“Esta crise mundial vai durar uma ou duas décadas”

09 de setembro 2011 - 16:35

“Os directores dos bancos centrais disseram que a crise estava sob controle, mas mentiam; esta crise vai durar uma ou duas décadas”, sustentou Éric Toussaint, politólogo e presidente do Comité para a Anulação da Dívida do Terceiro Mundo. Entrevista feita por Pablo Waisberg

PARTILHAR
Madrid, Manifestação dos indignados a 19 de Junho de 2011 – Foto de pak/Flickr

A predição poderia parecer temerária, mas há um ano foi ele quem garantiu para este jornal [Diario Buenos Aires Económico] que se vivia uma “situação explosiva” no Velho Continente e que a profundidade das mudanças económicas estaria alinhada com a magnitude dessas explosões.

Ainda que os “indignados” tenham surgido na Espanha e na Grécia, as férias de Verão actuaram como uma válvula de escape, razão pela qual “a mobilização social na Europa não alcançou o nível de Dezembro de 2001 na Argentina”, analisou Toussaint desde Genebra.

Qual é o nível de gravidade desta crise?

É altíssimo. É claro que os comentaristas, os governantes e os meios de comunicação dominantes e os directores dos bancos centrais, que afirmaram que a situação estava sob controle, mentiam de maneira evidente. Estamos um pouco na situação dos anos 30: o crash foi em Outubro de 29, mas as bancarrotas bancárias se desataram em 33, e entre 29 e 33 os dirigentes norte-americanos disseram que tudo estava sob controle. Estamos numa crise que vai durar uma ou duas décadas.

Quais são as causas?

As medidas económicas adoptadas pelos governos da Europa e dos Estados Unidos nos últimos quatro anos. A crise começou em Junho/Julho de 2007 e teve um pico em 2008, com o Lehman Brothers, mas o golpe forte chegou à Europa em Outubro de 2008. Logo os elos mais fracos da zona euro caíram, começando pela Grécia, em seguida a Irlanda e faz uns meses Portugal. Agora está para chegar à Itália e à Espanha e volta com força aos Estados Unidos.

É uma crise sistémica?

É sistémica, mas não terminal. Não há crise terminal do capitalismo per se. O capitalismo sempre atravessou crises, porque fazem parte do seu metabolismo, mas o seu final será o resultado da acção consciente dos povos e dos governos. Vamos passar por períodos de recessão, depressão, em seguida algum crescimento e uma nova queda.

Por que insistem com as tradicionais receitas de ajustamento que não deram resultado em 2008?

Porque a resistência a essas políticas é insuficiente.

Existe a possibilidade de saída desta crise com outro tipo de políticas?

Poderia ser uma saída tipo Roosevelt, com um maior controle do crédito e medidas de disciplina financeira, para obrigar os bancos a separar-se entre bancos de investimento e de depósito. Além de uma imposição mais forte sobre os sectores de maiores rendimentos, com a consequente melhoria das finanças públicas e a redução das desigualdades. Ainda que também poderia haver uma política mais radical, como nacionalizar o sector bancário e renacionalizar sectores económicos que foram privatizados na Europa e nos Estados Unidos nos últimos trinta anos. Isso, juntamente com a anulação das dívidas da Grécia, de Portugal, da Irlanda, da Itália e da Espanha.

Vê a possibilidade de alguma dessas duas saídas?

Tudo depende da mobilização social, que na Europa não alcançou o nível de Dezembro de 2001 da Argentina. Sem falar dos Estados Unidos, onde não há grandes mobilizações sociais, senão que mais bem um activismo da extrema direita com o Tea Party. Ainda que me pareça difícil pensar que nos Estados Unidos a população aceite que se aprofunde o neoliberalismo; por isso há que se ver como foi a crise de 30, na qual as mobilizações chegaram por volta de 35 e 36.

Eric Toussaint foi entrevistado por Pablo Waisberg do Diario Buenos Aires Económico, em 16/08/2011, o texto traduzido para português está disponível no site cadtm.org

Termos relacionados: Sociedade