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94% do país em situação de seca meteorológica

Os especialistas falam numa situação preocupante, os agricultores pedem apoios e os ambientalistas contestam o modelo de produção intensiva que gasta mais água e é mais poluente.
Seca.

Janeiro tem sido pouco chuvoso, o que está a causar uma situação de seca meteorológica que atinge já 94% do país. A seca está a ser mais intensa no Alentejo e Algarve mas, declarou Jorge Miranda, o presidente do Instituto Português do Mar e da Atmosfera à RTP, prevê-se que o Norte venha a ser o mais afetado. O especialista diz que “o quadro é muito preocupante para a agricultura” e a “médio prazo” também para o abastecimento de água. Os próximos meses poderão vir a colmatar a situação, porém o aumento das temperaturas em dezembro ajuda a compor este cenário.

À Lusa, Vanda Cabrinha, técnica do mesmo organismo, acrescenta que entre 24 e 26 de janeiro deverá chover, mas não o suficiente para inverter a situação de seca. Classifica a situação como “anormal para esta altura”, referindo que, apesar desta seca não estar ao nível do que tivemos em 2005, “se entre o final de janeiro e fevereiro não houver precipitação, a situação poderá agravar-se imenso”. Para ela, “o aumento de períodos secos, sobretudo nas latitudes do sul da Europa, incluindo Portugal e Espanha” é “quase de certeza uma consequência do que se verifica com alterações climáticas”, havendo “uma tendência dos últimos anos, desde 2000, de aumento da frequência e intensidade das situações de seca”.

Segundo dados do Sistema Nacional de Informação de Recursos Hídricos de início de janeiro as bacias do do Barlavento algarvio (com 14,3%) e do Lima (com 22,2%) são as que têm menos água armazenada. Abaixo dos 50% encontravam-se também as bacias do Sado (41,6%), Mira (41,9%), Cávado (47,3%) e Ave (52,8%). No que diz respeito às albufeiras, em 13 das 60 monitorizadas havia, no final de dezembro, recursos inferiores a 40% do total.

As notícias dão ainda conta que três das principais barragens do Algarve têm as reservas de água abaixo de metade, Odelouca está a cerca de 45% da sua capacidade, Odeleite e Beliche a 40%. E, a este propósito, a Plataforma Água Sustentável, em declarações à RTP, contesta a proposta de alargamento de área de regadio para agricultura intensiva no Algarve.

Por seu turno, várias associações de agricultores têm manifestado preocupação com a situação e pedem apoios ao Estado. No Oeste, ao contrário de outros anos, estão já a regar-se as culturas. Sérgio Ferreira, da Associação Interprofissional de Horticultura do Oeste, indica que “a situação preocupa” e que se torna cada vez mais difícil colmatar a falta de água que implica mais gastos em eletricidade e combustíveis de forma a captar água do subsolo ou das linhas de água.

A Associação Regional de Agricultores do Alto Minho junta-se às queixas e defende a antecipação de apoios e medidas “estruturantes, a médio e longo prazo” para enfrentar “períodos prolongados com falta de chuva, que vieram para ficar”. Cerqueira Rodrigues, o seu presidente, alerta que os agricultores “ainda não recuperaram da seca prolongada de anos anteriores” e diz que é preciso “condicionar as produções intensivas”, um modelo que “consome mais água e é mais poluente, seja a céu aberto, seja em ambientes construídos nas explorações, como estufas, estábulos, pocilgas, aviários e outros”. As produções intensivas “têm tido os maiores estímulos oficiais no quadro geral da PAC e das políticas mais da iniciativa dos sucessivos governos, que têm posto a ênfase na competitividade e na vocação exportadora, quando a agricultura familiar, as produções autóctones e outras mais tradicionais poupam água e outros recursos naturais, como os solos”. Por isso, os apoios públicos devem ser direcionados para as explorações agrícolas familiares e para “a produção e utilização de sementes e culturas autóctones e mais tradicionais”, defende esta associação.

O diretor da Associação dos Agricultores e Pastores do Norte, João Morais, diz que na sua região a seca “ainda não é uma situação alarmante”, mas avisa: "se não tivermos chuva nos próximos meses, vai ser bastante alarmante”.

Ana Matias da Associação de Agricultores do Litoral Alentejano também garante que na sua região os agricultores estão “muito preocupados” e há dificuldade de arranjar pasto para alimentar animais e água para as sementeiras. As explorações pecuárias da zona são extensivas e os “animais alimentam-se do que têm nas terras” mas se não chover até ao verão “vai ser muito complicado”, requerendo-se “um investimento brutal”. Nas explorações agrícolas o caso não é melhor porque dependem “do regadio” e “têm de comprar água”.

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