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Protestaram, foram filmados e… despedidos da Casa da Música

Vários precários da Casa da Música denunciam terem sido dispensados de trabalho já agendado em junho, meia hora depois de terem participado num protesto que tinha sido mandado filmar pela entidade. José Soeiro diz que “Administração da Casa da Música nos mostra que é sempre possível expandir as fronteiras do repugnante.”
Protesto de precários na Casa da Música. Foto do Facebook de José Soeiro.
Protesto de precários na Casa da Música. Foto do Facebook de José Soeiro.

Os trabalhadores precários da Casa da Música fizeram uma vigília esta segunda-feira em frente à instituição. Certamente não esperariam o desfecho: meia hora depois do protesto ter terminado, oito assistentes de sala que estiveram presentes receberam um e-mail do seu superior hierárquico a comunica-lhes que estavam dispensados de trabalho que tinha sido já agendado para junho.

Outros trabalhadores não presentes no protesto também receberam um e-mail semelhante. Ao todo foram 13. Todos eles tinham assinado um abaixo-assinado em abril sobre a sua situação, que contou com cerca de uma centena de subscritores.

São os próprios que contam a história em comunicado. Dizem que sofreram “represálias” por se manifestarem e que se juntam assim “aos técnicos de palco, que trabalham a tempo inteiro na Casa da Música há 15 anos e foram também proscritos” depois de terem subscrito um abaixo-assinado em abril. Estes foram “sujeitos a reuniões individuais intimidatórias, com diretores e coordenadores” e, perante “ameaças explícitas de represálias” vários acabaram mesmo por retirar assinaturas desse documentos. Dois técnicos que mantiveram a assinatura e que trabalhavam para a Casa da Música há 15 anos “em situação de falsos recibos verdes, diariamente e muitas vezes com horários desumanos” e da qual provinha a totalidade do seu rendimento, não voltaram a ser chamados para trabalhar.

Também os músicos-formadores do Serviço Educativo foram informados pelo coordenador que “não são trabalhadores da Casa da Música. São colaboradores, prestadores de serviços” e que poderiam receber “sob a forma de bolsa de horas, valores que seriam diluídos em trabalho a realizar gratuitamente no futuro”. Garantiu ainda que “este critério foi aplicado a todos os setores da Casa que têm pessoas na mesma situação”. Mas, contrariam os precários, isto “não era verdade, porque as medidas aplicadas foram muito diferenciadas: desde trabalhadores a receber 75% dos serviços cancelados, a receber apenas bolsas de horas e a não receber absolutamente nada”.

Também vários músicos do Coro e da Orquestra Barroca “foram chamados a reunir individualmente com o Diretor Artístico e o coordenador dos agrupamentos, que lhes perguntaram porque tinham assinado o abaixo-assinado”.

Filmados no protesto

Os trabalhadores denunciam ainda que um operador de câmara os tentou filmar antes de começar a sua vigília. Quando lhes perguntaram para quem trabalhava respondeu: “para a Casa da Música!” Chamado, alegam, pelo coordenador técnico, Ernesto Costa.

Este operador de câmara não foi autorizado a filmar antes do protesto. Contudo “fê-lo durante a vigília, onde se demorou a registar cada um dos participantes num vídeo a entregar depois aos responsáveis da instituição”.

Foi cerca de meia hora depois que chegou o mail onde se podia ler que “não será necessária a vossa presença nos concertos anteriormente alocados.” Os dispensados sabem que, assim, “cada concerto ficou apenas com 4 assistentes, o que mostra que a Casa da Música afastou os signatários do abaixo-assinado para recorrer a outros trabalhadores em sua substituição”.

Os trabalhadores concluem que “ao silêncio deste Conselho de Administração e da Direção junta-se agora a confirmação de como se atua na Casa da Música: com ameaças, com represálias, com um clima antidemocrático”.

Grave de mais para agirmos como se fosse apenas mais um abuso”

O deputado José Soeiro já reagiu ao sucedido, entregando imediatamente e com caráter de urgência um pedido de audição da administração da Casa da Música, da Autoridade para as Condições de Trabalho e dos representantes dos trabalhadores na Comissão Parlamentar do Trabalho e da Segurança Social.

Nas redes sociais, Soeiro considerou que o que se está a passar “é grave de mais para agirmos como se fosse apenas mais um abuso”. E sublinhou que “quando achávamos que não era possível descer mais baixo, eis que a Administração da Casa da Música nos mostra que é sempre possível expandir as fronteiras do repugnante”.

 

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