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A Psicologia da pandemia: é importante manter rotina e contactos

Ansiedade, medo, aumento de racismo, compras por pânico, hipocondrias mas também solidariedade. Nesta entrevista, Steven Taylor fala à Agência Pública sobre o livro que lançou em dezembro com a sua análise sobre os grandes surtos pandémicos dos últimos séculos.
Capa do livro Psicologia da Pandemia. Fonte Universidade da Colúmbia Britânica.
Capa do livro Psicologia da Pandemia. Fonte Universidade da Colúmbia Britânica.

O comportamento das pessoas em pandemias, bem como o papel da psicologia na disseminação e na contenção de infeções, é o objeto de estudo de Steven Taylor, professor do Departamento de Psiquiatria da Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá. Em dezembro de 2019, poucas semanas antes de o coronavírus começar a espalhar-se e ganhar proporções pandémicas, Taylor lançou o livro A psicologia da pandemia, resultado de dois anos de pesquisas sobre os grandes surtos que afetaram a humanidade em décadas e séculos passados.

“[O comportamento dos governantes] é extremamente importante por várias razões. Os líderes do governo precisam liderar pelo exemplo, precisam mostrar às pessoas quais são as coisas importantes que elas devem fazer”, afirma Taylor. Para ele, “se o público não confiar no seu líder ou não confiar nas autoridades de saúde, não fará o que elas dizem”.

Em entrevista exclusiva à Agência Pública, o pesquisador destacou a importância de estabelecer uma rotina e manter contacto virtual com amigos e parentes para conseguir sobreviver ao período de isolamento social. “A história nos ensinou que as pessoas são resilientes, as pessoas são fortes. Nós não gostamos dessa situação, estamos stressados com essa pandemia, mas ela vai acabar e vamos passar por isso.”

O que é a psicologia da pandemia? E o que você tratou nos seus estudos e livro que diz respeito ao momento que vivemos com a Covid-19?

Bem, é uma grande área. Eu olhei para as pandemias quando comecei a minha investigação, há dois anos. Eu percebi que a psicologia desempenha um grande papel na disseminação e na contenção de infeções, e no sofrimento emocional e no comportamento que as pessoas exibem. Isso é a psicologia da pandemia.

Há muitas coisas para aprender. O que estamos aprendendo com a pandemia atual é que as coisas que vemos agora são muitas das que vimos nas pandemias passadas: a ascensão do racismo, grande número de pessoas hipocondríacas que interpretam mal sintomas comuns e se dirigem para hospitais preocupadas com terem Covid-19. Vimos compras motivadas por pânico nas pandemias anteriores, como estamos vendo novamente. Mas também estamos vendo a ascensão da solidariedade das pessoas, unindo-se, apoiando-se e ajudando-se mutuamente.

As pandemias não são como as representadas nos filmes de Hollywood, com caos e tumultos.

Como lidar com o sofrimento emocional associado às pandemias?

Isso depende do que mais preocupa a pessoa. É importante entender a fonte da sua angústia. Algumas pessoas têm problemas emocionais preexistentes que as levam a ficar muito angustiadas com a pandemia e esses problemas precisam ser resolvidos. Algumas pessoas estão a passar muito tempo lendo informações assustadoras nos meios de comunicação social ou em redes sociais e a obter desinformação. Para essas pessoas, pode ser melhor limitar a quantidade de notícias e posts em redes sociais que elas leem sobre a pandemia. Outras pessoas têm preocupações legítimas. Algumas têm sérias condições médicas que as colocam em risco em caso de infeção. Outras estão ansiosas porque sofrem dificuldades económicas reais provocadas pelo distanciamento social.

O que há de semelhanças e de diferenças no comportamento das pessoas nesta pandemia em relação às anteriores?

O que estamos a ver hoje é muito semelhante ao que vimos nas pandemias anteriores. A ansiedade, o aumento do racismo, mas também da solidariedade, da ajuda mútua. O que torna esta diferente das anteriores é que é a primeira vez na história da humanidade que temos as redes sociais e a internet durante uma pandemia. Então, nesta pandemia, estamos todos conectados globalmente e isso significa que a desinformação pode se espalhar muito mais rapidamente. Isso inclui informações úteis, mas também informações falsas que podem assustar as pessoas. Mas o que também torna essa pandemia diferente é que, como todos nós estamos conectados globalmente pela internet e pelas redes sociais, somos capazes de oferecer apoio uns aos outros, mesmo que estejamos socialmente isolados.

Há muito mais fluxo e velocidade de informação hoje do que na época de outras pandemias. De que forma isso influencia o comportamento das pessoas em um cenário como esse? O efeito é mais positivo ou negativo?

Isso pode influenciar o comportamento das pessoas de várias maneiras. Pode influenciá-las a açambarcar produtos por medo. Por exemplo, no início da pandemia, as pessoas de países onde não havia infeção estavam a ver reportagens sobre países infetados, então isso poderia aumentar a ansiedade das pessoas. Se você vê pessoas num país açambarcando mantimentos, isso pode levar as pessoas de outro país a fazer o mesmo. Isso pode fazer o medo espalhar-se.

Aqui no Brasil, apesar do aumento do número de casos, o presidente já chamou a pandemia de “fantasia” e “histeria”. Contra todas as recomendações, ele incentivou a realização de manifestações populares a seu favor, cumprimentou e tirou selfies com apoiantes. Qual a importância e de que forma o comportamento dos governantes pode influenciar a população em uma pandemia?

É extremamente importante por várias razões. Os líderes do governo precisam liderar pelo exemplo, precisam mostrar às pessoas quais são as coisas importantes que elas devem fazer. O líder do governo no Canadá, por exemplo, o primeiro-ministro Trudeau, está em auto-isolamento, porque a sua esposa foi infetada pelo Covid-19. Ele está a mostrar às pessoas o que se deve fazer: ao entrar em contacto com alguém [infetado], você deve isolar-se. Ele está a liderar pelo exemplo. Isso é realmente importante, porque as pessoas buscam nos líderes inspiração e conselhos de como se comportar.

Outra razão é a confiança pública. Se o público não confiar no seu líder ou não confiar nas autoridades de saúde, não fará o que elas dizem. Você pode garantir a confiança pública fornecendo informações precisas em tempo hábil, ser visto como confiável e transparente, além de reconhecer as incertezas.

Agora, se não se confia no governo, isso tem implicações realmente importantes. Foram realizadas pesquisas durante o surto de ébola na África, em Monróvia, na Libéria. Essa investigação mostrou que as pessoas que não confiavam no governo não cumpriam o distanciamento social e isso para o ébola, que é uma doença muito, muito séria. Isso mostra o quão importante é para o governo garantir que o público o veja como confiável.

Quais são os efeitos psicológicos do distanciamento social e de uma quarentena? Isso impacta mais as pessoas idosas?

Os idosos são uma preocupação porque eles sofrem com o isolamento social, muitos deles já estão sozinhos. E agora estão pedir-lhes que se isolem por meses. Isso aumenta a preocupação de que os idosos se sintam solitários ou deprimidos. Por isso é importante que todos nós ofereçamos ajuda às pessoas idosas de nossa comunidade, que ofereçamos qualquer apoio que eles precisarem.

Durante o surto de SARS, descobrimos que houve um aumento no número de suicídios entre os idosos em Hong Kong, que estavam preocupados em tornar-se um fardo para a família ou outras pessoas. Esse é um problema realmente sério, nós devemos certificar-nos de que os idosos recebem todo o apoio que quiserem ou precisarem.

Como manter a sanidade em tempos de pandemia? Como recuperar a sanidade quando ela acabar?

Essa é uma boa pergunta. Se estiver em isolamento, é importante planear o que vai fazer, ter uma estrutura durante o dia, organizar o seu tempo. É importante entrar em contacto com familiares ou amigos através das redes sociais ou mensagens de texto. Também limite a quantidade de tempo que gasta lendo conteúdo assustador nas redes sociais. Tenha cuidado com o que você lê.

As pessoas precisam perguntar-se: “Essas histórias que estou a ler são verdadeiras ou falsas?”. As pessoas estão a ficar muito boas em divulgar notícias falsas; portanto, tenha cuidado com as notícias alarmistas. Essa é uma questão importante.

Considerando o impacto na vida das pessoas, essa pandemia de Covid-19 tem precedentes?

Em algumas pandemias anteriores, a taxa de mortalidade foi muito maior. A pandemia de Covid-19 é séria, mas a gripe espanhola matou muito mais pessoas, assim como a peste bubónica. Portanto, sim, outras pandemias também tiveram enormes impactos.

Mas, no estilo de vida das pessoas, tem algum precedente?

Sim. Em pandemias anteriores, as pessoas também foram solicitadas a isolar-se e houve um aumento do racismo em alguns lugares. Nós temos precedentes. A boa notícia é que os humanos sobreviveram a muitas pandemias no passado. Muitas, muitas outras mais sérias que esta, então vamos sobreviver. As pessoas costumam esquecer, mas é importante saber, perceber ou lembrar que os seres humanos são resilientes. Nenhum de nós gosta de ficar socialmente isolado, não gostamos do fato de não podermos continuar com nossa vida, achamos stressante, mas vamos sobreviver. Nós vamos lidar com isso. Assim como as pessoas no passado lidaram com pragas e outras pandemias.

Aqui no Brasil, assim como em outros lugares do mundo, as pessoas correram aos supermercados e farmácias e esgotaram os stocks de papel higiénico, máscaras e álcool em gel. Por que é que isso acontece?

Isso ocorre porque as pessoas estão assustadas. Elas estão com medo de escassez, de que haja desabastecimento, então as pessoas saem e compram demais. E outras pessoas ao redor veem essas pessoas assustadas comprando muitas coisas, e assim elas fazem o mesmo e o medo se espalha. Em Vancouver, estamos a ter excesso de compras motivadas pelo pânico, assim como no Brasil. Mas aqui algumas pessoas estão açambarcar canábis e álcool. A canábis é legal aqui, então as pessoas estão a açambarcar canábis. Pessoas que estão muito, muito assustadas e com medo de que a infraestrutura entre em colapso estão a sair, a açambarcar comida etc.

Num dos capítulos do seu livro você fala sobre um “retrato da próxima pandemia”. O que você previu certo? E o que não previu?

Primeiro, eu pensei que seria influenza, mas acabou sendo Sars-CoV-2, então não acertei isso. E quem preveria essa corrida atrás de papel higiénico? Mas tudo o resto estava certo, previsto a partir de pesquisas sobre pandemias anteriores. A ascensão do racismo, a ansiedade antecipada, o medo crescente, as compras por pânico, a corrida dos worried well [hipocondríacos] aos hospitais, preocupados com estarem doentes com a Covid-19, quando não estão. O aumento da solidariedade e do apoio social e o fato da maioria das pandemias no passado não ter se caracterizado por tumultos e conflitos sociais – embora isso tenha acontecido ocasionalmente, mas eram raros.

Estamos a ver que desta vez também houve alguns saques, assaltos, roubos de bancos de alimentos etc. Mas isso tem sido relativamente raro.

Nesta pandemia, assim como nas outras, tem havido um aumento das teorias da conspiração. Vimos isso em todas as outras pandemias, essa previsão também estava certa. Uma previsão que coloquei no livro, mas que espero que não se torne realidade é em relação às vacinas. Em pandemias passadas, muitas pessoas não foram se vacinar, mesmo que houvesse uma vacina. A minha preocupação é que isso também aconteça desta vez. A hesitação com vacinas é um grande problema, porque será difícil conter a propagação da infeção se as pessoas não forem vacinadas.

Você afirma num artigo que passou a estudar o tema após ler com frequência que a próxima pandemia estava a chegar. Por que essa previsão estava certa?

Porque as pandemias sempre estiveram por aí. Elas sempre ocorreram, várias por século, mas agora as pessoas têm tanta mobilidade, com viagens aéreas e outros, que isso facilita muito a disseminação de infeções. Os virologistas previam, por conta disso, que haveria outra pandemia em breve, nos próximos anos e foi por isso que pensei que uma pandemia estava chegando. Eu [só] não pensei que chegaria tão cedo.

Que recado você daria aos brasileiros que estão, como outras pessoas no mundo, vivendo isolamento social e ansiosos com essa situação? O que a história ensina sobre o presente?

A história ensinou-nos que as pessoas são resilientes, as pessoas são fortes. Nós não gostamos dessa situação, estamos stressados com essa pandemia, mas ela vai acabar e vamos passar por isso.

E podemos superá-la focando em como lidar com isso de maneira sensata. Precisamos isolar-nos neste momento, mas não precisamos nos isolar socialmente, por isso precisamos manter contacto e ligar-nos com amigos e familiares. Isso vai passar, vamos superar isso.


Steve Taylor é psicólogo e professor na Universidade da Colúmbia Britânica.

Texto publicado na Agência Pública a 24 de março de 2020.

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