Há poucos dias, o Presidente Lula declarou, referindo-se ao acordo Mercosul/União Europeia, que “estamos cedendo mais do que os europeus” para poder assinar o acordo ainda neste ano de 2025. E fez um apelo ao presidente da França, Emmanuel Macron, e à primeira-ministra da Itália, Giorgia Melloni, para que desistam das suas objeções e permitam essa assinatura.
O que está acontecendo? Esse acordo não havia sido dado por concluído há poucos meses? Tentaremos explicar. Antes, porém, cabe situar brevemente a questão do acordo no contexto mais amplo da economia mundial e da política de comércio exterior do Brasil.
É voz corrente entre analistas internacionais que atravessamos um tempo de transição em escala global. Estamos em um período especialmente incerto, inseguro e instável. Se normalmente países não agem de maneira isolada, desconsiderando as circunstâncias que os envolvem, durante movimentos tectónicos é que avaliam os seus passos de maneira especialmente calculada. Não embarcam em qualquer canoa.
Comércio
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Pois bem, caro leitor ou leitora, no nosso último texto[1] expressamos perplexidade com o modo como o governo brasileiro reagia à dinâmica em torno de um dos temas mais definidores da atualidade: o comércio internacional. O Brasil, severamente desindustrializado, regredindo em marcha forçada à condição de país primário-exportador, volta a adotar o evangelho do livre comércio – justamente na hora em que economias centrais e países emergentes relevantes reduzem o grau de exposição externa das suas economias, adotam medidas de proteção contra a concorrência estrangeira e elevam o seu nível de autonomia produtiva e tecnológica.
Enquanto isso, o governo Lula dobra a aposta no livre comércio como estratégia de desenvolvimento – em espantosa linha de continuidade com os governos Temer e Bolsonaro. Nesse sentido, o acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia é emblemático e sintomático. Simboliza a estratégia de inserção comercial do governo Lula e revela o pendor liberalizante de sua política económica externa.
Com um agravante: o que era ruim ficou ainda pior.
Apelidado de acordo “carros por vacas”[2], as suas regras de acesso a mercado de bens agropecuários são aquelas negociadas por Paulo Guedes – as quais pouco alteram nossa participação no mercado europeu. Boa parte dos itens mais importantes para os produtores brasileiros continuarão limitados por cotas – a exemplo de carne bovina, frango e etanol –, enquanto os produtos mais básicos, como soja, café verde e minério de ferro, já gozavam de tarifa zero antes do acordo. Para se ter uma ideia, as cotas são tão rigorosas que representam apenas 1% do consumo europeu[3]. Mas essa vitória flagrante não foi suficiente para os europeus. Eles insistem em 7 x 1 para contornar as resistências ao acordo no interior do bloco.
Eis o facto novo: o Parlamento Europeu aprovou instar a Comissão Europeia para que inserisse uma regra de salvaguarda prevendo que, em caso de aumento de importações em míseros 5%, a União Europeia possa deflagrar investigação expedita, com duração de apenas três meses, para suspender as condições preferenciais de acesso ao mercado europeu ou obrigar os países do Mercosul a adotar os padrões europeus de produção dos bens investigados[4].
Surpreendentemente, países como França, Itália e Polónia ainda não estão satisfeitos. Querem mais rigidez. Do lado brasileiro, porém, o Ministro da Agricultura esclareceu que topa perder de goleada, porque “não adianta a gente ficar procurando o acordo perfeito”[5]. Note, caro leitor, que o que nos surpreendeu foi a postura do lado vencedor. A prostração do lado perdedor já estava no script.
O pior é que esse acordo Mercosul/União Europeia faz parte de uma série de acordos de comércio que o Brasil está negociando – como aqueles com o Canadá e Coreia do Sul – ou já fechou – a exemplo dos acordos com Singapura e EFTA (Associação Europeia de Livre Comércio).
Economia
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A confirmarem-se o acordo Mercosul/União Europeia e esses outros acordos do mesmo naipe, cujas negociações remontam – pasmem – ao governo Bolsonaro, estaremos mais próximos de uma neocolonização que de uma neoindustrialização. Obviamente, essa escolha não é adequada nem sustentável, em especial à luz do que está acontecendo no mundo. A recém-anunciada estratégia de segurança nacional dos EUA não deixa margem para dúvida sobre o que entendem por reindustrialização – calcada na administração estratégica do seu comércio e autonomia produtiva e tecnológica em setores críticos.
Ao invés de buscarmos acordos antiquados, que nos obrigam a uma liberalização inconveniente, deveríamos promover uma verdadeira travagem brusca na nossa estratégia de inserção económica externa. Como pode o líder de um governo que se quer desenvolvimentista, à frente de um país melancolicamente desindustrializado, sair mundo afora proclamando o livre comércio quando os países onde esse liberalismo teve origem estão noutra faixa de onda?
Atribui-se a Keynes a observação de que quando os factos mudavam, ele também mudava de ideia. Pois bem, os factos mudaram profundamente. O Presidente Lula mudará de ideia ou está definitivamente apegado a estratégias e políticas ultrapassadas?
Paulo Nogueira Batista Jr. é economista. Foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai, de 2015 a 2017, e diretor executivo no FMI pelo Brasil e mais dez países em Washington, de 2007 a 2015. Manoel Casado é mestre em Desenvolvimento. Dedica-se à análise das relações económicas internacionais do Brasil, com foco em comércio exterior.
Artigo publicado em Outras Palavras, adaptado para português-PT pelo Esquerda.net
Referências:
1 - Paulo Nogueira Batista Jr. e Manoel Casado, “Para que a soberania não seja slogan vazio”, 5 de setembro de 2025: https://outraspalavras.net/crise-brasileira/para-que-soberania-nao-seja…
2 - “O acordo tem tudo o que precisamos,” observou recentemente o comissário de comércio da União Europeia, argumentando que “ele irá abrir mercados para os carros e maquinário da UE e prometer acesso a minerais críticos não processados, para reduzir a dependência em relação à China. Segundo o Financial times, o agordo foi apelidado “carros por vacas”. “A UE deseja exportar bens industriais e o Mercosul, sua carne, soja e cereais”, acrescenta a reportagem. Acessível em: https://www.ft.com/content/fcaf1ab6-69c8-4aa9-a104-c4f918f7747d?shareTy…
3https://exame.com/agro/acordo-ue-mercosul-tem-falsa-batalha-do-agro-diz…
4 - https://www.europarl.europa.eu/news/nl/press-room/20251208IPR32082/merc…
5 - https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2025/12/itamaraty-ve-sinal-positi…