Gysi e Lafontaine falam sobre o novo Partido de Esquerda alemão

01 de junho 2007 - 14:49
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gysi_lafontaineA revista alemã Super illu entrevistou, recentemente, os dois dirigentes máximos do novo partido unificado da esquerda anti-neoliberal alemã, no qual estão congregados o Partido do Socialismo Democrático (ex-comunistas, radicados sobretudo no território da antiga RDA) e o Agrupamento de Eleitores pela Justiça Social, um partido composto por sindicalistas saídos das fileiras da social democracia).

Entrevista realizada em 29/04/07 e traduzida do espanhol, de Sin Permiso

Comecemos com uma citação: "Como partido herdeiro do SED [Partido Socialista Unificado da Alemanha, no poder na RDA até 1989], o PSD tem a responsabilidade pela injustiça na RDA (...) Se pretende ser admitido nos salões, terá de reconhecer essa culpa histórica, e também desvincular-se da "Plataforma Comunista". Reconhece a citação?


Oskar Lafontaine: Não, à primeira vista. Caso seja minha, não a recordo.

Você disse esta frase, como dirigente do SPD nesta mesma revista em 1996. É hora de receber o PDS, mesmo este tendo-se esquivado a reconhecer a sua culpa e mesmo continuando a integrar a ‘Plataforma Comunista'?

Oskar Lafontaine: Já como político do SPD promovi o trabalho conjunto com o PDS desde o episódio de tolerância em Sachsen-Anhalt, porque o PDS se renovou e elaborou o seu passado. A nova esquerda entende-se a si mesma como uma organização pluralista, uma organização na qual cabe também a "Plataforma Comunista".

Gregor Gysi: Tirámos as conclusões adequadas do fracasso da RAD: um socialismo autoritário, dogmático está completamente fora das nossas perspectivas, nem nos interessa qualquer tipo de socialismo de Estado. Por isso nos tornámos sociais democratas.

Oskar Lafontaine, durante os anos 90, tentou várias vezes ganhar pontos à parte Oriental: por exemplo, com a resistência ao Tratado de Unificação e a rápida introdução do marco da Alemanha ocidental como moeda. Parece-lhe senhor Gysi que é o colega indicado para criar uma esquerda unificada?

Gregor Gysi: É verdade que ele disse algo assim. E em parte tinha razão; pense, por exemplo, nas elevadas taxas de desemprego provocadas pela introdução do marco da Alemanha ocidental. Além disso, todos temos que fazer concessões e mudar. Comigo sempre foi correcto. Todavia recordo como, depois de ser eleito líder do SPD, se veio encontrar comigo e tal lhe acarretou duras críticas. Desse gesto surgiu a nossa participação no governo de Mecklenburgo-Pomerania.

Senhor Lafontaine, sente-se confortável num partido, do qual membros proeminentes lutaram contra o capitalismo lado a lado com o terrorista [Christian] Klar da RAF (Fracção do Exército Vermelho) pelas suas siglas em alemão?

Oskar Lafontaine: A esquerda rejeita o terrorismo - ou seja, o assassinato de pessoas como método de realização de objectivos políticos - em qualquer das suas formas. E independentemente de quem o pratique, seja a Fracção do Exército Vermelho, ou Bush e Blair no Iraque. Que a crítica ao capitalismo venha de um ex-membro da RAF não faz com que a crítica seja falsa. Além disso, o Papa também rejeitou o capitalismo. Deveria ser preso por isso?

Poderia o anti-capitalista Christian Klar [recentemente indultado, com grande alvoroço da direita, da sua longa pena de prisão] chegar a ser um membro do novo partido de Esquerda?

Oskar Lafontaine: A pergunta faz tanto sentido, como perguntar-me se o Papa poderia entrar no nosso partido.

E poderia, o Papa?

Oskar Lafontaine: Não teríamos razão para nos opor. Se o Papa insiste que é a ordem económica que deve servir as pessoas, e não o contrário, logo aqui temos um princípio que é parte fundamental do programa da esquerda política.

Greogr Gysi: Por voltar a Christian Klar: se alguém foi delinquente durante a sua juventude mas, com a maturidade, desenvolve outra atitude podem-se discutir muitos assuntos com ele. Mas nada lhe posso dizer sobre o senhor Klar, porque não o conheço. Para mim, assassinatos são assassinatos, independentemente dos motivos que levaram a cometê-los. Conjecturar que o meu partido tem alguma proximidade ao terrorismo é absurdo e de má fé. Por certo: se algo é criticável no meu partido é o seu nível de candura. Não há coisa mais amável nas manifestações.

Existem reservas no PDS [o partido de Gysi, partido do socialismo democrático]: há quem pense que trairá a sua alma de partido radicado no Leste quando na Primavera deste ano se unir com o WASG [Agrupamento de Eleitores pela Justiça Social] dirigido por Lafontaine.

Oskar Lafontaine: Participei em muitos comícios e reuniões na Alemanha Oriental, e sempre encontrei grande apoio e concordância. No respeitante às eleitoras e aos eleitores, essa objecção é infundada. Claro que há perdas naturais por fricção quando pessoas provenientes de organizações distintas se unem. É normal, mas a imprensa sobrestima o facto. Logo verá: ambas as partes tomarão as resoluções necessárias com grandes maiorias.

Como tranquilizaria os companheiros e simpatizantes do seu partido que vêem em perigo a alma oriental do mesmo, senhor Gysi?

Gregor Gysi: Não necessitamos de tranquilidade, mas de ânimo produtivo, para fazermos com êxito a unificação. É natural que o PDS tenha que alterar em consequência disto a sua identidade. Estamos marcados pelo Leste alemão, tínhamos uma função a cumprir na Alemanha Oriental. Mas só teremos futuro se nos tornarmos um partido relevante desde a Baviera até Mecklenburgo-Pomerania. Graças ao WASG e a Oskar Lafontaine isso será agora possível. Os resultados das eleições federais de 2005 são optimistas neste aspecto: 4,9% no Oeste para um partido à esquerda da social democracia, nunca se tinha conseguido depois de 1949. Além disso, somos os únicos que nesta paisagem política organizámos uma unificação equitativa. Em outras partes só se vêem trânsfugas ou absorções!

Parece-lhe realmente equitativo que os cerca de 61.000 membros do SPD e os cerca de 12.000 membros do WASG se unam, e que o partido pequeno tenha uma das duas presidências e metade dos postos directivos?

Gregor Gysi: Assim vê você o quanto equitativos somos. E agora a sério: o acordo de cooperação prevê, em adição, que o secretário federal e o tesoureiro sejam do PDS. Há também uma maior representação dos delegados do PDS, mesmo se não em proporção ao número dos seus membros. Por outro lado, o WASG representa a maior parte da Alemanha. Neste aspecto, creio que encontrámos um equilíbrio equitativo.

Oskar Lafontaine: Eu vejo esse acordo também como um incentivo para recrutar novos membros no lado ocidental. Aí a nova Esquerda ainda é demasiado fraca.

Você, senhor Lafontaine, quer - junto com o líder do PDS, Lothar Binsky - uma das duas presidências da nova Esquerda, não é?

Oskar Lafontaine. Tomarei essa decisão no período entre os congressos dos dois partidos, quando as resoluções programáticas estiverem tomadas.

Suponhamos que Lafontaine se torna, junto com Bisky, líder do partido, mas que ao mesmo tempo mantém o cargo de líder da fracção parlamentar Gysi. Desta forma, este último dominaria a nova Esquerda.

Oskar Lafontaine: Ninguém considera problemático que no FDP [o partido liberal] a presidência do partido e a liderança do grupo parlamentar estejam nas mesmas mãos. No cenário que você traça faríamos as coisas a três faixas. Isso não deveria ser um problema.

Gregor Gysi: Também se poderia considerar que Lothar vai ficar um pouco entalado entre Lothar [Bisky] e eu (risos). A sério: a experiência ensinou-me que isto tem menos a ver com as funções do que com a autoridade natural. E nisso você não deveria subestimar qualquer um dos três. Por certo: damo-mos muito bem, mas ninguém teria apostado nele em 2005.

Que possibilidades vêem para a Esquerda unificada a médio prazo à escala federal?

Oskar Lafontaine: Entre uns 15% e uns 20%. O que pressupõe que conseguiremos construir no Oeste uma força organizativa semelhante à que temos no Leste. Os grandes facilitadores disto são, por certo, os partidos que competem connosco: quem atrasa a aposentação até aos 67 anos, dá presentes fiscais multi-milionários às corporações empresariais, e envia Tornados a uma guerra no Afeganistão incompatível com o direito internacional, fá-lo sem querer publicidade a favor da nova esquerda.

Gregor Gysi: Temos que fazer a obra de arte consistente aumentando pouco a pouco a nossa percentagem eleitoral nos antigos Estados [ocidentais], e nos novos Estados [do Leste] conseguir algo mais, e em nenhum caso perder. É difícil, porque mudaremos o nosso carácter, mas é bem possível.

Oposição de princípios a nível federal, participação no governo no Leste, correcto?

Greogr Gysi: Você não pode comparar o nível federal com o nível autónomo dos Estados. Podemos e devemos entrar em coligações com os governos autónomos dos Estados, se com isso pudermos melhorar a situação das pessoas, e ainda estando também assim ligados pelo direito federal e pelo direito europeu. Nós não somos uns sonhadores que se limitam a escrever programas para serem realizados dentro de 50 a 100 anos.

Oskar Lafontaine: O debate sobre a Realpolitik é um debate artificial. Eu mesmo fiz Realpolitik durante 25 anos como administrador regional, como presidente de governo autónomo, e como ministro federal das finanças.

Não é só a União [cristã- democrata] que tem a sua "guerra de refeitório"; também o Partido da Esquerda tem. Christa Müller, porta-voz para os assuntos de família na esquerda do Sarre, dá razão ao Bispo Mixa, segundo o qual as mães profissionalmente activas se viram degradadas à condição de "máquinas de parir". E a mesma porta-voz manifesta-se contra "organizar-se uma vida fora de casa" às crianças no interesse da economia. É certo que: Christa Müller é a esposa de Oskar Lafontaine...

Oskar Lafontaine: Christa Müller não fez expressamente sua a expressão "máquinas de parir". Nós somos a favor da oferta de refeitórios infantis e, igualmente, da possibilidade de que os pais possam educar e cuidar dos seus filhos no primeiro ano. As famílias com rendas baixas agora não têm qualquer possibilidade de escolha, porque pai e mãe normalmente têm de trabalhar para poder dar de comer à sua família. Opções só têm os que ganham mais. E este é um desenvolvimento erróneo da nossa sociedade. Mixa tem razão ao criticar as propostas da senhora Von Leyen, que apontam sobretudo para que as mulheres com qualificações possam regressar o mais depressa possível à vida profissional. Este não pode ser um objectivo da política familiar, porque esta tem de estar ao serviço do bem da criança, e não dos interessas da economia. 

Gregor Gysi: No meu partido, todas as portas estão abertas à reivindicação de mais refeitórios. A maioria das mulheres da Alemanha oriental que utilizaram os refeitórios infantis teve uma experiência positiva, porque tal evitou que descuidassem os seus filhos. Na minha opinião, qualquer decisão que os pais tomem merece respeito e apoio. Por isso queremos ambas as coisas: mais locais de assistência e cuidado, necessários sobretudo no lado ocidental da Alemanha, e dinheiro para a educação, o que permite também àqueles com salários baixos cuidar dos filhos no próprio lar.

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