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Presidente chileno nega flores para Allende

Piñera não permitiu homenagem no Palácio Presidencial. No mesmo dia, o famoso documentário de Patricio Guzmán, A batalha do Chile, sobre o governo de Unidade Popular e o golpe de Estado de Pinochet, passou pela primeira vez em canal aberto na televisão depois de décadas de censura.
O corpo de Salvador Allende é retirado do Palácio La Moneda por uma porta lateral. Pinochet acabou com ela mas foi reconstruída depois do final da sua ditadura. Este ano, o presidente do Chile não permitiu a realização de qualquer homenagem neste local.
O corpo de Salvador Allende é retirado do Palácio La Moneda por uma porta lateral. Pinochet acabou com ela mas foi reconstruída depois do final da sua ditadura. Este ano, o presidente do Chile não permitiu a realização de qualquer homenagem neste local.

Este sábado assinalaram-se os 48 anos do golpe militar sangrento que instaurou uma ditadura liberal de décadas no Chile. Várias ações celebraram a memória de Salvador Allende, a maior das quais foi a marcha de cerca de sete mil pessoas até ao cemitério geral de Santiago do Chile, onde se encontra a sepultura do ex-presidente e o “Patio 29”, o lugar onde a ditadura de Pinochet sepultava as pessoas que assassinava.

Também junto à estátua de Allende, frente ao Palácio de La Moneda, houve uma outra ação, convocada por partidos e sindicatos, durante a qual se ouviu o último discurso do presidente da Unidade Popular e foram colocadas flores no local. O mesmo não pôde acontecer na porta lateral do Palácio presidencial, conhecida como Morandé 80. Foi por aí que foram retirados os restos mortais de Allende no dia do golpe e Pinochet mandou-a fechar para evitar qualquer ato simbólico. Assim ficou até 2003 quando foi reconstruida e transformada num lugar de memória. Este ano, o presidente da República, Sebastián Piñera, não permitiu que aí fossem colocadas flores ou realizada qualquer cerimónia de homenagem.

Para além disso, o governo escolheu atacar a presidente da Câmara de Santiago, Irací Hassler, por ter participado na marcha em memória de Allende. Aproveitando o facto de ter havido alguns desacatos de que resultaram seis detidos, tendo a polícia utilizado canhões de água. O sub-secretário do Interior, Juan Francisco Galil, declarou, segundo o Página 12, que “quem participou na marcha deve ser responsabilizado pelos excessos ocorridos” e que a participação da alcadesa “deve ser condenada por todos os atores políticos.”

Hassler, por seu turno, inaugurou na sede do município uma exposição de fotografias intitulada “fragmentos/memórias/imagens” e anunciou um protocolo com o Museu da Memória de forma a implementar um programa de formação em Direitos Humanos nas escolas da capital.

Para além de também ter estado presente na marcha, Gabriel Boric, o principal candidato da esquerda chilena à presidência da República visitou este mesmo museu ao qual doou a máquina de escrever de Augusto Olivares, o secretário que morreu junto ao presidente.

O candidato da Convergência Social que é também apoiado pela coligação Apruebo Dignidad, que por sua vez junta vários movimentos sociais e os partido Frente Ampla e Chile Digno, Verde e Soberano, prometeu se for eleito um plano nacional de busca pelos “desaparecidos” para que “possamos reparar esta ferida que ainda está aberta”.

A batalha do Chile, finalmente pode ser vista por toda a gente

No mesmo dia, pela primeira vez em canal aberto no Chile, pôde começar a ser visto o famoso documentário de Patricio Guzmán A Batalha do Chile no qual se conta a história da mobilização ocorrida em torno da Unidade Popular e do que se passou no golpe de Pinochet a partir de imagens gravadas, entre outros por Jorge Müller, que foi o seu diretor de fotografia, e Carmen Bueno, ambos “desaparecidos”.

A trilogia começou a ser emitida pelo canal privado La Red, depois de décadas de censura e de, mais recentemente, o canal público ter comprado os direitos televisivos da obra mas nunca a ter mostrado. Desde que foi lançada, a obra viajou porém por 34 países, sobretudo nos anos 1970 e 1980, tornando-se num documento central para compreender o que se passou no Chile.

No seu país de origem, foi vista pela primeira vez em 1997 numa exibição única para 300 pessoas numa sala de Santiago e voltou a estar na baila em 2018 quando a Cinemateca Nacional a exibiu.

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