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1980: quando a ditadura prendeu Lula

No momento em que a candidatura de Lula é a trincheira da defesa da liberdade e da democracia no Brasil, é útil recordar a sua luta contra uma ditadura que então defendia os interesses de uma oligarquia de mentalidade neoesclavagista, hoje desejosa de voltar aos velhos tempos. Por Álvaro Arranja.
Lula preso no carro do DOPS, polícia política da ditadura.
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No dia 19 de abril de 1980, Luiz Inácio Lula da Silva foi preso pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), a polícia política da ditadura militar.

Na ocasião, Lula era presidente do Sindicato dos Metalúrgicos. Foi preso, em casa, com outros dez dirigentes sindicais. As prisões ocorreram no contexto de uma paralisação por aumento salarial e estabilidade no emprego, que mobilizava multidões de trabalhadores. As grandes greves marcaram a década de 1980 no Brasil e a oposição dos trabalhadores à ditadura militar, imposta por um golpe em 1964 que derrubou o presidente eleito João Goulart (descendente de açorianos emigrados para o Rio Grande do Sul).

Ficha de Lula no DOPS, polícia política da Ditadura.

As greves dos metalúrgicos

As grandes greves dos metalúrgicos do ABC começaram em 1978, na montadora Scania. Depois, espalharam-se por outras empresas da região — o setor tinha cerca de 140 mil funcionários no ABC paulista, região fabril que englobava originalmente as cidades de Santo André, São Bernardo e São Caetano.

Lula sindicalista fala aos operários.

Mas o descontentamento dos trabalhadores era anterior. Em depoimento à Comissão Nacional da Verdade (CNV), que investigou crimes cometidos pela ditadura, Lula lembrou que perdas salariais e de benefícios começaram ainda no final dos anos 1960. Em 1978, o protesto intensificou-se. Os trabalhadores entravam na fábrica e cruzavam os braços, porque, na ditadura, não havia espaço para expressão fora desse ambiente. Os operários saíram vitoriosos naquele ano, conseguindo um aumento substancial de salários e outras melhorias.

No ano seguinte, 1979, as companhias decidiram expulsar da linha de montagem quem parasse dentro da empresa — uma maneira de separar os grevistas de quem continuava a trabalhar. Isso levou os sindicalistas para o portão e as manifestações nas ruas. Nesse período, houve forte repressão ordenada pela ditadura, com uma intervenção no sindicato, afastando Lula e outros dirigentes da direção, o que enfraqueceu a greve.

Depois do fim da intervenção no sindicato, em julho de 1979, Lula e os colegas começaram a preparar a campanha salarial do ano seguinte, com a criação do fundo de greve, guardando dinheiro e alimentos, permitindo que o movimento de 1980 se prolongasse por 41 dias.

Nos meses anteriores, o sindicato e a Igreja Católica, que apoiava os trabalhadores, abriram as portas de templos do ABC e da Zona Leste de São Paulo para angariar recursos. A ideia era suprir as necessidades dos grevistas que não receberiam salários durante a paralisação. A preparação para 1980 teve outra inovação: membros do sindicato visitaram a casa dos funcionários para conversar sobre o movimento com as famílias. A ideia era explicar aos parentes a importância da paralisação e da sua continuidade, porque, no momento da greve, os trabalhadores poderiam sofrer pressões dos familiares para voltar ao trabalho.

Lula teve então a compreensão de que a luta não era apenas por melhores condições de salário e de trabalho, mas sim pelo restabelecimento da democracia no Brasil. A luta deveria ser mais política. Os trabalhadores perceberam que todo o aparelho repressivo do Estado estava contra eles e não apenas as empresas. A luta passou a ser não apenas pelo aumento salarial, mas também pela democracia. Perceberam que sem democracia a luta nunca chegaria a resultados positivos.

A greve começou no dia 1º de abril, mas, nos dias seguintes, as empresas recusaram negociar melhorias. No entanto, como havia uma sensação de derrota em relação ao ano anterior, o sindicato acreditava que deveria ir até as últimas consequências. Por outro lado, nos dias seguintes, boa parte dos trabalhadores desmobilizou-se: eles queriam voltar a receber os salários depois de dias sem nenhum avanço tangível nas negociações.

As prisões de sindicalistas

Por volta das 6h30, de 19 de abril, oito homens armados com metralhadoras cercaram a casa de Lula, no bairro de Ferrazópolis, em São Bernardo. Vários sindicalistas do ABC foram presos no mesmo momento.

Entre eles, Djalma Bom e Isaias Urbano da Cunha. "Abri a porta de casa, e era o pessoal da Polícia Federal. Me deram socos e me algemaram com as mãos para trás. Meu filho tinha oito anos e saiu correndo pela casa, assustado. Me levaram preso de pijamas, descalço", diz Isaias Cunha, que na época era dirigente do Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André.

Lula fala aos metalúrgicos de S. Bernardo do Campo.

O advogado José Carlos Dias, que defendia presos políticos do regime militar, também foi detido no mesmo dia. "Soube que o Lula tinha sido preso. Decidi sair de casa, mas logo me disseram que havia vários homens de terno e gravata na rua. Achei que havia algo grave acontecendo, e peguei meu passaporte. Falei para minha mulher: 'se eu não ligar em 20 minutos é porque fui preso'." Na praça Panamericana, Zona Oeste de São Paulo, foi detido por homens com metralhadoras.

Com o aumento da repressão e uma pressão interna pelo retorno às fábricas, os trabalhadores terminaram a greve sem que suas reivindicações fossem aceites pelos empresários.

No entanto, os metalúrgicos tiveram vitórias simbólicas nos anos seguintes à paralisação de 1980, como a criação da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e do PT, além da restauração da democracia, em 1985. O principal legado da greve de 1980 é simbólico: a ideia de que os trabalhadores são sujeitos ativos, que se organizam e lutam pelas suas reivindicações no espaço público.

Arcebispo de S. Paulo com Lula contra a ditadura

No dia 21 de abril, uma segunda-feira, 5 mil pessoas aglomeraram-se na Sé, em São Paulo, para participar de um ato litúrgico celebrado por Dom Paulo Evaristo Arns, Arcebispo de S. Paulo, em solidariedade com os metalúrgicos em greve e os sindicalistas presos. Marisa Letícia, mulher de Lula, subiu ao altar representando o marido.

Dom Paulo visitou Lula na prisão durante o regime militar. Foi numa sala da repressão que conheceu o futuro presidente.

No Brasil de 1980, poucos se dedicavam tanto quanto Dom Paulo a denunciar as violações de direitos humanos e as arbitrariedades do regime. Isso desde o início dos anos 1970, quando o franciscano virou arcebispo, criou a Comissão Justiça e Paz de São Paulo para oferecer proteção aos presos políticos e denunciar a tortura, comandou uma missa na Sé em memória de Alexandre Vannucchi Leme (estudante da USP morto sob tortura) e vendeu o palácio episcopal por 5 milhões de dólares para comprar uma centena de casas e terrenos em bairros periféricos.

O Arcebispo de S. Paulo (ao centro) em sessão de protesto contra a morte de presos políticos durante a Ditadura.

Teve importante papel ao denunciar a gravidade das violações promovidas pela repressão política durante esse período. Outra grande contribuição do Arcebispo foi a criação da Comissão Justiça e Paz de São Paulo, fundamental na proteção de perseguidos políticos e seus familiares. Além disso, prestou apoio jurídico e registou os casos de violação, assumindo inúmeras ações de denúncia.

Considerado um rebelde pelos militares, Dom Paulo acumulou 46 fichas no DOPS. Os documentos acusavam-no de ‘’praticar atividades comunistas’’, afirmavam isso por ele tomar partido a favor dos direitos humanos, lutando firmemente pela derrota da ditadura e direitos dos presos políticos.

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Lula foi libertado do DOPS por volta das 20h de 20 de maio. O juiz Nelson da Silva Machado Guimarães considerou que não era necessário manter a prisão dos sindicalistas depois do fim da greve. "A ordem pública não se acha mais perturbada", afirmou o magistrado.

Uma multidão esperava Lula em São Bernardo, com fogos de artifício e cachaça para comemorar a libertação do líder.

Lula recebido em apoteose pelos operários depois da libertação das prisões da Ditadura.

No dia seguinte, Lula afirmou não ter medo de ser detido novamente. "Se eu tiver de ser preso pelos mesmos motivos, por representar os anseios da minha categoria, eles podem me prender mais 500 vezes."

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