Durante um jantar com apoiantes em Santa Maria da Feira, inserido nas Jornadas Parlamentares do Bloco de Esquerda, a dirigente bloquista fez referência a duas notícias que marcaram o dia: a de que 2012 foi o ano da pior recessão desde 1975, tendo o nosso PIB decrescido 3,2%, muito acima das previsões iniciais avançadas pelo governo, o que, segundo Catarina Martins, “não surpreende, porque ainda não encontrámos, até agora, nenhuma previsão em que o governo ou a troika tivessem acertado”, e a notícia de que foram negociadas as metas do défice.
“O que Vítor Gaspar e Passos Coelho conseguiram foi que Portugal tivesse que cumprir já metas que a Irlanda só vai cumprir em 2016”, esclareceu a deputada do Bloco, frisando que o objectivo de Vítor Gaspar e Passos Coelho é sempre “empobrecer mais depressa, cortar mais depressa”.
Para Catarina Martins, este anúncio traduz o “reconhecimento de que a austeridade imposta ao país até ao momento parou a economia do país e só criou desemprego”.
“Quem nos diz que ganhámos mais um ano para cumprirmos as metas do défice não está a falar verdade. O que acontece é que nós perdemos dois anos e 300 mil empregos com a política de terra queimada do governo e da troika”, adiantou, salientando que estas Jornadas Parlamentares “são sobre as vítimas desta política de terra queimada, deste fanatismo que está a destruir o país”.
A coordenadora do Bloco relembrou também o debate promovido durante a tarde sobre “Pobreza e a urgência do aumento do Salário Mínimo Nacional”, durante o qual o Padre Jardim Moreira da Rede Europeia Anti Pobreza falou sobre a necessidade de aumentar o salário mínimo nacional, defendendo que se trata de “uma exigência de direitos humanos”, e Conceição Fernandes, que mora num bairro social, evocou casos de famílias que vivem sem eletricidade e água, que não têm comida para dar aos filhos e que têm que pedir para comer.
“É preciso definir onde estão as prioridades, não há rumo e futuro para o país que passe pelas crianças irem para a escola com frio e com fome”, advogou a deputada do Bloco.
Catarina Martins acusou ainda o governo de “secar a economia em nome das finanças” e de se escudar na “chantagem da dívida”.
“Dizem-nos que temos que pagar uma dívida acima de todas as coisas. Mas não há coisas que têm de estar acima da dívida? A dignidade não está acima da dívida? O facto de termos um futuro não é o mais importante?”, questionou, salientando que nem sequer é verdade “que alguma vez paguemos a dívida por este caminho”.
“Com uma economia sempre a afundar e com uma dívida sempre a aumentar a dívida nunca será paga. Não há nenhuma solução para o país na chantagem da dívida. Ficamos sempre pior. Nenhuma dessas medidas altera o rumo das coisas”, avançou.
Segundo a dirigente bloquista, “o que nós precisamos não é desta receita com mais sorrisos e mais devagarinho”. “É nestas alturas que se pede força e clareza. É preciso afirmar a alternativa. É preciso cortar sim mas vamos cortar então naquele que é o maior encargo financeiro do Estado e que não está a produzir nada para o nosso país, que é a dívida”, afirmou Catarina Martins, frisando que “entre a dívida e a vida, escolhemos a vida”.
A deputada bloquista referiu-se ainda à manifestação de 2 de março, contra o governo e pela dignidade das pessoas e as conquistas da democracia, como a “primavera de luta que vai continuar”.
O Bloco é radical na defesa da democracia
A vice presidente da bancada parlamentar do Bloco de Esquerda, Cecília Honório, afirmou que o Bloco é “radical na defesa da democracia" perante o assalto brutal ao Estado Social levado a cabo pela “direita radical vingativa e nepotista” que quer “deixar a democracia no osso”.
A dirigente bloquista, ao referir-se às propostas apresentadas pelo Bloco, lembrou o drama de milhares de estudantes que abandonam o ensino superior por não terem condições para pagar os seus estudos, salientando que esta política de desinvestimento é incompatível com o compromisso, assinado com “esta Europa com telecomando na Alemanha”, de termos nos próximos anos uma taxa de diplomados no ensino superior de 40%.
Cecília Honório mencionou ainda “o confronto com este regafofe e esta falta de vergonha que tem sido o debate em torno do salário mínimo” e salientou a necessidade de defender “a dignidade de cada um e cada uma contra a ditadura da dívida”.
A população chumba a política da troika
“Não há austeridade simpática, austeridade gota a gota”, afirmou o dirigente bloquista e representante do Bloco de Aveiro, Moisés Ferreira, salientando que o Bloco “não fica à espera de quem romper com a troika”.
Referindo-se aos resultados da Sondagem Expresso/SIC/Eurosondagem, que demonstraram que 61,1% dos inquiridos está contra a intenção do governo de cortar quatro mil milhões de euros nas funções sociais do Estado, Moisés Ferreira lembrou que a população chumbou a política da troika e do governo.
“Queremos viver e não sobreviver. Nós queremos todo o futuro e nunca regressar ao passado”, destacou o dirigente bloquista.