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Sem-abrigo: a resposta solidária e as necessidades numa crise prolongada

Beatriz Farelo e Hugo Evangelista são voluntários no apoio aos centros de acolhimento aos sem-abrigo em Lisboa. Apresentam aqui a sua experiência e as escolhas políticas feitas e por fazer nesta vertente da crise sanitária e social.
Sem-abrigo: a resposta solidária e as necessidades numa crise prolongada
Fotografias de Ana Feijão.

Nas últimas semanas, após o início do plano de contingência em resposta ao Covid-19, dezenas de pessoas têm prestado um apoio urgente nos centros de acolhimento às pessoas em situação de sem abrigo da cidade de Lisboa.

Após termos participado neste trabalho vários dias, decidimos partilhar a nossa experiência.

Este trabalho que se reinventa no dia a dia, expõe aquilo que já sabemos: que a pobreza não é simples e que para mudar a vida das pessoas é preciso materializar a justiça social.

Este trabalho expõe uma realidade crua. Temos a oportunidade de falar e perceber a vida de várias pessoas que estão nestes centros de acolhimento, cada um e cada uma com um caso diferente. Cada uma destas histórias realça um preconceito da sociedade, uma lei desajustada, ou a falta de uma resposta social a montante. Há pessoas em situação de sem-abrigo que são trabalhadores com salários muito baixos, como precários do Aeroporto de Lisboa ou imigrantes ainda sem papéis que fazem remodelações de habitações em Lisboa; há pessoas trans e casais homossexuais que foram vítimas de maus-tratos pela família, e preferiram fugir de casa mesmo sem ter para onde ir; muitos que queriam ter casa mas os preços são proibitivos, incluindo pensionistas com uma reforma mísera; outros que ou perderam o emprego, ou começaram a ter problemas de saúde ou problemas com consumos e perderam tudo, não tiveram amparo de ninguém, e que agora resistem a uma cidade que os empurra para as ruas e diz não ser sua.

Um sem-abrigo não #FicaEmCasa

Mas comecemos pelo início. A situação das pessoas em condição de sem-abrigo agravou-se dramaticamente com esta pandemia.

Em primeiro lugar, porque não podem cumprir a indicação de “ficar em casa”, não podem isolar-se, manter distanciamento social, nem garantir a sua higiene frequente.

Também estão mais susceptíveis a problemas de saúde, com 3 vezes mais probabilidade de ter doenças crónicas do sistema respiratório ou cardíaco que tornam o seu quadro clínico muito mais crítico em caso de infecção.

Para além disso a quantidade de pessoas voluntárias que lhes prestava apoio diário reduziu-se drasticamente (seja porque pertencem a grupos de risco, porque estão em assistência à família, por simples receio de contágio, etc...). Também a maioria dos restaurantes, parceiros neste apoio, fecharam ou reduziram muito a sua actividade.

A primeira resposta: centros de acolhimento

Uma das respostas mais eficazes na resposta imediata tem sido a abertura de centros de acolhimento, muitos criados em pavilhões desportivos por agora fechados. Só em Portugal há neste momento 14.


Ver FOTOGALERIA Voluntários pelas pessoas sem-abrigo


A Câmara Municipal de Lisboa, através da equipa do vereador do Bloco de Esquerda, Manuel Grilo, é responsável por quatro destes centros de acolhimento, criados para auxiliar as pessoas em situação de sem-abrigo e dar-lhes segurança e conforto neste período de pandemia.  Nestes centros de acolhimento, abertos 24 horas por dia, 7 dias por semana, é realizado um rastreio de saúde diário e estão disponíveis banhos quentes, refeições e um local para dormir distanciado dos restantes.

 

O papel do apoio solidário

Este plano de contingência é de uma enorme dimensão, dificilmente comparável com outros planos de contingência anteriores. Por isso, esta resposta só é possível graças à participação de muitas pessoas, que todos os dias de forma incansável e militante garantem o apoio fundamental e urgente proporcionado por estes centros.

É importante reconhecer a importância dos cuidados enquanto principal agente no combate à pandemia do Covid-19. E é por isso que devemos esta luta diária a todas e todos os trabalhadores essenciais, aos profissionais de saúde, às trabalhadoras das limpezas, e a todas e todos os funcionários municipais que dão apoio às pessoas em condição de sem-abrigo.

Uma resposta inerente à militância de esquerda. Uma esquerda que não recua para a simples lógica assistencialista, mas que é capaz de criar redes solidárias horizontais e agir ativamente quando mais é precisa.

Qualquer pessoa pode inscrever-se para prestar apoio nestes centros de acolhimento, desde que esteja em Lisboa, não faça parte de um grupo de risco nem esteja a prestar assistência alguém de um grupo de risco, e tenha mais de 18 anos. Para isso basta inscrever-se no site da Rede Solidária.

A indiferença perante os últimos

Face à necessidade de dar uma resposta e minimizar o impacto da pandemia neste grupo tão exposto, várias cidades por todo o mundo deram respostas diferentes, que vale a pena conhecer e comparar.

Em Itália e França, no início da pandemia, a polícia chegou a multar pessoas em condição de sem-abrigo por estarem na rua. Os sítios mais abrigados onde costumavam estar tinham sido fechados e, sem outra solução, a polícia não hesitou em aplicar-lhes a legislação em vigor.

Em Nova Deli e Nova Iorque os sem-abrigo continuam em vários abrigos e sem triagem, tais como camaratas com 20 pessoas, contabilizando já dezenas de casos de infeção registados e várias mortes dentro deste grupo.

De Las Vegas chega-nos um exemplo mais positivo mas insólito: “Sem-abrigo dormem num parque de estacionamento” lê-se nas notícias. O que se ganhou em distanciamento social e segurança perdeu-se em falta de conforto no chão de cimento duro e frio. Face à existência de outros espaços vazios com mais condições, fica por descobrir o motivo de tal escolha.

Alojamento em hotéis requisitados

Por fim, de Londres, Paris, Praga, Barcelona, algumas cidades dos EUA como São Francisco e Seattle, Mainz (na Alemanha) e Perth (na Austrália) chega outra resposta: o alojamento temporário em hotéis. Os preços dos quartos são negociados com os hotéis. É uma situação em que todos ganham, porque os sem abrigo passam a ter acesso a um quarto com todas as condições, e o hotel passa a ter uma fonte de rendimento em vez de estar vazio.

Esta solução demonstra também que o direito universal à habituação não é uma utopia assim tão distante, e que é possível encontrar soluções que estejam mais preocupadas com a integração e não apenas com o assistencialismo da pessoa em situação de sem abrigo.

Neste sentido, o vereador do Bloco em Lisboa veio recentemente defender este tipo de alargamento do acolhimento de emergência, propondo a utilização de espaços públicos, como quartéis e escolas, ou privados, como hotéis e alojamento local, para albergar de forma digna os sem-abrigo de Lisboa.

Nos próximos dias ver-se-á que resposta dá o governo e os outros intervenientes, públicos e privados, ao apelo do município.


Artigo de Hugo Evangelista e Beatriz Farelo.

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