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Presidente indonésio condecora Eurico Guterres

O líder das milícias pró-Indonésia e responsável por vários massacres foi homenageado por “serviços” prestados ao país. Várias organizações da sociedade civil dizem que isso é “como meter vinagre nas feridas das vítimas” e um “mau precedente para o processo de democratização na Indonésia”.
Eurico Guterres durante o seu julgamento em 2002. Foto de WEDA/EPA/Lusa.
Eurico Guterres durante o seu julgamento em 2002. Foto de WEDA/EPA/Lusa.

Esta quinta-feira por decisão de Joko Widodo, presidente da Indonésia, o seu secretário militar, Mohamad Toni Harjono, condecorou Eurico Guterres no palácio presidencial com o prémio honorário Bintang Jasa Utama. Atualmente, este é presidente de duas organizações, o Fórum de Comunicação dos Combatentes de Timor-Leste e o Uni Timor Aswain, mas é conhecido sobretudo pelo seu papel nos massacres em Timor-Leste quando estava à frente das milícias Aitarak. Na cerimónia foram realçados os “serviços” que prestou à Indonésia.

Não é a primeira honra de Estado que recebe: a 15 de dezembro do ano passado tinha-lhe sido entregue a Medalha Patriótica pelas mãos de Prabowo Subianto, ministro da Defesa, acusado de abusos dos direitos humanos em Timor-Leste e responsável pelo seu recrutamento.

Guterres tinha sido preso em 1988 pelos serviços secretos do então presidente Suharto e passado então a apoiar a Indonésia. Depois disso, em 1994, Subiantu, integra-o nas milícias Gardapaksi.

Nas vésperas da independência de Timor-Leste, em 1999, lançou o terror como dirigente da milícia Aitarak sucessora daquela. Nessa condição, é um dos principais suspeitos do massacre da Igreja de Liquiça, em abril de 1999 e foi condenado, a 27 de novembro de 2002, pelo Tribunal Distrital Ad Hoc de Jacarta para os Direitos Humanos a dez anos de prisão pelo seu papel neste e noutros massacres e na destruição de Dili. Só começou a cumprir a pena em 2006 e dois anos depois o Supremo Tribunal reavaliou o processo e libertou-o.

Para além das suas organizações de ex-combatentes, Eurico Guterres tem tentado fazer caminho na política indonésia saltando de partido para partido. Esteve já Partido Golkar, no Partido Democrático da Luta, no Partido do Mandato Nacional, no Perindo e no Gerindra.

Ainda antes da sua prisão, tinha sido notícia no Guardian quando um jornalista o encontrou na sede da Brigada do Movimento da Juventude Islâmica, um grupo jihadista que estava a recrutar jovens para irem combater no Afeganistão. Na altura, confirmou que queria “agir” porque “o que a América está a fazer é claramente errado”.

Sociedade civil indonésia contra a condecoração

Um grupo de organizações da sociedade civil indonésia condenou publicamente a atribuição desta medalha. Organizações como a KontraS, Imparsial, ELSAM, AJAR, IKOHI e personalidades como Roichatul Aswidah, Miryam Nainggolan, Sri Lestari Wahyuningroem e Uchikowati, apelam à revogação da distinção

Numa declaração desta aliança, assinada por Fatia Maulidiyanti, considera-se que atribuir esta medalha apenas aumenta as feridas e a dor das vítimas de abusos de direitos humanos cometidos pela Indonésia e pelas milícias em Timor-Leste e confirma a impunidade destes atos: “é como meter vinagre nas feridas das vítimas. Os esforços de lidar com as violações sérias de direitos humanos, continua a enfrentar pressão e negação”; um “mau precedente para o processo de democratização na Indonésia, depois de ter emergido da prisão do autoritarismo” e uma “grave violação da moralidade e da humanidade”, defendem.

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