Está aqui

20ª edição do Doclisboa arranca a 6 de outubro

Entre 6 e 16 de outubro, o festival exibe 281 filmes de 59 países, com 47 estreias mundiais. As retrospetivas deste ano transportam-nos para o cinema de Carlos Reichenbach e também para a questão colonial. Edição é dedicada a Jean-Luc Godard.
Foto Esquerda.net.

Esta terça-feira foi apresentado, em conferência de imprensa na Culturgest, o Programa Oficial da 20ª edição do Doclisboa. A iniciativa contou com a participação, a par da equipa da Apordoc – Associação pelo Documentário, de Marina Sousa Uva, diretora do cinema São Jorge, José Manuel Costa, diretor da Cinemateca, e do presidente da Culturgest, Mark Deputter. Estiveram ainda presentes, num segundo momento, Lula Pena, que apresentará um ato musical na sessão de abertura, e Acácio de Almeida e Marie Carré, realizadores de Objectos de Luz, filme de encerramento do 20º Doclisboa.

De acordo com Marina Sousa Uva, a longevidade do festival é “sinal do seu sucesso e da sua importância”. A ideia foi reforçada por José Manuel Costa, que assinalou que o 20º Doclisboa é “mais um contributo conjunto para ir fechando lacunas de conhecimento e de reflexão que faltam fazer em Portugal”.

Jean-Luc Godard, "cineasta livre e instigante, comprometido e atento"

A organização do festival começou por homenagear Jean-Luc Godard, "cineasta livre e instigante, comprometido e atento", que morreu hoje aos 91 anos, e a quem será dedicada esta edição do Doclisboa.

A programação conta, inclusive, com o filme de Cyril Leuthy Godard seul le cinéma, no qual Godard fala das suas experiências, obsessões e descobertas ao longo de décadas de trabalho constante, e À vendredi, Robinson, de Mitra Farahani, um documentário centrado numa conversa entre Jean-Luc Godard e Ebrahim Golestan, mediante trocas regulares de e-mails semanais envolvendo vídeos, imagens, aforismos e cartas.

José Manuel Costa afirmou que “toda a leitura da história do cinema vai sempre passar por Godard”, um cineasta que “nos marcou a todos”.

A questão colonial e o cinema de Carlos Reichenbach

As retrospetivas deste ano transportam-nos para o cinema de Carlos Reichenbach e também para a questão colonial, associada ao tempo das lutas de libertação nacional, a partir de 1950. De acordo com o diretor da Cinemateca, em causa “não está só a história da libertação das ex-colónias portuguesas, mas também passa por aí”.

Na sessão de abertura da retrospetiva A Questão Colonial, a 6 de outubro, na Cinemateca, serão exibidos, pelas 15h30, O Regresso de Amílcar Cabral, de Djalma Martins Fettermann, Flora Gomes, José Bolama Cubumba, Josefina Lopes Crato, Sana na N’Had, e Mortu Nega, de Flora Gomes. Pelas 19h, no mesmo espaço, será possível assistir a Africa sur Seine, de Mamadou Sarr, Paulin Soumanou Vieyra, e La Noire de…, de Ousmane Sembène.

Mortu Nega, de Flora Gomes.

No que respeita a Carlos Reichenbach, José Manuel Costa explicou que o cineasta integra uma geração que, sendo herdeira do cinema novo brasileiro, rompe com o mesmo em reação à sua institucionalização e academização. Este cinema marginal era pautado pela rebeldia total e por ser “imensamente popular”. Mas Reichenbach transcende depois esse movimento. Reconhecido pela critica brasileira e internacional somente na década de 1980, o cineasta “lutou contra todas as limitações” que lhe eram impostas. Hoje, é um “autor de culto” no Brasil. O primeiro filme de Carlos Reichenbach a ser exibido no festival, no dia 7, é Lilian M: Relatório Confidencial.

Sonhos de vida, de Carlos Reichenbach.

Resistência Ucraniana e refugiados afegãos no Cinema de Urgência

O Cinema de Urgência dar-nos à a conhecer, em duas sessões, os trabalhos que resultaram de oficinas realizadas em contextos diferentes: nas zonas ocupadas da Ucrânia, em 2016 e 2017, e em campos de refugiados da Grécia, no Verão de 2021.

No âmbito do projeto Open Camp, crianças e jovens do Afeganistão dos campos de refugiados de Katsikas, Lesbos e Thermopylae, na Grécia, recriam as suas suas histórias em filmes de animação. Após a sessão decorrerá uma conversa com a presença de Fausta Pereira (Open Camp) e participação via Zoom de Carlos Pastor (Open Camp), Ghalia Taki (coordenadora do Serviço Jesuíta aos Refugiados) e Tahereh Rezaee.

Em A new Narrative for Ukraine temos contacto com o projeto The One Minutes Jr. que entre 2016 e 2017, realizou várias oficinas com jovens de Carquive, Mariupol, Severodonetsk, Sloviansk e outras cidades da Ucrânia ocupadas pela Rússia desde 2014.

A new Narrative for Ukraine.

281 filmes em exibição de 59 países

Com 281 filmes em exibição de 59 países, entre os quais 132 longas metragens, o Doclisboa integra 44 filmes portugueses. O programa inclui 47 estreias mundiais. Na descrição das diferentes secções que compõem o 20º Doclisboa é possível ter uma ideia da riqueza e da diversidade desta edição do festival.

Na secção Riscos, é apresentada “a vertigem de um cinema que arrisca, questiona as suas fronteiras e relaciona a sua história com o seu futuro”. “Os realizadores convidados são Éric Baudelaire e Ana Carolina. A vida é inundada pelo cinema na trilogia de Sasaki Yusuke. Žilnik, alvo de uma retrospectiva em 2015, apresenta filmes outrora considerados perdidos. Investiga-se o labor de um cineasta com Patricia Mazuy e Laurent Achard e fazemos uma visita rara ao cinema de Mikko Niskanen”, escreve a organização do festival.

Eight Deadly Shots, de Mikko Niskanen.

Para além de programas temáticos, são apresentados os últimos filmes de James Benning, Philip Scheffner e Michael Pilz, pensa-se a vida e o trabalho com Ruy Guerra, e fantasiam-se utopias com The Dream and the Radio.

Em Heart Beat, “o traço do pintor João Ayres e os gestos guiados por Pina Bausch. O activismo de Jane Fonda, Lily Tomlin e Dolly Parton. O jazz, o funk, o folclore argentino, o heavy metal e a música de intervenção alemã. A luta na voz de Fado Bicha ou dos artistas brasileiros em Quem tem Medo?. As memórias que habitam o Chelsea Hotel. Os 40 anos dos Mata-Ratos e o trabalho de Margot Dias”.

Dancing Pina, de Florian Heinzen-Ziob.

Nesta secção é questionado o poder com as Três Marias e é aberta uma porta para os sonhos de Rui Reininho. Entretanto, “passamos para outro mundo com Lynch, Godard e Vladimir Léon” e “focamos a obra do pioneiro jamaicano Perry Henzell e a amizade entre Mathieu Amalric e John Zorn”.

Da Terra à Lua, permite-nos partir “da Terra de Dovzhenko pela poesia em movimento”. É dado destaque para três filmes de Vincent Carelli e “o centro do seu trabalho no encontro das comunidades ameríndias com as suas imagens e história”. Nesta secção, “Herzog traz-nos a vida de Katia e Maurice Krafft em imagens de fogo”. “Gravitam entre a Terra e a Lua nomes de argonautas como Sergei Loznitsa, Oliver Stone e Rithy Panh e uma ficção de Frederick Wiseman. Da Terra à Lua continua a perscrutar o pulsar do mundo”, escreve a organização do Doclisboa.

A secção Verdes Anos continua a acompanhar e apresentar os trabalhos de realizadores emergentes de toda a Europa. Da seleção competitiva deste ano constam 21 estreias provenientes de 13 países diferentes. Em parceria com a escola Le Fresnoy – Estúdio Nacional das Artes Contemporâneas, estarão em foco os primeiros trabalhos produzidos pelos seus estudantes ao longo dos seus 25 anos de existência.

Na competição internacional participam 12 filmes, cinco dos quais estreias mundiais e seis estreias internacionais. Já a nível nacional estarão em competição 12 filmes, oito deles em estreia mundial, “num encontro entre novos realizadores e outros apresentados anteriormente no Doclisboa”.

A programação do festival inclui também o projeto de indústria e espaço de networking Nebulae, que se desdobra no Estado da Arte e Constelações, com uma mesa redonda sobre a Questão Colonial, no dia 8 de outubro às 15h, no cinema São Jorge, e outra sobre Mulheres no cinema, mulheres no trabalho, no dia 12 às 10h30, no Goethe Institut. O Doclisboa continuará a apostar no Projeto Educativo, com inúmeras oficinas a decorrer, e terá a visita do Arché, com 12 projetos em diferentes estágios de desenvolvimento de países ibero-americanos, e França – País Convidado, uma seleção de cinco projetos franceses produzidos e co-produzidos, juntamente com projetos de países convidados anteriores (Alemanha, Geórgia, Croácia).

Termos relacionados Cultura
(...)