Faz esta sexta-feira 20 anos que 78,5% dos eleitores timorenses votaram a favor da independência. Foi a data escolhida para o National Security Archive revelar centenas de documentos que deixaram de ser confidenciais e que provam o conhecimento do governo norte-americano, muitos meses antes, das tentativas do exército indonésio de travar a independência através da violência, treinando e armando as milícias.
A partir de janeiro de 1999, o governo de Jacarta liderado pelo presidente Habibie aceitava, aparentemente, um processo de decisão livre em Timor-Leste. Só que, na realidade, os seus militares estavam “determinados a frustrar a votação na independência em Timor-Leste através do terror e da violência”. É o que escreve o investigador Brad Simpson, o autor desta compilação de documentos que deixam agora de ser secretos.
As centenas de documentos que provam este conhecimento e inação do governo norte-americano durante meses começam, pelo menos, logo desde fevereiro. Um relatório do Departamento de Estado referia que o exército indonésio “estava a armar bandos pequenos, nómadas, de grupos paramilitares” e que havia até pessoal militar indonésio à paisana a participar neles. Em março, os serviços secretos militares asseguravam haver “laços próximos” entre militares e milícias que teriam sido “muitas delas criadas pelas Forças Especiais Indonésias e por agentes dos serviços secretos”. Responsabilizava-se diretamente Wirianto pela sua “decisão no início de 1999 para providenciar centenas de armas para as milícias”, para além de munições, logística e aconselhamento.
O massacre de Liquiçá vai acontecer a 6 de abril. Onze dias depois os massacres chegam a Díli. Em todo o processo as milícias nunca são travadas pelo exército ou pela polícia, o que não passa despercebido à embaixada dos EUA em Jacarta que está completamente convencida da cumplicidade entre ambas as partes.
Simpson também conclui da leitura dos documentos que havia divisões na administração norte-americana: alguns elementos tentavam pressionar a Indonésia para controlar as milícias, “mas os responsáveis militares resistiam aos esforços para pressionar as forças armadas e opunham-se aos esforços para reduzir a ajuda militar, convencidos de que o exército indonésio continuava a ser uma força crucial para a estabilidade militar e política no arquipélago durante a frágil transição democrática”.
Segundo o que esclareceu o professor de Estudos Políticos e Internacionais da Universidade de Nova Gales do Sul, Clinton Fernandes, ao jornal de The Guardian, existia uma divisão no seio das altas esferas do Estado dos EUA, com o Departamento de Estado preocupado com a violência das milícias e o Pentágono mais afeito a procurar preservar a sua relação próxima com os militares indonésios. Fernandes pensa que esta “política dual” fazia com que “não houvesse consequências práticas da parte do Departamento de Estado pelo que a Indonésia acreditava que podia escapar.” Apenas “quando o Departamento de Defesa entra em jogo é que as coisas mudam.”
O chefe do Departamento de Defesa dos EUA, Cohen, desloca-se a Jacarta apenas a 30 de Setembro, um mês depois do referendo e vários meses depois da violência contra os timorenses estar a ser perpetrada pelas milícias ter causado milhares de vítimas. Segundo um relatório, o chefe das forças armadas, Wiranto, garantia então que a situação em Timor tinha sido “grandemente exagerada pelos media” e negava apoio militar às milícias. Cohen terá advertido o general de que não poderia agir contra a força da ONU, a Interfet, criada em setembro de 1999, porque “tais ações poderiam ser trágicas se permitidas”, instado a Indonésia a “fazer progressos”.
A pressão internacional tinha já obrigado o presidente Bill Clinton a ameaçar cortar as ligações ao exército indonésio a 9 de setembro. E estava assim a começar a fechar-se o episódio da negligência dos EUA face à violência em Timor-Leste que tinha ficado documentado mas não era até agora público. Mas os massacres no terreno ainda continuavam.