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"Não nos deixem sós": Testemunho de uma feminista afegã

No calor da tomada de Cabul pelos talibãs, uma feminista afegã registou os sentimentos de perplexidade e revolta dos seus familiares, amigos e compatriotas. Testemunho recolhido por Carolina Peters.
mulher por detrás de bandeira do Afeganistão
Imagem da manifestação de solidariedade com o povo afegão este sábado em Roma. Foto Angelo Carconi/EPA

No calor da tomada de Cabul pelos talibãs, Yasmin Afghan (pseudónimo) registou os sentimentos de perplexidade e revolta dos seus familiares, amigos, compatriotas. Já fora do país, mas em constante contacto com os pais e companheiras feministas que permanecem lá, enviou-nos uma versão em inglês deste relato, originalmente publicado em urdu, que termina com um apelo: “Amplifiquem as nossas vozes (...) quanto mais fortes forem as vozes fora do Afeganistão, mais fortes se sentirão as mulheres e os homens do Afeganistão”. Haverá ainda muita luta, afinal, como dizem os versos de Meena Kamal, histórica feminista afegã assassinada em 1987, “A minha voz misturou-se com as de milhares de mulheres que se levantam/ (...) Eu sou a mulher que despertou/ Eu encontrei o meu caminho e nunca vou voltar”.


Os afegãos ficaram em choque com a queda repentina de províncias para os talibãs. Até há poucos dias, quando a ofensiva dos talibãs contra o exército afegão aumentou, muitos afegãos foram para as redes sociais e mostraram a sua raiva, tuitando e postando nas suas páginas e, também, comentando nos perfis de rede social de líderes mundiais e dos media internacional para que sancionassem o Paquistão [1]. Os ânimos estavam exaltados, pois muitos afegãos achavam que o Afeganistão fora vendido num plano já pré-arranjado pelos EUA, explicando por que os talibãs faziam avanços tão rápidos em direção à capital.

Nada foi mais chocante do que o anúncio de que Cabul cairia em poucas horas. Enquanto escrevo isto, Cabul já caiu nas mãos dos talibãs.

A minha mãe, que já viu quarenta anos de conflito no Afeganistão, ficou furiosa com os rumores de que Cabul cairia. “Todo o afegão sabe que os talibãs não teriam sido capaz de enfrentar o exército afegão, mas já foi firmado um acordo com os talibãs e eles agora passeiam-se por Cabul”.

Pessoas de muitas províncias afegãs haviam fugido para Cabul, pensando que estariam salvas da ira dos talibãs. Há um cenário caótico nos parques de Cabul, uma vez que os refugiados do interior do país se refugiaram lá. As pessoas não têm comida ou lugar onde dormir. Muitas famílias fugiram com medo de se tornarem alvos ou de que as suas filhas fossem raptadas pelos militantes, e há alguns relatos de que, em Takhar e em algumas outras áreas, meninas foram sequestradas e pessoas foram forçadas a entregar as suas filhas aos soldados talibãs.

Também há relatos de que estudantes universitárias e professoras foram mandadas de volta para casa na província de Herat, e há um relato de Kandahar, onde nove funcionárias de um banco privado foram mandadas embora, dizendo que em vez delas os seus familiares do sexo masculino poderiam trabalhar.

Cabul está dominada pelo medo desde então. Até aos últimos momentos, os ativistas estavam esperançosos de que Cabul não cairia, mas como o cenário mudou por lá, as pessoas invadiram os bancos para sacar o dinheiro e mudarem-se para outro lugar. Muitos temiam que Ghani renunciasse naquele mesmo dia, mas depois do seu pronunciamento, as coisas pareceram normalizar-se. Antes do seu pronunciamento, o valor do dólar havia aumentado para 100 afeganes, mas depois caiu para 85.

Kawoon Khamoosh, um jornalista afegão, escreveu: “Cabul neste momento não é nada menos que um coração atómico. Atravessei o bairro de Wazir Akbar Khan e vi pessoas transbordando pelas ruas como se fosse o apocalipse. Rostos miseráveis, jovens desesperados e famílias presas no trânsito intenso”.

Crianças de apenas 7 anos têm medo dos talibãs e estão assustadas. A geração mais jovem em Cabul sempre viveu sob um governo relativamente democrático e explicar a essas crianças sobre os talibãs é uma tarefa que muitas famílias empreenderam para preparar os seus filhos para um amanhã em que eles terão que seguir um rígido código de vestimenta, ou ver as suas mães cobrirem os seus rostos.

Há muita raiva e a frustração entre os afegãos, pois muitos temem que os seus direitos duramente conquistados sejam perdidos. Muitos estão a denunciar a comunidade internacional, que fechou os olhos à situação crítica no Afeganistão e permitiu que os talibãs entrassem em Cabul.

Rawan Karwan, uma afegã, afirmou: “Perdi tudo. A minha esperança de um futuro brilhante para o meu país, o meu sonho de ter um Afeganistão forte e estável. O meu coração está a sangrar. Os nossos aliados viraram as costas ao nosso povo, eles entregaram-nos às brutalidades.”

A presidenta da Afghan Film [2], Sahraa Karimi, disse: “Não há acordo de paz, foi um acordo para entregar o Afeganistão aos talibãs”.

Pashtana Zalmai Khan Durrani, uma educadora, disse que “primeiro os líderes venderam-nos e depois o ocidente vendeu-nos e agora os talibãs estão apenas a receber a sua recompensa, as mulheres são tratadas como mercadorias nesta guerra”.

Rada Akbar, uma artista, escreveu: “O mundo deveria sentir vergonha. Estou enojada”. Em outro tweet, ela afirmou: “Meu Afeganistão, ficamos sozinhos, com muitos inimigos, mas isso também passará e nós ressuscitaremos, mas nunca esqueceremos o que o mundo fez conosco”.

Tudo o que nós, o povo afegão, e, especialmente, as mulheres do Afeganistão precisamos é que não nos deixem sós. Amplifiquem as nossas vozes. O Afeganistão não deve voltar à era da obscuridade. As mulheres afegãs não devem ficar invisíveis na vida pública e quanto mais fortes forem as vozes fora do Afeganistão, mais fortes se sentirão as mulheres e os homens do Afeganistão. Algumas mulheres já saíram às ruas em Cabul para exigir que tenhamos presença pública e política no país. Na quinta-feira houve uma manifestação em Cabul e mulheres fizeram parte dela. A manifestação foi pela bandeira afegã, que foi removida pelos talibãs. Era o Dia da Independência do Afeganistão, então essas mulheres e homens corajosos saíram às ruas de Cabul e exigiram que os talibãs hasteassem a bandeira afegã novamente.

Yasmin Afghan

(Testemunho recolhido por Carolina Peters)

Notas:

[1] O país é acusado de conivência com os talibãs. A hashtag #SanctionPakistan chegou aos trending topics do Twitter.

[2] Companhia cinematográfica estatal do Afeganistão, fundada em 1968.

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