A Amnistia Internacional divulgou, esta segunda-feira, um extenso relatório - Taking Stock: The Arming of Islamic State – no qual documenta o arsenal de armas e munições do Estado Islâmico (EI) ou Daesh proveniente de pelo menos 25 países, entre os quais Estados Unidos da América, Rússia, China e Bélgica, na sua maioria, saqueado ao exército iraquiano durante as guerras.
A organização visualizou “milhares de vídeos e imagens” onde o Daesh expõe a sua capacidade bélica: veículos, armas e munições suficientes para abastecer o equivalente a três divisões iraquianas convencionais, no total de 40 a 50 mil militares, por dois anos.
Segundo indica o relatório da Amnistia Internacional, o Daesh conseguiu aproveitar-se da inabilidade da administração dos EUA, no Iraque, e dos sucessivos governos de Bagdade, que também não conseguiriam garantir a segurança dos armamentos e, assim, apoderaram-se do armazenamento de material bélico que a comunidade internacional forneceu às forças iraquianas.
A Amnistia Internacional não poupa críticas e aponta o dedo aos responsáveis: “Os EUA não atuaram com determinação para evitar os abusos contra os Direitos Humanos, para controlar os arsenais e desarmar os soldados iraquianos ao dissolver as forças armadas e, assim, evitar que os excedentes e as importações de armas chegassem às mãos de milícias que funcionavam como esquadrões da morte”, diz o relatório. E tudo se agravou porque “não se investigou, não se supervisionou, não se deu formação, nem foram exigidas responsabilidades de forma adequada às diversas forças de segurança iraquianas”, respeitando-se o Direito Internacional e Humanitário, acrescenta a organização.
Na origem do problema está a guerra entre o Irão e o Iraque, durante a qual 34 países forneceram armas ao regime de Bagdade, avança a Amnistia.
A composição do arsenal militar do Daesh tem suas raízes “numa longa história” que conta as estratégias de armamento do exército iraquiano. Na origem do problema está a guerra entre o Irão e o Iraque, durante a qual 34 países forneceram armas ao regime de Bagdade, avança a Amnistia.
“Nas décadas de 1970 e 1980, pelo menos 34 países, encabeçados pela Rússia, França e China, transferiram irresponsavelmente equipamento militar para o Iraque, no valor de milhares de milhões de dólares. E isto aconteceu num momento de extrema instabilidade, quando o Iraque estava em guerra com Irão e as forças armadas iraquianas cometiam numerosas violações do Direito Internacional Humanitário e dos Direitos Humanos”, lê-se no relatório.
Desde 2003 até 2007, os EUA e outros países-aliados transferiram mais de um milhão de armas de vários tipos e milhões de munições às forças armadas iraquianas, “apesar de se tratar de um exército mau estruturado, corrupto e indisciplinado”. Segundo a Amnistia Internacional, milhares destas armas desapareceram e ainda não se sabe delas. Portanto, em 2003, com a ocupação norte-americana, durante a operação “Shock and Awe”, a história repete-se e os radicais islâmicos aproveitaram a oportunidade e a má gestão externa da guerra e da política na região.
A Amnistia estima que existam cerca de 650 mil toneladas de munições, no Iraque. Grande parte do material bélico foi capturado em 2014, durante a conquista das cidades de Mossul, Kirkuk e Diyala, no Iraque. Para trás, as forças iraquianas deixaram um arsenal considerável de espingardas de assalto variantes da russa AK, M16 norte-americanas, G3 alemãs, FN Herstal FAL belgas, CQ chinesas, entre muitas outras.
Além disto, o Daesh conseguiu mísseis antitanque MILAN europeus, Kornet, e Metis russos, e mísseis terra-ar portáteis chineses MANPADS FN-6. Nas mãos do Daesh estão, ainda, centenas de veículos de combate blindados, incluindo dezenas de tanques, como os russos M1A1M Abrams, e veículos de transporte, além de peças de artilharia.
Uma vez que parece impossível garantir a segurança do armamento bélico que se exporta para as zonas do Iraque e Levante, a Amnistia Internacional defende que os países negociadores de armas devem adoptar uma regra de “presunção de negação”, ou seja, “na dúvida, não se vende.”