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Montaria na Torre Bela: “um negócio de divertimento bárbaro”

A deputada Maria Manuel Rola reage com indignação à notícia do abate de 540 animais numa ação de caça turística. Na zona em que os animais foram chacinados está prevista a instalação de um dos maiores projetos fotovoltaicos do país. O estudo de impacto ambiental prevê a “retirada” dos animais de grande porte.
Imagem partilhada pelo grupo de caçadores responsável pelo abate dos 540 animais na Torre Bela.
Imagem partilhada pelo grupo de caçadores responsável pelo abate dos 540 animais na Torre Bela.

Em declarações ao Fórum da TSF esta terça-feira, Maria Manuel Rola reagiu à notícia do abate de 540 animais por 16 caçadores espanhóis na Quinta da Torre Bela, na Azambuja, destacando que a caça “tem sido um negócio de divertimento bárbaro” que é possível “porque temos uma legislação muito pouco atualizada”.

A deputada defende que “é preciso uma atualização da lei de bases da caça” no que diz respeito à falta de fiscalização das zonas de caça turística. E vai mais longe, colocando em causa “a própria ideia perversa de caça turística” que “acaba por ter uma componente de negócio com pouca perspetiva de conservação animal e de bem-estar animal” que “normalmente tentam associar às atividades da caça”.

O que se passou na Torre Bela “deve fazer-nos refletir sobre aquilo que ainda é possível hoje em dia no nosso país” e “tem de deixar de existir”. Por outro lado, o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas “tem de ter uma capacidade de controlo de todas as atividades cinegéticas que sejam levadas a cabo com o intuito de garantir o controlo de espécies”.

ICNF suspende licença e participa crime

Depois de conhecido o caso, através das redes sociais, o dia foi de reações ao sucedido. Em comunicado, citado pela agência Lusa, o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) anunciou a suspensão “com efeitos imediatos” da licença desta zona de caça e a apresentação de uma participação ao Ministério Público de crime contra a preservação da fauna, uma vez que foram recolhidos “fortes indícios de prática de crime contra a preservação da fauna”.

O ministro do Ambiente e da Ação Climática, João Matos Fernandes diz que vai convocar o Conselho Nacional da Caça para realizar uma reflexão sobre a prática de montarias em Portugal, defendendo, desde já “que são necessárias alterações à lei para impedir que os vis acontecimentos relatados se repitam”.

Do negócio da caça ao negócio dos painéis fotovoltaicos

Na zona onde aconteceu este abate vai nascer um dos maiores projetos fotovoltaicos de Portugal com 775 hectares. O investimento previsto é de 170 milhões de euros por parte de duas empresas, a francesa Neoen e a britânica Aura Power, que vão fazer duas centrais separadas mas que promoveram um estudo de impacto ambiental conjunto.

Este, ainda em consulta pública até 20 de janeiro, prevê a retirada dos animais de grande porte da área e diz que “a proprietária desta quinta, na expetativa da implantação deste Projeto das Centrais Fotovoltaicas, tem desenvolvido ações para diminuir o efetivo dos animais. Alguns têm sido caçados, e outros têm sido transferidos para a zona murada que se localiza a nascente, onde não está previsto instalar qualquer elemento do projeto. Prevê-se que previamente ao início das obras já estejam retirados da área afeta ao Projeto todos os animais de grande porte”.

Ao Expresso, o presidente da Associação Portuguesa para a Conservação para a Biodiversidade, Nuno Gomes Oliveira, é uma das pessoas que faz uma ligação direta entra a montaria e o projeto das fotovoltaicas. Critica a expressão “alguns têm sido caçados…” porque este episódio mostra que “‘alguns’ são 540 animais em dois dias, mesmo sem o Estudo de Impacte Ambiental estar aprovado e o projeto das fotovoltaicas licenciado”. Para o biólogo “aproveitou-se o argumento da “energia limpa” para dar o “gostinho ao dedo” ferindo a "sensibilidade coletiva”.

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