É pouco provável que Obama enfrente questões reais do Médio Oriente

24 de maio 2011 - 11:21

“Vamos sair do Afeganistão amanhã”. Mas irá o nosso presidente favorito dizer algo como isto? Podem esquecer. Este é um presidente falso que deveria devolver o seu Prémio Nobel porque ele nem fechar Guantanamo conseguiu, quanto mais trazer-nos paz. Artigo de Robert Fisk.

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"Mr. Obama e a sua igualmente pouco corajosa secretária de Estado não têm ideia do que enfrentam no Médio Oriente. Os árabes perderam o medo."

OK, então lá vai o que o presidente Barack Obama deveria dizer hoje sobre o Médio Oriente: Vamos sair do Afeganistão amanhã. Vamos sair do Iraque amanhã. Vamos parar de dar apoio cobarde e incondicional a Israel. Os EUA forçarão os israelitas – e a União Europeia – a pôr fim ao cerco de Gaza. Suspenderemos todos os fundos que Israel espera receber de nós, até que acabe, completamente, sem condições, a construção de colónias em terras roubadas aos árabes que nunca pertenceram a Israel. Poremos fim a todos os negócios e cooperação com os ditadores viciosos do mundo árabe – seja saudita, sírio ou líbio – e apoiaremos a democracia também nos países nos quais os EUA têm interesses comerciais massivos. Ah! E, sim, conversaremos com o Hamas, claro.



Evidentemente o presidente Obama não dirá nada disso. Arrogante e cobardemente, só falará sobre os “amigos” do ocidente no Médio Oriente, sobre a segurança de Israel – e “segurança” é palavra que Obama jamais usou ao falar da Palestina – e enrolará e enrolará sobre a Primavera Árabe, como se, algum dia, tivesse dado algum apoio a alguma democracia no Médio Oriente (antes, claro, de os ditadores já estarem em fuga); como se – quando mais precisaram do apoio de Obama – Obama tivesse oferecido a ajuda moral da sua autoridade ao povo do Egipto. E que ninguém duvide: Obama falará também muito sobre um grande Islão religioso (mas nunca muito grande, ou os Republicanos recomeçam a exigir a certidão de nascimento de Barack Hussein Obama). Temo que ouçamos também – ah, sim, temo! – um convite-comando para que viremos a página de Bin Laden, para “dar o assunto por encerrado” e “seguir avante” (convite-comando que, também temo, os Talibã não aceitarão).



Mr. Obama e a sua igualmente pouco corajosa secretária de Estado não têm ideia do que enfrentam no Médio Oriente. Os árabes perderam o medo. Estão fartos dos nossos “amigos” e enojados com os nossos inimigos. Em breve, os palestinianos de Gaza marcharão sobre as fronteiras de Israel e exigirão o direito de “voltar para casa”.



No domingo, viram-se sinais disso nas fronteiras da Síria e do Líbano. O que farão os israelitas? Matarão palestininos aos milhares? E o que dirá então Mr. Obama? (Claro, exigirá “contenção dos dois lados”, frase que aprendeu do seu torturante predecessor).



Penso que os norte-americanos sofrem do mesmo mal que os israelitas: acreditam cegamente nos seus próprios argumentos de auto-engano. Os norte-americanos continuam a falar da bondade do Islão; os israelitas, de como entendem “a mente árabe”. Mas não entendem coisa alguma.

O Islão, como religião, nada tem a ver com isso, como tampouco o Cristianismo (palavra que não tenho ouvido nos últimos tempos) tem algo a ver com isso, ou o Judaísmo. Trata-se agora de dignidade, honra, coragem, direitos humanos – qualidades que, noutras circunstâncias, os EUA sempre elogiam –, que os árabes entendem agora que também lhes cabem. E estão certos.

É hora de os norte-americanos se livrarem do medo que lhes inspiram os lobbyistas pró-Israel – de facto, são lobbyistas pró-Likud – e a repugnante acusação de anti-semitismo que repetem contra qualquer um que se atreva a criticar Israel. É hora dos norte-americanos aprenderem a ter coragem, como a valente comunidade de judeus norte-americanos que protestam contra as injustiças cometidas por Israel e líderes árabes.



Mas irá o nosso presidente favorito dizer algo como isto? Podem esquecer. Este é um presidente falso que deveria – porque nos esquecemos disto? - devolver o seu Prémio Nobel porque ele nem fechar Guantanamo conseguiu, quanto mais trazer-nos paz.

E o que disse ele no discurso do Nobel? Que ele, Barack Obama, tinha de viver no mundo real; que não é nenhum Gandhi, como se – e honra seja feita ao The Irish Times por ter sabido ler – Gandhi não tivesse combatido contra o império britânico! Assim sendo, teremos os mesmos analistas dos EUA de sempre, dizendo como são boas as palavras do presidente, elogiando o discurso daquele homem miserável.



Depois, virá o fim de semana em que Mr. Obama falará à conferência anual do AIPAC (American Israel Public Affairs Committee), o mais poderoso “amigo” de Israel nos EUA. E começará tudo outra vez, segurança, segurança, segurança; rápida – se acontecer – referência às colónias israelitas na Cisjordânia; e, isso eu garanto, muitas e muitas referências a terrorismo, terrorismo, terrorismo, terrorismo, terrorismo, terrorismo, terrorismo. E, sim, mencionará o assassinato (para não usar a palavra execução) de Osama bin Laden.



Mas o que Mr. Obama não entende – e Mrs. Clinton, essa, então, não faz nem ideia – é que, no novo mundo árabe, não há mais lugar para a confiança em bajuladores de ditadores, não há mais lisonja. A CIA deve andar carregando malas cheias de dinheiro para distribuir, mas suspeito que poucos árabes se animarão a tocar nesse dinheiro. Os egípcios não tolerarão o cerco a Gaza. Nem, creio, os palestininos. Nem, tampouco, os libaneses, e nem os sírios, depois que se livrarem dos chefes que os governam. Os europeus perceberão isso mais rápido do que os norte-americanos – afinal estamos mais próximos do mundo árabe – e não deixaremos para sempre as nossas vidas ser guiadas pela indiferença adulante da América ao roubo israelita da propriedade.



Tudo isso, claro, será como um deslocamento vertiginoso de placas tectónicas para os israelitas – que deveriam estar a congratular os seus vizinhos árabes, e os palestinianos, por terem unificado a sua causa; e que deveriam demonstrar amizade, em vez de medo.

Faz tempo que minha bola de cristal se partiu. Mas lembro bem o que Winston Churchill disse em 1940: “o que o general Weygand sobre a batalha pela França ter acabado. Começa agora a batalha pela Grã-Bretanha”.

Bem, o velho Médio Oriente acabou. O novo Médio Oriente está a ponto de começar. É bom que acordemos.


Artigo de Robert Fisk, publicado no The Independent. Tradução pelo Colectivo Vila Vudu.