturais e de Produção de Espectáculos, e co-escreveram a comédia Dou-Che-Lo Vivo, Dou-Che-Lo Morto, a partir de textos clássicos em língua portuguesa. O espetáculo estreou-se em 1981, numa produção do Teatro da Cornucópia.

Antonino Solmer foi ainda diretor do Teatro da Trindade e integrou, entre 1998 e 2000, a direção do Teatro Nacional de D. Maria II.

O São Luiz refere que, na sua história, está a interpretação de Antonino Solmer em "Jesus Cristo em Lisboa – Tragicomédia em sete quadros", peça de Alexandre O'Neill e Mendes de Carvalho, a partir da obra conjunta de Raúl Brandão e Teixeira de Pascoaes, estreada pela Companhia Nacional I – Teatro Popular, em junho de 1978. Com encenação de Carlos Wallenstein e Norberto Barroca, Antonino Solmer partilhou o palco com Fernanda Lapa, Glícínia Quartin, Lourdes Norberto, António Feio, Canto e Castro, Manuela Cassola, entre vários outros.

Como encenador, dirigiu textos dos principais autores da História do Teatro, das tragédias gregas à expressão contemporânea, incluindo dramaturgos como Federico García Lorca, August Strindberg e Henrik Ibsen, muitos deles com alunos da ESTC.

Antonino Solmer frequentou o curso de Atores-Encenadores na Escola Superior de Teatro do Conservatório. Tendo ganho uma bolsa da Secretaria de Estado da Cultura para um estágio na Polónia, teve oportunidade de estagiar, em 1978, com o influente encenador, dramaturgo e teórico teatral Józef Szajna, sobrevivente de Auschwitz e Buchenwald.

Antonino Solmer dedicou-se também ao cinema e televisão. No cinema, destacam-se os trabalhos com João Mário Grilo (O Processo do Rei) e Fernando Matos Silva (Ao Sul). Na televisão trabalhou com António Escudeiro (Beckford, Camilo Pessanha - Eu vi a luz em um país perdido), Ferrão Katzenstein (Tragédia da Rua das Flores, A Morgadinha dos Canaviais), Jaime Campos (Contos Mágicos, Um jeep em segunda mão, etc.). Integrou o elenco da série Duarte & Ca (Rogério Ceitil) e da telenovela Terra Mãe (NBP), para a RTP.

Antonino Solmer foi responsável pela montagem do primeiro texto de Arthur Schnitzler em Portugal, com a encenação de Dança de Roda, para a companhia Contra-Regra, em 1983. Dirigiu ainda espetáculos de músicos como Sérgio Godinho e Emilio Cao.

As edições Afrontamento escrevem que Antonino Solmer teve uma “permanente atividade literária na construção, adaptação, reescrita e dramaturgia dos textos dos espetáculos que trabalhou”.

Foi professor de teatro durante mais de 20 anos, nomeadamente na Escola Superior de Teatro e Cinema, e tem reflexão teatral escrita dispersa por diversos periódicos portugueses e revistas especializadas.

Da sua bibliografia constam obras como Manual de Teatro, que nasceu de uma vontade e de um repto lançado por Antonino Solmer a um grupo de profissionais, alguns dos quais haviam sido seus alunos, cuja 1ª edição data de 1999 e a última de 2022, A Casa Constante, de 2010, Opusdez, um guião da "cristandade misteriosa", lançado em 2021, e Smss, também de 2021.