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Ambientalistas denunciam influência política de combustíveis fósseis

O estudo "Casas frias, lucros quentes" pretende mostrar “como os poluidores convencem políticos a meter os lucros à frente das pessoas”. A coligação ambientalista Fossil Free Politcs tem uma petição para correr com os lóbis desta indústria dos corredores da política.

A coligação de grupos ambientalistas Fossil Free Politics, integrada entre outros pelo Corporate Europe Observatory, Food and Water Action Europe, Friends of the Earth Europe, Global Witness e Greenpeace, lançou um estudo intitulado "Casas frias, lucros quentes: como os poluidores convencem políticos a meter os lucros à frente das pessoas", no qual analisa a influência das empresas de combustíveis fósseis sobre a política europeia.

Na semana passada, tinha feito uma “visita guiada” a vários dos lóbis e empresas deste tipo instalados em Bruxelas, para ilustrar como atuaram para enfraquecer impostos sobre lucros extraordinários e medidas de proteção ambiental e potenciar projetos na área dos combustíveis fósseis numa altura em que os lucros das cinco maiores petrolíferas mais do que duplicaram, atingindo os 200 mil milhões de dólares em 2022. Corre ao mesmo tempo uma petição para correr com a indústria fóssil da política, que tem mais de 104.000 assinaturas individuais e subscrições de mais 100 associações e sindicatos.

De acordo com a Fossil Free Politics, “as empresas de combustíveis fósseis e os grupos de pressão têm feito todos os esforços para influenciar as respostas dos governos à crise energética, sabotando políticas que poderiam ajudar milhões de pessoas que lutam para pagar as suas contas” e prolongar a vida do seu modelo de negócio que destrói o clima – enquanto as pessoas e o planeta pagam o máximo preço”.

Cinco casos e 200 reuniões

O documento traz cinco “estudos de casos” para mostrar como os interesses dos combustíveis fósseis "estão a convencer políticos em vários pontos da Europa a ouvir os poluidores em vez das pessoas". Ao nível da União Europeia, salienta-se como o IOGP, sigla em inglês para Associação Internacional de Produtores de Petróleo e Gás, fez lóbi junto da Comissão Europeia para a existência de mais projetos de gás que mantêm a Europa “viciada em combustíveis fósseis” e as contas do gás altas.

Na Itália, onde “o governo nomeou um lóbista dos combustíveis fósseis como conselheiro”, a ENI, empresa de petróleo e gás, “usou a crise para conseguir mais explorações e novos terminais de Gás Natural Liquefeito” e para escapar ao imposto de 25% sobre lucros excessivos. E não foi a única. O ativista da Recommon, Alessandro Runci, explica que “a lei foi tão mal redigida que todas as empresas de energia recorreram ao tribunal para a contestar. Da estimativa inicial de 11 mil milhões de euros a arrecadar em impostos, apenas 2,8 mil milhões foram recolhidos”.

Na República Checa, a EPH usou “ameaças públicas”, um “poderoso império na comunicação social” e “as ligações ao partido do governo” para atrasar e enfraquecer o imposto sobre lucros excessivos. Uma das ameaças referidas foi a de que iria mudar uma das suas sociedades para o estrangeiro e que fez com que a lei fosse mudada. Radek Kubala, da ReSet, informa que o adiamento da implementação do imposto sobre lucros extraordinários de 2022 para 2023 fez com que “a maior parte dos seus lucros” acabasse por não ser tributada.

No Reino Unido, foi o grupo de lóbi, Offshore Energies UK, que “usou o seu acesso privilegiado” aos corredores parlamentares e “grupos especiais de aconselhamento” para “assegurar que o imposto sobre lucros excessivos estivesse cheio de alçapões fatais e pudesse ser cortado”.

Em Espanha, empresas como a Endesa, Naturgy e a Iberdrola usaram “uma rede complexa de manobras políticas, legais e de relações públicas, incluindo uma porta giratória para juristas estatais de topo, para combater medidas que limitassem lucros e para fazer com que fossem as famílias vulneráveis a carregar com o fardo financeiro em vez delas”.

Os ambientalistas analisaram os registos de reuniões da União Europeia e revelam que, no período de um ano a seguir à invasão da Ucrânia pela Rússia, existiram mais de 200 reuniões entre funcionários da União Europeia e lóbistas dos combustíveis, o que é perto de uma por dia útil.

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