Os dois descarrilamentos na linha de Cascais ocorreram em Caxias e Algés com apenas dez minutos de intervalo. Ambas as composições deslocavam-se a baixa velocidade, devido aos problemas mecânicos identificados no comboio que seria o segundo a descarrilar. "Desde Oeiras os passageiros foram informados que havia problemas com o material", contou uma utente à agência Lusa. Uma fonte da Refer acrescentou que o descarrilamento das duas carruagens “pode ter sido pela mesma razão, por alguma coincidência”, mas “tecnicamente não pode ser consequência um do outro”.
O jornal "Público" fala de uma "ocorrência estranhíssima e tecnicamente impossível no sistema ferroviário – o comboio está a passar por uma agulha que, de repente, muda de posição e uma parte da composição muda para a linha do lado". A hipótese de explicação para o sucedido, que o sistema de segurança impede que seja feito por mão humana, seria a danificação da agulha pelo comboio avariado que ali passara minutos antes.
Sindicatos e utentes querem mudanças urgentes
“Sem querer adiantar as causas dos descarrilamentos hoje na linha de Cascais, para nós há uma que está patente que é o desinvestimento naquela linha e que as organizações de trabalhadores há muito vêm chamando a atenção para situações como estas ou piores”, disse à Lusa José Manuel Oliveira, da Federação de Sindicatos de Transportes e Comunicações (Fectrans).
“O material é muito antigo e, apesar de terem a cara lavada, as carruagens já esgotaram a sua vida útil de funcionamento, aliás, isso é reconhecido pelos anteriores presidentes da CP”, disse o mesmo responsável, salientando que a linha de Cascais “é uma das mais dramáticas” do país “Está na hora de pedir responsabilidades”, acrescentou o dirigente sindical, que espera que este acidente não fique por esclarecer como o do mês passado em Alfarelos, que causou 14 feridos.
Já o porta-voz da Comissão de Utentes da Linha de Cascais, José Figueiredo, afirmou à Lusa que "há muito que nós tínhamos previsto esta situação e sabíamos que, mais cedo ou mais tarde, este tipo de acidentes iria acontecer. Não nos surpreendeu e felizmente que não houve feridos". Os utentes defendem uma "intervenção profunda e urgente" nas composições e na linha, acusando o Governo e a CP de desenvolverem uma política "leviana" que "põe em causa a segurança dos utentes e trabalhadores daquela linha".
Para Manuel Tão, especialista em transporte ferroviário da Faculdade de Economia da Universidade do Algarve, o problema está na idade do material circulante: os comboios mais recentes têm 30 anos, a "idade limite para comboios suburbanos". "Há uma coisa que se tem de referir: existam ou não incidentes é difícil conceber a contiguidade de uma exploração de uma linha suburbana - que transporta cerca de 40 milhões de pessoas por ano - com material com este nível de obsolescência", considerou o especialista ouvido pela Lusa.