Sala cheia na aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa para participar numa iniciativa do ex-presidente Mário Soares que reuniu partidos, centrais sindicais e movimentos sociais sob o lema de “Libertar Portugal da Austeridade”
Foi o próprio Mário Soares que abriu as intervenções da noite, destacando a presença de PS, PCP e Bloco, bem como das centrais sindicais e movimentos sociais e até de muitos militares que foram do MFA, unidos pela vontade de salvar o país da austeridade que está a ser imposta “por um governo incompetente”, sem rumo e que ignora as pessoas, e “cujos ministros não podem sair à rua sem serem vaiados”. O histórico socialista afirmou que a “austeridade imposta pela troika está à vista de todos” e leva o País ao desastre, senão ao abismo, “para enriquecer os mercados usurários que dominam os nossos Estados”.
Defendendo a demissão do governo, Soares arrancou a primeira vaia da noite ao Presidente da República, ao criticar Cavaco Silva por considerar o governo legítimo, afirmando que se o povo é quem mais ordena, um governo que está a contrariar as suas promessas eleitorais e a Constituição não pode ser considerado legítimo. Soares advertiu que Cavaco será responsável pela perda de paciência e até de pacifismo do povo, que se torna progressivamente mais violento.
Manifestação internacional dia 1 de junho
Maria do Rosário Gama, do movimento de reformados APRE!, foi a oradora seguinte, denunciando os ataques ao Estado social, nomeadamente à saúde e à educação, e lembrando que cada vez que a troika vem fazer a sua avaliação pede mais austeridade, e o governo não só a aceita como ainda vai mais além do que é pedido.
A dirigente do APRE recordou que o governo já roubou nos cortes das pensões em três anos 4.163 milhões de euros aos reformados, e fez um vibrante apelo à manifestação internacional do dia 1 de junho, convocando também uma concentração de reformados dia 6 e uma jornada de luto no dia 10.
Não há austeridade light
Falou em seguida a deputada Cecília Honório, do Bloco de Esquerda, que destacou a necessidade de parar toda a austeridade do governo e da troika, e que para isso se impõe um diálogo alargado e uma convergência à esquerda, afirmando que o Bloco está presente nesse diálogo, e defende a queda deste governo e da sua tutela – referindo-se ao executivo alemão.
A deputada bloquista insistiu que ou Portugal vence a dívida, ou é vencido por ela e, por isso “não há austeridade light”.
“Não é pois uma questão de mais ou menos Memorando”, afirmou, pois “qualquer proposta de manutenção do Memorando” criará um governo pior, porque a troika faz sempre mais exigências. Cecília Honório defendeu um governo de esquerda, capaz de desenhar um novo mapa político na rota da rejeição da dívida, esclarecendo que, para o Bloco, um governo de Esquerda “declararia desde o primeiro dia o Memorando sem efeito e iniciaria as negociações para abater a dívida”.
A deputada do Bloco defendeu ainda a dinâmica europeia da luta e destacou que a manifestação de 1 de junho é por uma Europa dos povos contra a ditadura da Finança.
Governo patriótico e de esquerda
João Ferreira, do PCP, falou em seguida, defendendo a demissão do governo e eleições antecipadas, destacando que a rutura com a política de direita deve ser vista no contexto de uma rutura mais ampla com a submissão às orientações hoje prevalecentes na União Europeia e contra a ideologia que a inspira e com as motivações que lhe estão subjacentes. O deputado europeu do PCP defendeu a necessidade um governo patriótico e de esquerda.
O deputado António Preto, do PS, foi o orador seguinte, defendendo as eleições gerais porque “em democracia há sempre alternativa”; e encerrou a sessão o anfitrião e reitor da Universidade de Lisboa António Nóvoa, que defendeu uma nova esperança para o país, através do investimento no território e no conhecimento, e arrancou enormes aplausos quando disse que “o trabalho precário” é o cancro para o desenvolvimento económico e o desemprego jovem é “a morte a prazo da sociedade”.
Pacheco Pereira envia mensagem
No final da sua intervenção, Mário Soares leu trechos de um texto de apoio à iniciativa escrito pelo pelo ex-deputado e militante do PSD José Pacheco Pereira, em que este acusou o governo de fazer dos portugueses "ratos de laboratório".
Disse que a ideia da "inevitabilidade do empobrecimento" tem como resultado "matar a política e as suas escolhas, sem as quais não há democracia".
E afirmou que Portugal está a sofrer "a conjugação da herança de uma governação desleixada e aventureira, arrogante e despesista, que conduziu o país à bancarrota, com a exploração dos efeitos dessa política para implementar um programa de engenharia cultural, social e política, que faz dos portugueses ratos de laboratório de meia dúzia de ideias feitas que passam por ser ideologia".
"Tudo isto associado a um desprezo por Portugal e pelos portugueses de carne e osso, que existem e que não encaixam nos paradigmas da modernidade lampeira, feita de muita ignorância e incompetência a que acresce um sentimento de impunidade feito de carreiras políticas intrapartidárias", acrescentou.
O Esquerda.net transmitiu todo o comício em direto.