Taiwan: o tigre com falta de água

02 de May 2015 - 15:18

País enfrenta a maior seca da década e está em vigor um racionamento que afeta cerca de 800 mil famílias e negócios. Seca atinge também de uma forma grave, as Filipinas e São Paulo, no Brasil. Por Tomi Mori.

porTomi Mori

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As alterações climáticas estão a afetar o clima em muitas partes do mundo. http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/6/65/CSIRO_ScienceImage_429_Drought_Effected_Landscape.jpg
As alterações climáticas estão a afetar o clima em muitas partes do mundo. http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/6/65/CSIRO_ScienceImage_429_Drought_Effected_Landscape.jpg

A seca que afeta Taiwan está a obrigar as autoridades a declarar uma medida extremamente impopular: o racionamento de água. Desde abril, o racionamento tem atingido partes da ilha, como as cidades de Taoyuan, Hsinchu e Nova Taipei. Este racionamento afeta cerca de 800 mil famílias e negócios.

É a maior seca na última década, provocada pelo mais baixo índice de chuvas nos últimos 70 anos. O racionamento, rotativo, deixará a população sem água durante dois dias, na semana, por tempo indeterminado. Numa ampla área da Ásia, a estação das chuvas só começa em junho e, agora, vive-se um momento de grande calor.

O racionamento de água não ocorre desde 2001, mas deixa claro que as mudanças climáticas, que estão provocando essas secas, podem ser muito mais graves do que desejamos acreditar. A Califórnia, nos EUA, encontra-se em racionamento, também Cebu, nas Filipinas, segue pelo mesmo caminho.

A partir do dia 4 de maio, começará o racionamento de água em Kaohsiung, a segunda cidade desse tigre asiático. Será cortado o abastecimento por dois dias durante a semana. Kaohsiung tem uma população de 2,77 milhões de habitantes e é a primeira vez na sua historia que passará por essa situação. Desde março já foram tomadas iniciativas de fechar 12 piscinas publicas. Também foi reduzido o fornecimento para a industria e comércio.

Seca afeta grande parte do arquipélago filipino, Zamboanga em estado de calamidade pública

A imprensa local tem noticiado que grande parte das províncias desse arquipélago tem sofrido o problema da seca este ano.

Manila já apresentou uma temperatura de 36,2 graus centígrados este ano e o alto verão apenas está a começar. Em Batangas, na ilha de Luzon, principal do arquipélago, onde também se encontra Manila, criadores de gado afirmam que a seca tem afetado não só a agricultura como também a pecuária. A seca causou grande dificuldade para o crescimento do capim, necessário para a alimentação do gado. Apesar de não existirem números gerais, a imprensa tem veiculado que, em várias localidades o gado morreu devido ao calor.

Na província de Cebu, onde se encontra a cidade de Cebu, segunda das Filipinas, a seca já tem levado ao racionamento de água nos últimos dias, particularmente em Talisay e também em partes da capital. Devido à seca, as autoridades têm desaconselhado os agricultores a plantarem as suas sementes e mudarem para culturas mais rápidos como a beringela, por exemplo. Essa situação não só afeta agora a população local, mas já parece agravar o futuro imediato se os agricultores deixarem de plantar ou diminuirem o plantio.

Em Mindanao, segunda ilha do arquipélago, a situação parece mais grave. Em Zamboanga, as autoridades decretaram estado de calamidade pública devido à seca, que tem provocado um grande impacto na agricultura, afetando a colheita do milho, mandioca, arroz, vegetais, banana, borracha, coco e também a piscicultura, já que os lagos estão a secar. Segundo autoridades de Zamboanga, das 25 barragens, 9 estão secas, 6 em condições criticas e 10 abaixo do nível normal. A seca já afetou a plantação em 8.500 hectares, mas esse número será maior ainda já que maio é o mês mais quente do ano.

Na província de Davao del Sur, também na ilha de Mindanao, a Liga dos Prefeitos aprovou uma declaração para que se adote o estado de calamidade pública devido à seca. Em Matanao, nessa província, a seca já afetou a produção em 500 hectares, agravando mais ainda a já grave situação. dos pequenos camponeses.

Camponeses suicidam-se na Índia

Os efeitos das mudanças climáticas, que provocam seca e também chuvas fora da estação, têm afetado de maneira insuportável milhares de camponeses na Índia. A miséria já vivida, o endividamento com os bancos e a perda das colheitas, tem levado um grande número de camponeses da Índia ao suicídio.

Autoridades locais tentam negar esse facto, mas, na última quarta-feira, o suicídio de Sanwar Mal Jat, de 35 anos, deitou por terra esse argumento. Sanwar enforcou-se no teto da sua casa, deixando mulher e três filhos. A perda da colheita desse ano levou Sanwar a essa atitude extrema. Apesar dos argumentos oficiais, no Rajasthan, entre fevereiro e marco deste ano cerca de 50 camponeses optaram pelo suicídio como único remédio frente a uma situação humanamente insuportável.

Em São Paulo, comando militar prepara-se para enfrentar falta de água

Segundo divulgou o site Opera Mundi, foi realizado,no dia 28 de abril, uma reunião no quartel-general do Exército, na cidade de São Paulo, cuja agenda foi discutir a falta de água na cidade de São Paulo, que já afeta a população. São 20 milhões de habitantes que serão afetados caso não haja chuva suficiente no próximo período, coisa pouco provável já que a cidade se encontra no período do ano em que as chuvas são poucas. Segundo o site da Sabesp, a empresa responsável pelo abastecimento de água, um dos principais reservatórios de água da cidade, o sistema Cantareira, tem o seu volume em 20%. Esse é um número que deveria ser de simples compreensão, mas os malabarismos estatísticos não permitem à população compreendê-la realmente. Sabemos que, desse total, a maior parte só pode ser utilizada através de bombeamento, já que o número é extremamente baixo. Sabemos também que o total de água existente não pode ser utilizável pela insuficiência de bombas. Então, quanto resta de água utilizável? Esse parece ser um número secreto, para que não se crie uma situação de crítica ao governo e também de pânico. Mas é certo, pela própria informação da Sabesp, que estamos a falar de menos de 20%.

O auge da situação pode ser no mês de julho

De acordo com Paulo Massato, presidente da Sabesp: "Vai ser o terror. Não vai ter alimentação, não vai ter energia elétrica. Será um cenário de fim do mundo. São milhares de pessoas e o caos social pode se deflagrar. Não será só um problema de desabastecimento de agua. Vai ser bem mais sério que isso..."

A explicação de Paulo Massato, ao restrito auditório, deixa bem clara a dimensão da crise da água que afetará São Paulo nos próximos meses. É essa situação dramática que obriga os militares a se prepararem para enfrentar grandes protestos que podem ocorrer.

Como vemos, neste período do ano, as mudanças climáticas estão a afetar uma ampla área do planeta.

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Tomi Mori