Os meios de comunicação social têm dado destaque a algumas posições da Alemanha, no âmbito da ajuda financeira à Grécia e do plano de defesa do euro. Assim, noticia-se que a Alemanha só a muito custo e contrariada é que aceitou participar no plano de apoio à Grécia; que a Alemanha confronta os países que excedam o défice permitido com a hipótese da saída forçada da zona euro; que a Alemanha pondera suspender a participação nos fundos europeus aos países que excederem os défices permitidos; que a Alemanha pretende que os países da zona euro inscrevam nas suas Constituições, como ela própria faz, o limite máximo do défice permitido.
Em conclusão, todas estas notícias parecem querer reforçar a ideia, de certa forma corrente, de que a União Europeia é como que um peso para a Alemanha, até mesmo um sacrifício que a Alemanha suporta e que não quer continuar a suportar, pelo menos da forma que o fez até agora.
Porém, essa é uma imagem distorcida da realidade. Como qualquer outro Estado, a Alemanha não actua contra os seus próprios interesses e só faz aquilo que serve os seus interesses. O presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, deu recentemente uma entrevista ao diário alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung e o antigo vice-chanceler e ministro dos negócios estrangeiros alemão do governo de Gerhard Schröder, Joschka Fischer, concedeu outra à secção internacional da revista Der Spiegel, nas quais estas questões foram abordadas. Valerá a pena referir algumas passagens de ambas.
a) Na entrevista concedida ao diário Frankfurter Allgemeine Zeitung, à afirmação dos seus entrevistadores, de que muitos alemães, embora na sua maioria apoiem o euro, estavam indignados por terem que pagar as contas dos outros, respondeu Durão Barroso:
Durão Barroso: Temos que dizer com muito mais clareza às pessoas aquilo que o euro lhes trouxe. Vejam por exemplo o saldo comercial positivo alemão de 134 mil milhões de euros. Saberá realmente a opinião pública alemã, que quase 86% destes 134 mil milhões, ou seja, 115 mil milhões são provenientes do comércio na União Europeia? Dizem os políticos alemães à opinião pública que as exportações alemãs para os outros países da União Europeia cresceram contínuamente? Entre 1995 e 2008 este crescimento importou em 7,4% por ano. Nas exportações alemãs para o Japão foi de apenas 2%. A Alemanha foi até agora um grande ganhador com o euro. Penso que mais políticos na Alemanha o deviam dizer claramente.
F.A.Z: Portanto, na Alemanha faltou apenas o trabalho com a opinião pública?
Durão Barroso: Esta crise é precisamente uma oportunidade para nos referirmos a estes contextos. Por isso, é bom que o ministro das finanças Schäuble se tenha nos últimos tempos expressado de forma tão clara neste sentido. Mas continua a ser verdade que nos anos passados não existiram suficientes vozes fortes na política alemã, que tivessem esclarecido a opinião pública, até que ponto era importante para a Alemanha ter o euro – em nenhum dos partidos importantes.
F.A.Z.: O interesse que houve na Alemanha nos últimos anos foi antes pela contribuição líquida.
Durão Barroso: A Alemanha realiza a maior contribuição para o orçamento da União Europeia. Eu não deixo passar nenhuma oportunidade de agradecer ao vosso país por esse facto. Mas os políticos também têm que dizer que a economia alemã estaria muito pior sem o euro. Os alemães esquecem por vezes que o euro não foi criado apenas por razões políticas. Em especial, devia ser evitada a concorrência por desvalorização da moeda e os ataques especulativos, que, num mercado comum interno com muitas divisas, fariam difícil a vida às empresas. Isto vale sobretudo para as pequenas e médias empresas.
F.A.Z.: Já se tratava também da questão, como é que se acomodaria a Alemanha reunificada na Europa.
Durão Barroso: Sim, mas não é verdade que o euro tenha sido o preço político da reunificação. Havia boas razões económicas para ele, ainda que, também para além disto, seja um projecto político visionário de unificação. De resto, o euro não foi nenhuma invenção da Grécia, Irlanda ou Espanha. Foi um projecto alemão-francês.
b) Na entrevista concedida por Joschka Fischka ao Der Spiegel podem ler-se as seguintes passagens:
Joschka Fischer: Agora que temos a garantia de 750 mil milhões de euros a união monetária transformou-se numa comunidade de solidariedade. É isso que tem que ser agora implementado, o que significa substancialmente mais, e não menos, integração.
Spiegel: Uma comunidade de solidariedade significa que a Alemanha tem que pagar pelos falhanços dos outros.
Joschka Fischer: Isso não tem sentido! A União Europeia já era uma união de transferências de fundos, logo desde o seu início. O mercado comum e o mercado agrícola eram e ainda são em primeira linha garantias de transferências para a Alemanha e para a França! E a Alemanha foi, de longe, quem mais beneficiou. Sem o euro, muitos países teriam desvalorizado as suas moedas. Nós, como nação exportadora que depende essencialmente da Europa, teríamos pago o preço, porque os nossos produtos se teriam tornado mais caros. Agora temos que compensar isto um pouco. Não há alternativa.
E mais à frente acrescenta Joschka Fischer: Tem que se explicar à população de que é que se trata na Europa .(...) Ninguém explica porque é que o euro é importante para a Alemanha e o que significaria o seu falhanço. E ninguém explica porque é que a Alemanha pagou sempre – porque acontece que é o grande ganhador na Europa.
Se se pretender resumir em duas palavras aquilo que se lê nas entrevistas de Durão Barroso e de Joschka Fischer, pode-se dizer que a União Europeia é um negócio da Alemanha, pago pela Alemanha e pensado para dar lucro à Alemanha. Os países da União Europeia são meros parceiros de negócios, que, como em qualquer negócio, são dispensados pela parte mais forte quando deixam de ter interesse – diga-se de outra forma, quando deixam, como é aqui o caso, de poder assegurar ao vendedor-exportador o pagamento das suas encomendas. Na verdade, a Alemanha não “ajuda” a Grécia, assim como não “ajudaria” a Espanha ou Portugal. A Alemanha “ajuda-se” a si mesma, suprindo, até ao montante de que lhe convém dispôr, as deficiências de solvência nos mercados que lhe interessa manter: ou como clientes das suas exportações, ou para proteger os créditos já concedidos pela sua própria indústria financeira.
Quando hoje em dia se considera a actuação da Alemanha, é necessário ter em atenção que existem, pelo menos, 4 Alemanhas. A Alemanha dos Estados federados, regionalista, com os seus sistemas políticos próprios, voltada para os interesses concretos das populações, com muitas diferenças linguísticas e culturais, é que é a base da produção económica.
Abrangendo esta, mas num círculo mais alargado, a Alemanha federal, já de carácter essencialmente político-administrativo, dirigida pelo parlamento e pelo governo federal em Berlim, chefiada por um chanceler, actualmente Angela Merkel, cujas políticas ultrapassam o âmbito local dos Estados federados, consideram apenas o país na sua totalidade e adquirem a dimensão internacional.
Abrangendo esta e num círculo ainda mais alargado, a Alemanha da União Europeia, o seu maior financiador, o principal responsável pelo alargamento e pela moeda única e que se posiciona hoje em dia como o seu líder efectivo, com a colaboração da França.
E abrangendo esta, no círculo mais alargado de todos, a Alemanha enquanto parceiro económico e político indissociável dos Estados Unidos da América no seu projecto de expansão de influência em direcção ao Leste da Europa e à Ásia, e, ao mesmo tempo, através da responsabilidade pela coesão interna e pelo alargamento da União Europeia, o sustentáculo mais firme da ideologia e da hegemonia norte-americana em solo europeu.
É de uma actividade constante e ininterrupta de coordenação e hierarquização de todos estes objectivos, cada um deles já em si extremamente complexo, que resulta hoje em dia a actuação política alemã. E é dentro desta actuação, orientada exclusivamente por critérios racionalizados ao extremo, que se determinada a política a seguir na União Europeia: seja a Grécia, seja Portugal, seja a Espanha, seja o euro, enfim, seja quem for.
Artigo de João Alexandrino Fernandes.
Fontes: a) ”Im Gespräch: José Manuel Barroso”, Frankfurter Allgemeine Zeitung, edição online de 25.05.2010, www.faz.net, entrevista realizada por Nikolas Busse, Klaus-Dieter Frankenberger und Werner Mussler, b) “Interview With Former Foreign Minister”, Der Spiegel, edição online de 24.05.2010.