Despesismo e prémios injustificados na saúde

03 de janeiro 2011 - 13:30

O Tribunal de Contas (TC) volta a falar em desperdícios na Saúde, criticando os cerca de 150 mil euros de prémios pagos a três directores do Serviço de Utilização Comum dos Hospitais (SUCH), criado em 1965 com o objectivo de rentabilizar o rendimento económico dos hospitais.

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Prémios pagos por objectivos que não se cumpriram, 25 carros distribuídos para fins não apenas profissionais, tudo somado foram 154 mil euros gastos pelo SUCH.

Despesismo, prémios injustificados, falta de estudos fundamentados e desrespeito pelas regras da concorrência. Estas são apenas alguns dos problemas apontados numa auditoria do Tribunal de Contas às aquisições de bens e serviços das instituições do Serviço Nacional de Saúde através do SUCH.

“O objectivo principal da auditoria foi a avaliação da racionalidade económica da actividade desenvolvida pelo Serviço de Utilização Comum dos Hospitais ou por entidades por ele participadas relativamente a entidades do sector público e, acessoriamente, a análise da legalidade e regularidade dos procedimentos”, lê-se na auditoria do Tribunal de Contas.

A auditoria do TC mostra que só em dois anos, 2007-2008, estes três directores comerciais do SUCH receberam em prémios quase 130 mil euros, mais de 11 mil euros foram pagos a outros colaboradores e o trabalhador do ano, já antes premiado, recebeu mais de 12 mil euros.

São valores, sentencia o Tribunal de Contas, que não contribuem para a sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde (SNS).

Mas os números não ficam por aqui. Foram distribuídas 25 viaturas a administradores e colaboradores para fins que não exclusivamente profissionais, com valores de renting mensais que podem chegar aos 1150 euros, e pagas despesas de representação 14 vezes por ano, o que contraria a lei.

No documento pode ainda ler-se que situações destas contribuíram para a deterioração da situação económico-financeira do SUCH, que apresentou resultados líquidos negativos de 4,4 milhões de euros em 2008 e de 5 milhões em 2009.

Prémios sem objectivos cumpridos

Segundo o TC, não faz sentido atribuir prémios de cobrança de dívidas, como fez o SUCH, já que “que aproximadamente 90 por cento do volume de negócios (...) respeita a entidades públicas” sendo “o risco de incobrabilidade de dívidas muito reduzido, apesar dos elevados prazos médios de pagamento praticados, pelo que a atribuição de prémios de cobrança não acautela a boa gestão dos recursos, redundando num despesismo injustificado”. Os responsáveis pela auditoria salientam, ainda, que o prémio anual atribuído aos directores comerciais “representa o equivalente a aproximadamente 5 meses do respectivo salário base, o que não pode deixar de se considerar excessivo” e criticam prémios pagos quando os objectivos contratualizados não foram alcançados.

A auditoria permitiu também perceber que os custos com as remunerações pagas aos membros do conselho de administração do SUCH cresceram mais de 50 por cento entre 2006 e 2008, para quase 1,4 milhões de euros, e que os abonos de despesas de representação foram pagos com valores superiores aos das categorias dos gestores e 14 vezes por ano em vez das 12 estipuladas, sem que nunca tivesse havido qualquer deliberação da comissão de vencimentos.

Além disso, nas suas conclusões, a auditoria sublinha que “nas aquisições de bens e serviços ao SUCH, as entidades públicas associadas, nem sempre têm aplicado o regime jurídico da contratação pública e garantido os requisitos gerais para a autorização da despesa, nomeadamente os da economia, eficiência e eficácia, o que não tem contribuído para uma gestão criteriosa dos recursos públicos”, cita o jornal Público. E acrescenta: “Nenhuma das entidades públicas aderentes dos serviços partilhados de gestão de recursos humanos efectuou estudos que fundamentassem a decisão de adesão àqueles serviços, fundamentando-se apenas em estudos da entidade adjudicatária onde eram evidenciados acréscimos de custos, para o Erário Público, com as referidas adesões.”