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Pandora e o vírus escondido na caixa

Podemos vir a morrer de covid-19 ou entrar no desespero pela sobrevivência. Este é um vírus, de alguma forma, perverso na sua selectividade. Por Cristina Gentil Ferreira
Pandora, Epimeteu e caixa acabada de abrir, gravura de Sébastien Le Clerc (1676), fonte: wikipedia.org
Pandora, Epimeteu e caixa acabada de abrir, gravura de Sébastien Le Clerc (1676), fonte: wikipedia.org

Não é verosímil que Pandora entre nesta história, mas a caixa sim. Pois é pouco provável que seja por curiosidade científica laboratorial. O mais certo é que a caixa dificilmente poderia continuar fechada. Já não era mais possível conter no seu interior os males deste mundo. A voracidade do consumo e o esgotamento dos recursos para alimentar uma produção crescente. Produção obesa, na criação de bens e serviços supérfluos, desnecessários. Os consumidores atiçados pela publicidade cada vez mais agressiva nos seus métodos de sedução. Os nefastos efeitos na desregulação dos sistemas naturais. A queda do planeta no abismo, sem retorno à sua situação primeva de equilíbrio. A alienação dos indivíduos, enquanto peças desta engrenagem viciosa de produção/consumo/produção. O acentuar das desigualdades entre povos e estratos sócio-económicos. Num planeta com um crescimento demográfico explosivo.

Era, pois, inevitável que a caixa transbordasse e de lá irrompessem os quatro cavaleiros apocalípticos. A Peste trazendo a doença incurável e incontrolável. A Fome, consequência da perda de meios de subsistência. A Guerra com o seu séquito de conflitos e de desespero. Todos eles na eterna companhia da Morte, ceifeira de vidas.

No fundo da caixa, contudo, permanece a Esperança, igualmente, trazida pelo mortífero vírus. A Esperança de a humanidade retomar a harmonia e a sabedoria, entretanto perdidas.

Podemos vir a morrer de covid-19 ou entrar no desespero pela sobrevivência. Este é um vírus, de alguma forma, perverso na sua selectividade. Atinge a espécie humana, sobretudo, os velhos, os doentes e os economicamente débeis. E deixa-nos, a todos, desamparados e perplexos. Orfãos da redentora tecnologia, na qual depositávamos a nossa salvação.

Todavia, podemos também sobreviver num mundo diferente e, neste tempo que nos foi dado viver, sermos protagonistas dessa mudança.

Repentinamente, somos forçados a desacelerar e a movermo-nos na lentidão da espera.

O surgir da possibilidade de nos interpelarmos a nós mesmos leva-nos, pois, à nossa própria contemplação. À lucidez da simplicidade.

Este voltar para dentro obriga-nos a uma metamorfose e ao largar da pele antiga que nos tolhia. Impele-nos à reinvenção de nós próprios e da sociedade.

A escala de análise global mudou. A nossa área de influência passará a ser regional e local. E isso, pressupõe que tudo o que é mega passará a ser micro para sobreviver.

Conectados em rede mas com autonomia própria na gestão da produção e consumo de recursos. Este, provavelmente será o caminho da sustentabilidade e de mudança de paradigma civilizacional.

As grandes aglomerações de pessoas e de actividades envolvidas num vórtice de consumo desenfreado, já há muito tinham entrado em colapso.

Este caminho, pleno de encruzilhadas e de armadilhas, muito feito de navegação à vista, poderá conduzir-nos a algo novo, de sabedoria antiga e ancestral. De ligação profunda ao outro e ao mundo natural.

Este é um momento único, quer a nível do indivíduo, quer enquanto sociedade.

Daí o entusiasmo do desafio, apesar das dores de crescimento que dele poderão advir.

Texto de Cristina Gentil Ferreira

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