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Tiago Rodrigues com Marisa: “Haverá melhor símbolo do nosso desejo de um futuro melhor?”

Leia aqui a intervenção do mandatário da candidatura de Marisa Matias no comício virtual da passada sexta-feira.
Tiago Rodrigues
Tiago Rodrigues no comício virtual de Marisa Matias. Foto de Ana Mendes.

Intervenção de Tiago Rodrigues no comício online da campanha presidencial de Marisa Matias a 11 de Dezembro de 2020:

É uma honra estar aqui esta noite. E um prazer invulgar, por vários motivos. Em primeiro lugar, porque este não é o tipo de palco a que estou habituado a subir, mas há momentos cruciais na nossa vida e na vida do nosso país em que temos de entrar em cena para estar ao lado de quem está ao nosso lado. Por isso, estou aqui hoje, ao lado da Marisa Matias. Em segundo lugar, porque estamos na Amadora, a minha cidade. Esta é a cidade onde cresci, exposto à beleza da diversidade cultural. A cidade onde convidei o meu melhor amigo de infância com quem jogava à bola na rua para vir almoçar a minha casa e ele comeu feijoada à transmontana pela primeira vez, a cidade onde o meu melhor amigo me convidou para ir almoçar a casa dele e eu comi cachupa pela primeira de muitas, demasiadas vezes.

Esta é a cidade onde passei muitas tardes na sala de espera do centro de saúde, aguardando que a minha mãe, médica de família, terminasse as consultas enquanto os utentes que esperavam a sua vez tomavam conta de mim e me contavam a suas histórias. Cada pessoa com o seu sotaque diferente - alentejano, minhoto, açoriano, cabo-verdiano - todas reunidas naquela sala de espera. E se menciono essas tardes da minha infância na sala de espera no Centro de Saúde da Amadora é porque, quando ouço a Marisa Matias defender intransigentemente o nosso Serviço Nacional de Saúde e o direito de todos a serem cada vez mais protegidos, é nessas pessoas da sala de espera que eu penso, nesses sotaques, nessas histórias que alargaram a minha visão do mundo, penso na minha mãe e em todos os seus colegas profissionais de saúde que continuam a lutar por nós e pelos quais temos a obrigação de lutar.

A Amadora é também a cidade onde comecei a fazer teatro, numa escola secundária parecida com esta, pela mão de um professor de Sociologia – curiosamente, a Marisa Matias também já deu aulas de Sociologia. Foi na Escola Secundária da Amadora que o meu primeiro mestre, o moçambicano Jorge Pité me ensinou, a mim e a tantos outros, as lições fundamentais de fazer teatro em português, mas também de ser pessoa em qualquer língua, de ser um cidadão fraterno independentemente das fronteiras que nos rodeiam. Por isso, quando ouço a Marisa Matias defender que não há Liberdade sem Educação, que não há Liberdade sem Cultura, penso no Pité e em tantos professores como ele, que fazem muito mais do que aquilo que devem, que fazem tanto por vezes com tão pouco, para garantir a crianças e jovens um percurso escolar de qualidade, tentando fazer da escola um lugar de educação para a cidadania e para os valores humanistas e democráticos.

Por tudo isto, porque estou em casa, na minha cidade, embora fora do meu palco habitual, é com emoção e orgulho que estou aqui hoje.  

Estou ao lado da Marisa Matias porque acredito que, com a sua convicção e a sua coragem, é a melhor intérprete das angústias e das esperanças dos portugueses, independentemente dos seus sotaques ou da sua condição.

Estou ao lado da Marisa Matias porque acredito na Presidência da República.

Há quem não partilhe da minha convicção. Há quem diga que a Presidência da República é apenas simbólica. A esses, eu respondo: não é apenas simbólica, mas mesmo que fosse, os símbolos contam. Cantar a Grândola não é o mesmo que cantar o hino da mocidade portuguesa. Um cravo é diferente de uma rosa. Por isso, mesmo que fosse apenas um símbolo, Marisa Matias no Palácio de Belém significaria que tínhamos a primeira mulher Presidente da República da nossa democracia. Haverá melhor símbolo do nosso desejo de um futuro melhor?

Também há quem diga que a Presidência da República é apenas exercício de influência. Eu respondo: não é apenas influência, mas mesmo que fosse, querem melhor pessoa para influenciar a vida pública do que Marisa Matias, a mulher que obteve mais votos de sempre em qualquer campanha presidencial, especialmente num país onde as mulheres ainda enfrentam tantos obstáculos à segurança, à liberdade, às condições de vida e à realização das suas aspirações? Querem melhor pessoa para influenciar a política portuguesa do que Marisa Matias, com o seu currículo exemplar como deputada europeia, a sua capacidade negociação e de criação de consensos para defender os direitos de quem não se pode defender, as liberdades e garantias de quem não as pode conquistar?

Mas a Presidência da República não é só um símbolo, nem é apenas influência. É muito mais do que isso. A Presidência da República é a primeira e última linha de defesa da nossa Constituição, esse texto entre os mais belos, que no seu primeiro artigo afirma que a nossa República é “baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular e empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária”.

Eu trabalho em teatro e estou habituado a distribuir papéis por actrizes e actores. Por isso fiz um pequeno exercício de imaginação. Imaginem que, para ser candidato à Presidência, era preciso interpretar com credibilidade este texto: “a nossa República é baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular e empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária”. Asseguro-vos que há pelo menos um candidato que não teria qualquer hipótese de passar nesta audição. Duvido até que conseguisse dizer este texto até ao fim sem se engasgar.

Quanto à audição da Marisa Matias, não hesitaria em convidá-la para o papel principal, a Presidência da República. Porque eu vejo aquilo que os portugueses também veem: a Marisa não precisa de representar. O texto parece escrito para ela. As três palavras com que termina o primeiro artigo da nossa Constituição são a expressão perfeita das qualidades que tornam a Marisa Matias a melhor candidata à Presidência da República. Livre, justa e solidária.
 
A Presidência da República não é, seguramente, um papel para ser desempenhado por quem não acredita na nossa Constituição. Mas também não pode ser desempenhada por quem apenas timidamente lhe obedece. A Presidência da República é um papel para quem acredita na Constituição e age em defesa da nossa democracia.

É um papel para quem se bate pela nossa economia, mas não cede aos grandes interesses financeiros. É um papel para quem exige contas claras à banca e está ao lado dos trabalhadores, mesmo quando as câmaras de televisão não aparecem.

É um papel para quem se bate pelo direito constitucional à fruição e criação cultural, pelo acesso democrático às artes, por condições dignas para os trabalhadores da área e não para quem apenas usa a Cultura na lapela nos dias de festa.

É um papel para quem não hesita na defesa do ensino público, do serviço nacional de saúde, de políticas ambientais audazes e corajosas, do direito à habitação, do combate ao racismo e a qualquer forma de intolerância.

É um papel para a Marisa Matias.

Por isso, deixo este apelo as todas as pessoas de todos os sotaques, estejam em salas de espera de centros de saúde ou em salas de aula de escolas, estejam em teatros ou em fábricas, estejam onde estiverem, para retribuírem a convicção e a coragem da Marisa Matias com o vosso voto.

Nas próximas eleições presidenciais, votar na Marisa Matias é votar na sociedade que nos promete a Constituição da República. Uma sociedade mais livre, mais justa e mais solidária. Ou, como estamos na Amadora, uma sociedade bué mais livre, bué mais justa e bué mais solidária.

Obrigado, boa noite.

Tiago Rodrigues

 

 

 

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