O ex-bispo católico Fernando Lugo assumiu nesta sexta-feira Presidência do Paraguai, pondo fim a 61 anos de poder absoluto e ininterrupto do Partido Colorado. As sondagens dão ao novo presidente 93% de popularidade. Como tinha prometido, Lugo tomou posse sem fato nem gravata, e calçando sandálias. "Hoje termina um Paraguai exclusivo, um Paraguai com fama de corrupto. Hoje começa um Paraguai onde as autoridades serão implacáveis contra os ladrões do nosso povo", disse no discurso de posse.
Fernando Lugo, cuja formação política está ligada à Teologia da Libertação e à luta dos sem-terra, defendeu a criação de uma sociedade "fundada em princípios de justiça e igualdade", onde "todos cresçam sem exclusão" e citou a consagrada cantora argentina Mercedes Sosa: "Renuncio a viver num país onde uns não dormem porque têm medo e outros porque têm fome", defendendo um pacto social para construir uma sociedade "que volte a pensar de maneira colectiva".
Antes de assumir, Lugo afirmou que prescindia do salário de presidente de 4 mil dólares e disse que prefere entregar a quantia aos mais pobres, "porque não preciso do salário para viver modestamente".
Para permitir a posse de Lugo, o Vaticano aceitou com relutância revogar o seu "estado clerical".
Participaram da cerimónia os chefes de Estado do Brasil, Argentina, Bolívia, Chile, Equador, Honduras, Taiwan, Uruguai e Venezuela. Participaram também o príncipe Felipe da Espanha e representantes de quase cem delegações estrangeiras.
Lugo é o sexto presidente desde a instauração da democracia, em 1989, após a deposição da ditadura de Alfredo Stroessner (1954-1989).
"Assim que Lugo começar a mudar as coisas, os ataques vão começar. Mas graças a Deus temos o apoio do nosso povo. Novos ventos estão a soprar na América Latina, que realmente vive uma nova era", disse o presidente do Equador, Rafael Correa, ao desembarcar em Assunção na quinta-feira.
O boliviano Evo Morales declarou que Lugo é um "irmão" que faz parte das transformações na região.
Manta de retalhos
O novo presidente vai governar com o apoio de uma manta de retalhos política, uma coligação que inclui esquerda e direita: Aliança Patriótica para a Mudança (APC), que inclui o partido do ex-general golpista Lino Oviedo, a União Nacional de Cidadãos Éticos (Unace), além de indígenas, movimentos sem-terra e sectores de centro.
Lugo promete combater a pobreza e a corrupção com um gabinete que represente a heterogeneidade desta coligação. O ministro da Economia, Dionisio Borda, por exemplo, foi ministro do governo do presidente Nicanor Duarte, que está a deixar o poder.
Os camponeses, que apoiaram Lugo, já anunciaram que vão pressionar pela instauração de uma reforma agrária. "Damos seis meses a Lugo. Se ele não cumprir os seus compromissos, vamos confrontá-lo", advertiu o líder camponês Belarmino Balbuena.
O Prémio Nobel de Economia norte-americano Jospeh Stiglitz dá consultoria ao novo governo e sugeriu a Lugo que aplique um imposto sobre as exportações de soja e de carne de 15%, para melhorar a arrecadação fiscal do país.