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“Achei que tinha chegado o meu fim”

Dirigi-me à janela e abri-a. O prédio parecia que ia cair. Ouvi que vidros se quebravam no meu apartamento, mas não sabia o que era. O terramoto parecia interminável e, claro, achei que tinha chegado o meu fim. Relato do correspondente do Esquerda.net no Japão.
Refinaria em chamas em Chiba City, Japão, depois do terramoto. Foto EPA/STR ***JAPAN OUT***

Trabalhei à noite e estava a dormir. Não costumo acordar com terramotos. Mas este foi forte e resolvi pular da cama. Moro no quinto andar de um prédio velho. Desde que moro neste apartamento decidi que, no caso de um terremoto que derrube o prédio, a única alternativa é pular pela janela. Mesmo assim são cinco andares e não é, realmente, uma alternativa muito atraente. Dirigi-me à janela e abri-a. O prédio parecia que ia cair. O terremoto chacoalhava tudo, muito forte. Ouvi que vidros se quebravam no meu apartamento, mas não sabia o que era. Continuei agarrado à janela, esperando o momento derradeiro para saltar. O terramoto parecia interminável e, claro, achei que tinha chegado o meu fim. O terramoto parou e resolvi descer as escadas e ir para a rua. Nunca se sabe se se está no final ou no começo. Mas qualquer pessoa que viva no Japão sabe que, após um grande terramoto, outros podem ocorrer.

Ao contrário do normal, dezenas de pessoas estavam nas ruas também. Todos perguntavam sobre a magnitude do terramoto. As luzes apagaram-se, os telefones estavam cortados. O dono de uma loja de roupas em frente ao prédio ligou o velho rádio de pilhas e ouvi as primeiras informações.

Todos queriam saber o que tinha ocorrido. Minutos após, o dono do prédio onde moro apareceu. Achei estranha a sua voz e descobri que ele, na pressa, não tinha posto a dentadura... Não sabia até hoje que ele usava dentadura.

É a primeira vez, desde que vivo no Japão, que a luz se apaga. Imaginei que iria continuar apagada por um bom tempo ainda. Mesmo que as instalações não tivessem sofrido problemas, seria necessário fazer uma serie de inspecções antes de voltar a ligá-la. Os comboios, principal meio de locomoção, ficaram completamente parados.

Estamos no final do Inverno e, onde moro, a temperatura está em torno de dez graus durante o dia. E vai arrefecendo ao entardecer. Pensei em ficar fora, mas, com o frio, decidi voltar para dentro do apartamento. As luzes continuavam apagadas. Pensei em ler algo, mas qual a utilidade disso nestas circunstâncias? Fui dormir outra vez, sem me preocupar com os terramotos, de menor escala, que ocorriam. Ao fim de algumas horas, acordei e vi que uma vasta área, que se expandia até Tóquio, continuava na escuridão. Por volta das 20h, alguém na rua gritou: “Acendeu!” Neste momento, o meu candeeiro ligou, levantei-me e fui tentar obter informações concretas.

O epicentro do terremoto foi numa bela região da costa japonesa, o Mar de Sanriku, na área de Touhoku, o nordeste japonês. Um pouco mais de 300 quilómetros ao norte de Tóquio. Pelo computador, comecei a ver as primeiras imagens da área mais afectada. O tsunami que ocorreu após o terremoto arrastava tudo no seu caminho. Casas, carros, barcos, instalações agrícolas e pessoas, como fiquei a saber depois. Algumas estradas viraram pequenas crateras. Mesmo em Tóquio e Kanagawa, na área de Kanto, ocorreram incêndios. Neste momento em que escrevo, os terremotos persistem. Vendo as notícias, soube que o terremoto atingiu a escala 8.9 e deve ter sido o maior da história japonesa. O número de mortos cresce com o acúmulo de informações. Na ultima olhada que dei, minutos atrás, já somavam 95. Há a informação de que um barco naufragou com 100 pessoas a bordo e, numa localidade costeira, as águas podem ter levado cerca de 200 moradores. Ao que tudo indica, o número de mortos da tragédia atingirá algumas centenas. As cenas de destruição são impressionantes.

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