A desestabilização do Líbano, iniciada pela resolução 1559 do Conselho de Segurança das Nações Unidas em Setembro de 2004, amplificada pelo assassinato de Rafik Hariri em Fevereiro de 2005 e pelos acontecimentos que se lhe seguiram, continua a um ritmo mais inquietante que antes. Actualmente, um novo patamar é ultrapassado.
Artigo de Georges Corm[1], traduzido do site mouvements.asso.fr
O pequeno exército libanês tem, com efeito, desempenhado um papel chave, desde há dois anos, assegurando com eficácia a segurança em todo o território libanês. Conseguiu, além disso, permanecer neutro entre as facções libanesas, assegurando a protecção das diferentes manifestações e impedindo qualquer derrapagem grave nas grandes manifestações populares dos pró-ocidentais que governam de maneira contestada o país, assim como nos da oposição qualificada de pró-Síria.
Face a uma situação explosiva criada por uma crise constitucional grave que sacode o país desde Novembro de 2006, o exército assegurou espaços de liberdade a todos para se manifestarem e fazerem os seus comícios. Já o tinha feito em 2005, aquando do assassinato de Rafik Hariri, que levou à queda do governo sob a pressão dos manifestantes. O mesmo aconteceu de novo, a partir de Dezembro de 2006, quando a oposição começou a organizar manifestações e uma concentração que ainda dura. Desta vez, contudo, o governo libanês, apesar da demissão dos ministros da comunidade xiita e de um ministro da comunidade greco-ortodoxa, recusa demitir-se ou alargar o governo para assumir o carácter de um governo de unidade nacional, apesar das manifestações gigantescas e da permanente concentração dos partidos da oposição. O governo, que perdeu a sua legitimidade multi-comunitária, resiste ao apelo da razão, certo do apoio dos Estados Unidos e dos Estados da União Europeia.
Mas, tendo sido envolvido sem estar preparado numa confrontação militar com os elementos armados do movimento terrorista e jhiadista, chamado Fatah al-Islami, que diz ser um grupo dissidente da Fatah palestiniana, o exército libanês encontra-se perigosamente exposto, política e militarmente. No plano político, o campo palestiniano cheio de civis, situado a norte da cidade de Tripoli, e que o grupo terrorista parece ter tomado como refém, recorda muito os sofrimentos palestinianos acontecidos no Líbano (entre 1975-1990) e certamente na Palestina ocupada. Se o confronto continuar e o número de vítimas civis palestinianas ainda aumentar, a boa reputação do exército libanês sairá manchada. Além disso, o exército libanês, que já tem numerosos activos imobilizados no sul, a pedido da ONU e das potências ocidentais, mas também na capital, Beirute, e em todos os grandes centros urbanos para manter a paz civil, deverá então concentrar-se no norte do país e por isso estender ao extremo os seus efectivos e os seus meios limitados ou retirar de outras zonas sensíveis. O risco é também assistir a agitações em outros campos palestinianos.
É pois claro que a provocação feita ao exército libanês pelo grupo Fatah al-Islam não é inocente.
Mais ainda, objectivamente, ela junta todos os que, no interior do país como em Israel ou no Ocidente, estão exasperados com a cooperação continua entre o exército libanês e o Hezbollah. Alguns de facto imaginaram ingenuamente que o exército se lançaria na aventura suicidária de retirar ao Hezbollah as suas armas, o que seria a via aberta à guerra civil interna, outros pensaram ou desejaram que o exército libanês impediria a oposição de continuar as suas manifestações e os seus comícios.
Não tendo sido realizados estes desejos, nada mais simples que tentar envolver o exército numa confrontação com os campos palestinianos e, em caso de falha do seu desarmamento, condená-lo pela sua ineficácia na aplicação da famosa resolução 1559 e a mais recente, denominada 1701. O campo estaria então livre para outra intervenção israelita ou para um apelo do governo libanês, com legitimidade fortemente contestada, a novos contingentes militares internacionais para alargarem a sua intervenção também às fronteiras com a Síria, acusada de fomentar estes confrontos.
Tudo isto acontece enquanto a questão do tribunal internacional para julgar os assassinos de Hariri suscita cada vez mais polémica interna no Líbano, mas também entre os membros do Conselho de Segurança. Não esquecemos também que o reputado jornalista americano Symour Hersh nos advertiu desde Março passado, que certos ramos da administração americana e um membro muito influente da família real saudita (o prícipe Bandar ben Sultan, antigo embaixador em Washington) decidiram facilitar a entrada no Líbano e o financiamento de grupos sunitas jihadistas terroristas, especialmente a Fatah al-Islami, hostis aos xiitas e isto para constranger o Hezbollah e atiçar as tensões entre sunitas e xiitas no Líbano.
Pobre Líbano, rezem por ele!
[1] Georges Corm é um político, historiador, economista e jurista libanês. Antigo ministro das Finanças do Líbano (1998-2000).