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90 anos do Avante!

Em 15 de fevereiro de 1931, o Avante! aparecia a público com uma linguagem ainda longe de incorporar a doutrina marxista-leninista em toda a sua plenitude. Por Luís Farinha.
Avante!, Série I, Ano 1, nº 1, 15 de fevereiro de 1931, GES/PCP

O Avante! foi, muito provavelmente, o jornal mais longevo e mais regular na Europa dos fascismos. Iniciou a sua publicação em 15 de fevereiro de 1931, com uma I Série de 9 números, publicada até 1933. Teve dificuldades por volta de 1939, mas retomou com fulgor em 1941, com a VI Série. Com uma extraordinária regularidade, o jornal faria sair 464 números entre 1941 e 1974.

Escolher a clandestinidade

A criação do Avante! foi decidida depois da “reorganização” de 1929, conduzida por Bento Gonçalves. Entre 1 de maio de 1929 e 1930, o partido conseguira editar legalmente O Proletário, de que saíram quatro dezenas de números. Ostentava a foice e o martelo e tinha como divisa “Proletários de todo o mundo uni-vos!”. Isso seria suficiente para, por 1930, quando a Ditadura encontrara o seu condottieri, suspender o jornal.

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Avante!, Série I, Ano 1, nº 1, 15 de fevereiro de 1931, GES/PCP

Esta é, de resto, a situação que ocorre com praticamente toda a imprensa política (ou partidária) que tinha procurado resistir à Censura dos centuriões. A Censura à imprensa instalou-se logo em junho de 1926, e no final deste ano funcionava em 45 cidades e vilas do Continente, sob a orientação de militares que dependiam do Ministério do Interior.

Funcionou, desde o início, de três formas: uma censura prévia seletiva, dirigida especialmente à imprensa oposicionista em momentos de maior instabilidade política; uma censura repressiva, exercida a posteriori por forças policiais, em forma de apreensão ou de multa; uma censura a médio prazo, com efeitos de coação definitivos, por asfixia económica dos órgãos de imprensa, sujeitos a sucessivas multas e apreensões. Aconteceu com O Rebate, o órgão político do PRP, fechado em 1930 e foi acontecendo o mesmo com os órgãos de comunicação de todas as outras famílias políticas: com A Noite, da ULR (União Liberal Republicana), encerrado em 1927, com o República Social, do PSP (Partido Socialista Português), encerrado em 1934 e com A Batalha, o jornal da CGT que, de tantas apreensões, deixou de poder considerar-se na condição de legalidade após a destruição das suas instalações em maio de 1927.

Republicanos e socialistas tinham optado por duas estratégias diferentes em matéria de comunicação: ou imprimiam e distribuíam folhas de informação clandestina (que Oliveira Marques reuniu em Literatura Clandestina, 2 vols, Fragmentos, Lisboa, 1990), ou ousaram manter clandestinas algumas folhas durante os anos de 1927 e 1928, enquanto não foram desmanteladas as suas organizações ou deportados os seus membros. São exemplos desta imprensa clandestina, em 1927 e 1928, O Reviralho, Rebelião, O Rebelde, entre outros.

Para forças políticas moderadas da área republicana e socialista foi ainda possível manter uma imprensa local de forte conteúdo político até 1933. Depois da instalação do Estado Novo e do seu aparelho repressivo, também estas folhas locais foram conduzidas ao silêncio.

Para manter o correio em dia e combater a “Situação” sobrava, pois, a clandestinidade. Uma clandestinidade que se foi tornando cada vez mais difícil de manter. No início, as tipografias comerciais ainda se dispuseram a correr o risco de imprimir folhas das oposições políticas. Porém, sujeitas a sucessivas apreensões e multas, deixaram de o poder fazer a partir do início da década de 30.

Para manter uma folha clandestina era, pois, necessário estar disposto a instalar uma tipografia clandestina, a criar um corpo de tipógrafos e mecânicos militantes, a obter papel e tinta num mercado absolutamente vigiado pelas polícias e a montar uma rede de distribuição sempre sujeita à repressão policial.

Essa foi a decisão tomada numa reunião da rua da Bica Duarte Belo, nº 66, 4º Esq., em Lisboa onde, entre Unidade e Avante! foi escolhido o segundo título para o novo jornal do PCP. As dificuldades para produzir o primeiro número só foram resolvidas com a criação de uma tipografia clandestina.

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Avante!, Série VI, Ano 30, nº 304, 1ª quinzena de agosto de 1961; o número inclui uma gravura de uma tipografia clandestina da autoria de José Dias Coelho.

Começava aí um árduo e incessante campo de trabalho para conseguir produzir o Avante!. De facto, a destruição das tipografias clandestinas era, porventura, um dos principais objetivos policiais. Particularmente entre 1938 e 1939, as tipografias do partido foram quase reduzidas ao desaparecimento. E essa foi uma prática que a PIDE procurou reativar em todos os períodos de repressão violenta, como aconteceu por exemplo em 1949. A seguir à sua destruição pela polícia era de novo necessário pensar em novos locais, em novas aparelhagens, em novos “tipógrafos” e em novas redes de distribuição.

A Greta Garbo e a Rússia

Em 15 de fevereiro, o Avante! aparecia a público com uma linguagem ainda longe de incorporar a doutrina marxista-leninista em toda a sua plenitude. Bento Gonçalves, o grande ideólogo da nova fase do PCP, tinha sido preso e deportado para os Açores em 8 de outubro de 1930. Anunciava-se como o órgão de um “partido de classe”, com “responsabilidade perante a próxima revolução” por se considerar a “vanguarda” que havia de “organizar as forças de choque que [haviam] de derrubar a burguesia”. Com o Avante!, o PCP pretendia dar resposta “à guerra civil declarada” pelo regime dos ditadores através da miséria imposta a milhares de operários e trabalhadores indefesos e da deportação massiva de vozes “indesejáveis, em face das suas ideias políticas”.

Impunha-se, segundo o conselho de redação, a resistência à “censura estúpida” e a denúncia dos “crimes” dos ditadores: “Um órgão de imprensa que se nos tornava indispensável para denunciar ao povo português todas as tropelias, todas as maldades e todos os crimes que contra ele se praticam diariamente”. Esse órgão será "o Avante! que surge da sombra da clandestinidade, mas que iluminará o caminho que o proletariado português deverá seguir para alcançar o poder político e económico do país, para alcançar a sua emancipação”.

Seria um caminho solitário, voltado para a “ação revolucionária”, e por isso “independente de qualquer colaboração com outros partidos“, já que o seu “credo político” lhe não permite a “coligação com forças alheias ao proletariado”.

No entanto, os primeiros sinais do marxismo-leninismo confrontam-se ainda com a formação frágil dos seus aderentes, muitos deles oriundos do anarco-sindicalismo, do qual este primeiro número do jornal se procura demarcar.

Por isso, a formação ideológica dos aderentes e militantes passou a ser outra das preocupações do jornal. Neste primeiro número, o testemunho-apelo de um jovem portimonense é a todos os títulos interessante e esclarecedor: “Juventude! Instrui-te! Aprendei a conhecer o que te interessa. Vós sois novos, e como dizem os antigos “de pequenino é que se torce o pepino”. Então, juventude. Avante! Não será mais humano e lucrativo que, em vez de te interessar os olhos da Greta Garbo, vos interesse aquele país que é governado por uma república proletária, a Rússia?”

António Dias Lourenço foi diretor do Avante! durante 17 anos, s/d. GES/PCP.
 

António Dias Lourenço – 17 anos à frente do Avante!
Um depoimento

“Em 1943, operários das zonas de Amadora e de Queluz que passavam a caminho das fábricas de bicicleta pelas Portas de Benfica nunca suspeitaram de um outro “operário” que frequentemente fazia juntamente com eles a “prova” ciclista.

Num dia de Inverno, mesmo diante da esquadra do Calhariz, a bicicleta derrapou e um arreliante “furo” o imobilizou.

Valeu-lhe um guarda da esquadra no rápido conserto e graças à preciosa ajuda o nosso “operário” pôde chegar a horas à “fábrica”, isto é, ao encontro com o camarada a quem entregou, inteirinha, a edição do “Avante!”, acabada de sair da “tipo” clandestina.

A ligação do “Avante!” às massas operava-se por vezes das formas mais imprevistas…”

(António Dias Lourenço, Avante!, Suplemento/50 Anos de Avante!, 12.2.1981)

Sobre o/a autor(a)

Ex-Diretor do Museu do Aljube Resistência e Liberdade. Investigador no Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa
Termos relacionados Esquerda com Memória, Cultura
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